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Atualizado às: 10 de setembro, 2003 - 16h26 GMT (13h26 Brasília)
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Argentinos estranham que Lula não tenha ligado para Kirchner

Kirchner e Lula
Kirchner não recebeu telefonema de apoio de Lula

Nenhum dos três presidentes dos países-sócios da Argentina no Mercosul telefonou para o presidente argentino, Néstor Kirchner, no dia mais tenso do seu governo, quando decidiu não pagar o Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Chama atenção o fato de nem o Brasil, nem o Uruguai e nem o Paraguai terem telefonado para respaldar a decisão de Kirchner”, disse à BBC Brasil o cientista político Rosendo Fraga, do Centro de Estudos União para Nova Maioria, um dos principais analistas da Argentina.

"Com a atitude, os três presidentes deixaram claro que não querem aparecer apoiando uma política de confronto com o FMI."

O chefe de Gabinete da Casa Rosada, Alberto Fernández, informou que quatro presidentes latinos telefonaram na terça-feira para dar solidariedade ao presidente Néstor Kirchner.

Presidentes

Foram eles: Vicente Fox, do México, Ricardo Lagos, do Chile, Alejandro Toledo, do Peru, Álvaro Uribe, da Colômbia. Mas nao citou os nomes dos presidentes do Mercosul.

A imprensa argentina destacou, porém, a "ausência" de uma ligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que foi esperado por Kirchner até a meia-noite da terça.

Na manha desta quarta-feira, um dia depois que a Argentina deu o maior calote da história do FMI, com uma parcela no valor de US$ 2,9 bilhoes, a Embaixada do Brasil em Buenos Aires e a Casa Rosada não tinham registrado este telefonema do presidente Lula.

No governo, também não havia sido registrada nenhuma ligaçao de Jorge Batlle, do Uruguai, e Nicanor Duarte Frutos, do Paraguai.

Publicamente, Batlle, avesso a medidas do governo Kirchner, limitou-se a dizer que esperava que o acordo fosse terminado.

Expectativas

De acordo com o chefe de Gabinete da Casa Rosada, o governo argentino decidiu não pagar o FMI porque não queria gastar 25% das suas reservas, colocando em risco o crescimento da Argentina, já que o fundo não tinha dado sinal claro de que assinaria um acordo com o país.

O próximo acordo, em negociação, não prevê dinheiro novo para a Argentina, mas a renegociação de uma dívida de cerca de US$ 13 bilhoes ao longo de um acordo que teria três anos de duração.

Para o economista Miguel Angel Broda, guru de investidores locais e estrangeiros, a decisão de Kirchner foi um ato "heróico".

"Tentar pressionar o fundo desta forma é um ato heróico. Vamos ver qual será o resultado", afirmou.

Analistas políticos, como Rosendo Fraga, e econômicos, como Broda, entendem que o ministro da Economia, Roberto Lavagna, vive hoje, no mínimo, uma “situaçao incômoda” no governo Kirchner.

"No governo de Eduardo Duhalde (anterior ao de Kirchner), era Lavagna quem negociava com o fundo. O que não ocorreu nas últimas horas, quando o presidente Kirchner decidiu tomar a dianteira dessa delicada negociação", ressaltou Rosendo.

"Os empresários argentinos estão atentos a essa situação entre Kirchner e Lavagna e esperam que o atual ministro da Economia continue no cargo", afirmou Broda.

Entendimento

Miguel Angel Broda e outros economistas, como Carlos Melconian e Orlando Ferreres, da consultoria Ferreres e Associados, acreditam que a Argentina acabará chegando a um entendimento com o FMI.

Especula-se que esse acordo ocorra na semana que vem, logo após as eleições, neste domingo, para a Província de Buenos Aires e para a capital federal – dois pleitos decisivos para a construçao da base política do presidente Néstor Kirchner, eleito com 22% dos votos, mas que acumula 80% de imagem positiva.

Depois da eleição, o governo argentino poderia adotar medidas que agora, a poucos dias de mais de 50% dos argentinos irem às urnas, são consideradas antipáticas.

Rosendo Fraga lembrou que a Argentina e o Equador, países com "instabilidade democrática", são os dois únicos latinos que estão em moratória com o FMI.

"Agora, a Argentina tem recebido declarações públicas de apoio dos Estados Unidos, nesta negociação com o fundo, porque ao governo Bush não interessa ter outro presidente aliando-se à política de confronto do venezuelano Hugo Chávez”, declarou Rosendo.

"Para mim, aqui não se está discutindo o destino político, mas econômico da Argentina. E foi essa falta de um plano econômico que nos levou à moratória", disse o economista Luis Secco, cuja consultoria leva seu nome.

Curiosamente, Broda, Ferreres e Melconian concordam ainda que mesmo chegando a um acordo com o FMI, pouco mudará para a Argentina.

"Os investidores não vão querer fazer grandes apostas no país, se o governo continuar resistindo a realizar reformas estruturais, o que ficará claro no próximo acordo com o fundo”, disse Ferreres.

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