|
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Consenso de Buenos Aires 'traria riscos para o Brasil', diz Williamson
O economista americano John Williamson, autor do termo “Consenso de Washington”, disse à BBC Brasil que o Brasil vai correr riscos ao associar intimamente a sua imagem à da Argentina quando assinar, na próxima semana, um documento conjunto com o país vizinho conhecido como o Consenso de Buenos Aires. “O presidente Lula está correndo um risco ao fazer este documento com a Argentina, porque os mercados internacionais têm bastante confiança no Lula mas nenhuma na Argentina hoje em dia”, disse Williamson. “Então existe pelo um menos um risco de eles pensarem que o Brasil pode mudar a política de continuar a pagar a dívida e este tipo de coisas. E se o mercado internacional ganhar esse tipo de impressão, isso não ajuda em nada o que Lula tem por fazer.” Ainda não há detalhes do que, na prática, significará o Consenso de Buenos Aires, que será firmado pelo presidente brasileiro e pelo argentino, Néstor Kirchner, durante visita de Lula à Argentina na próxima semana. Novo modelo O documento deve enfatizar que um novo modelo econômico para a América Latina precisa ter como base esforços na produção, na geração de empregos e em programas sociais. Os críticos do Consenso de Washington afirmam que os seus preceitos - privatização, liberalização comercial, rigor fiscal, desregulamentação - levados adiante por instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial ajudaram a afundar as economias latinas. Williamson não é um defensor radical deste Consenso – ele apenas o identificou e escreveu a respeito dele. Ele destaca, porém, que o Consenso de Washington tem sido reformulado para abarcar temáticas sociais e que, assim, o Consenso de Buenos Aires, poderia não acrescentar muito ao debate e ser mais um peça retórica que um instrumento prático. Leia a seguir a íntegra de sua entrevista, concedida em português – Williamson já viveu no Brasil, onde deu aulas na PUC do Rio de Janeiro, de 1978 a 1981. BBC Brasil – A assinatura do documento (o Consenso de Buenos Aires) pode de alguma forma influenciar os mercados na próxima semana? Williamson – Acho que agora os mercados têm uma visão de que os países são bem diferentes em termos de suas atitudes com relação aos mercados. O problema é de mais longo prazo. Se ocorrer novo problema no Brasil, então isso pode ser um fator a minar a confiança no Brasil. BBC Brasil - Como o senhor vê essa movimentação de Brasil e Argentina para assinar o documento do consenso de Buenos Aires? Williamson - Não sabemos ainda o que será incluído nesse novo documento. Acho que hoje todos concordam que as políticas sociais são muito importantes. Se este novo consenso só disser que essas coisas são importantes, isso não ajuda muito o debate. Mas talvez traga mais do que isso, vamos ver. BBC Brasil - Esse novo documento, segundo alguns relatos, não trará detalhes sobre as políticas concretas a serem adotadas, traz apenas linhas gerais dizendo que os países latinos devem adotar políticas mais voltadas à produção, à geração de empregos e às causas sociais. Na prática, o que esses países teriam de fazer para melhorar suas situações econômicas e mudar o modelo criado pelo Consenso de Washington? Wiliamson - Acho que todo mundo concorda que a produção, a geração de emprego e as questões sociais são os alvos. O importante é o que será feito para atingir esses alvos. Por exemplo, para a geração de emprego isso é essencialmente ligado à taxa de crescimento do país, à produção, e ao tipo de indústria e atividade adotada. Algumas atividades são bem mais capazes de gerar empregos que outras. Em termos da taxa de crescimento, acho que no Brasil isso está em função da redução da taxa de juros, o que ainda é possível por causa da política macroeconômica rigorosa que Lula fez nos primeiros meses. Acho que foi correto e muito bom que ele tenha feito isso. BBC Brasil - O senhor vê contradição entre o fato de Lula ter adotado políticas de juros altos seguindo o receituário de Washington e, ao mesmo tempo, estar formulando um documento que vá contra esse receituário? Williamson - Acho que foi necessário adotar políticas estritas para ganhar a confiança dos mercados e, por causa disso, ele tem a habilidade de reduzir os juros. Isso é uma política com consequências ao médio prazo bem mais agradáveis das que teriam acontecido se ele tivesse entrado com uma política de reduzir a taxa de juros quando o mercado achava necessário que ela fosse aumentada para combater a inflação. O que Lula fez até agora foi, no meu ponto de vista, racional. BBC Brasil – Essa iniciativa do Brasil de se juntar à Argentina e lutar por um realidade diferente daquela apregoada pelo Consenso de Washington pode trazer pressões dos Estados ou problemas políticos maiores ao Brasil? Williamson – Acho que vai ser realmente muito contra o que estava no Consenso de Washington, que pedia coisas como política econômica responsável e abertura comercial. Eu não estou lendo que eles vão denunciar essas políticas. Se for isso, acho que será um erro, mas até agora pelo menos não vimos que eles vão fazer. Minha preocupação é mais o contrário, que este novo documento não seja muito específico em termos de como chegar a esses objetivos que todo mundo acha agradável. BBC Brasil - O senhor teme que esse documento traga mais retórica do que conteúdo e mudanças políticas práticas? Williamson - Isso é uma possibilidade. Mas vamos ver o que estará escrito antes de fazer um julgamento. BBC Brasil – Na reunião da Organização Mundial do Comércio, em Cancún, o Brasil liderou a criação do G20plus para lutar pela queda de subsídios agrícolas dos países ricos. Agora articula esse documento com a Argentina. O senhor vê mudanças na política externa brasileira, com o país tentando se tornar líder do mundo em desenvolvimento? Williamson – Acho que está, mas isso não é uma coisa muito nova. O Brasil está fazendo agora com mais determinação que antigamente, mas há muitos anos o Brasil tem a reputação de fazer mais esforço pelos países em desenvolvimento. Essa iniciativa não é tão diferente. BBC Brasil – E que papel tem a Argentina na articulação desse documento? Williamson - Para mim, Lula está correndo um risco ao fazer este documento com a Argentina, porque os mercados internacionais têm bastante confiança no Lula mas nenhuma na Argentina hoje em dia. Então, existe pelo menos um risco de eles pensarem que o Brasil pode mudar a política de continuar a pagar a dívida e este tipo de coisas. E se o mercado internacional ganhar esse tipo de impressão, isso não ajuda em nada o que Lula tem de fazer. BBC Brasil – Ou seja, o senhor acredita que se o Brasil associar muito fortemente sua imagem com a da Argentina, os credores podem acreditar que o Brasil pode seguir um caminho de moratórias e de não honrar seus compromissos? Williamson – Sim, acho que agora o risco é muito pequeno. Mas se houver uma mudança na situação, isso pode criar este problema. |
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||