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Ameaça comercial dos EUA é 'vazia', diz acadêmico
As ameaças feitas pelos Estados Unidos de que se voltaria para acordos bilaterais depois do fracasso das negociações de Cancún são "vazias", de acordo com o economista indiano Jagdish Bhagwati, especialista em comércio internacional. Para Bhagwati, que presta consultoria à Organização Mundial do Comércio (OMC) e é professor do Departamento de Economia da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos – onde dão aula muitos acadêmicos críticos à política comercial americana – a ameaça feita pelos americanos é como "um bêbado dizer que tomará mais um gole de vinho". Com o fracasso da reunião, representantes americanos, como Roger Noriega, subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental, criticaram a atuação brasileira em Cancún. Noriega disse ainda que o resultado negativo impedia a criação da Alca no prazo de 2005. Ao contrário de outros analistas, o acadêmico disse ainda que o fracasso das negociações de Cancún não elimina um acordo de livre comércio do horizonte. Para ele, que serviu de consultor especial ao GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) - cuja Rodada Uruguai levou sete anos e meio para ser fechada, negociações deste tipo levam tempo e seria irrealista esperar resultados no curto prazo. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Bhagwati concedeu à BBC Brasil. BBC Brasil - O senhor achou surpreendente o fracasso das negociações em Cancún? Muitos países ficaram surpresos com a maneira com que tudo terminou, tão rapidamente. Normalmente, essas negociações continuam por pelo menos mais um dia. Os países (em desenvolvimento) estavam fazendo um pouco de jogo de cena, mas havia uma boa razão para isso, o fato que eles estavam vocalizando suas posições, se fazendo ser ouvidos. Um dos grandes avanços de Cancún foi que muitos países em desenvolvimento estão se juntando. Suas vozes agora estão sendo ouvidas e, por isso, a habilidade dos Estados Unidos de jogar esse jogo cínico dos acordos bilaterais fica limitada. E esse jogo político é o que acontece mesmo nessas negociações de qualquer maneira. E essas não eram nem mesmo negociações para um acordo final, eram só o que se pode chamar de meio do caminho. Então, era desejável que essas discordâncias fossem vocalizadas de qualquer forma. Os países envolvidos ainda poderiam ter chegado a um entendimento em relação a algumas coisas, e isso foi o que decepcionou todos os lados envolvidos. BBC Brasil - Como resultado de Cancún, Robert Zoellick (representante de Comércio dos Estados Unidos) e Roger Noriega criticaram países que disseram preferir nenhum acordo a um mau acordo, como o Brasil, e disseram que os Estados Unidos vão se concentrar na realização de acordos bilaterais, fazendo com que isso soasse como ameaça, no sentido de esvaziar o poder de barganha de quem não tinha concordado com o que foi oferecido na reunião. O que o senhor acha disso? Essa é uma ameaça vazia. E isso ocorre por duas razões. A primeira delas é que eles já estão se dedicando a fazer acordos bilaterais. Portanto, o fato de ele dizer agora que se concentrará em acordos desse tipo é como um bêbado dizer que tomará mais um gole de vinho. Ou seja, é insignificante. Se eles já não estivessem recorrendo a essa estratégia, sua ameaça seria crível. Por isso, ninguém presta a menor atenção a isso. Ele (Zoellick) está nervoso, porque deixará o governo ao fim do ano que vem, assim como Pascal Lamy (representante Comercial da União Européia), e teria gostado de ver resultados de Cancún em seu currículo. A segunda razão pela qual as ameaças são vazias é que o tema principal das negociações é agricultura, e os americanos também estão interessados em liberalizar o setor. E não há como você resolver a questão dos subsídios agrícolas em tratados bilaterais. Não se pode eliminar ou reduzir os subsídios de um país só em relação ao Brasil, à África do Sul ou ao Chile. BBC Brasil - Quem o senhor acha que pode criar mais empecilhos à liberalização da agricultura? Os Estados Unidos também querem muito liberalizar a agricultura porque se vêem basicamente como país exportador. Os países que podem atrapalhar a chegada a uma solução para o assunto são os europeus, e acho que muita gente acha que os americanos cometeram um erro tático ao se unirem aos europeus. Zoellick fez um acerto com eles, o que acabou comprometendo uma oferta muito mais ambiciosa que seria feita aos outros países pelos americanos. A proposta original americana era muito melhor do que acabou sendo apresentado, e muita gente a teria assinado. BBC Brasil - O senhor acredita que ainda há esperança para as negociações? Estou otimista a respeito de um acordo. Fiquei sabendo que o chefe da delegação brasileira (o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim) disse nesta semana que o Brasil ainda está tentando obter resultados. E as coisas ainda estão no estágio da negociação. Os Estados Unidos serão obrigados a enxergar que o que aconteceu foi um erro e voltarão à estratégia multilateralista, que é a única forma com que se pode negociar esse tipo de assunto. Acredito que a posição do Brasil é basicamente essa, assim como a da Índia, da África do Sul e assim por diante. Eles voltarão a negociar e chegarão a algum resultado. Agora, a única preocupação é que, com as eleições prestes a acontecer nos Estados Unidos, é difícil dizer como as coisa vão de desenrolar. O que se pode ver é um acordo sendo fechado daqui a três anos. Além disso, não é possível chegar a um acordo significativo em menos tempo, porque a economia mundial não anda muito bem. Há uma forte relação entre o avanço da liberalização comercial e o estado da economia, pela simples razão que quando empregos estão em risco e as pessoas estão se sentindo inseguras, é difícil para os políticos convencerem o seu eleitorado de que a liberalização é um bom negócio. BBC Brasil - Em quanto tempo o senhor acha que se chegará a algum resultado? É difícil dizer. Especialmente com assuntos complicados como agricultura na agenda. A rodada anterior de acordos multilaterais, do Uruguai, levou sete anos e meio. A rodada de Tóquio tomou quatro anos de negociações. Até mesmo acordos bilaterais levam tempo para serem concluídos. O acordo entre os Estados Unidos e o Chile, que foi o último a ser negociado pelos americanos, levou 15 anos para ser negociado. Dessa forma, foi excessivamente ambicioso pensar que se chegaria a algum acordo agora. |
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