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Atualizado às: 01 de julho, 2003 - Publicado às 18h16 GMT - 15h16 (Brasília)
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Sachs elogia Lula, mas diz que juros devem cair

O economista americano Jeffrey Sachs
Jeffrey Sachs diz que país precisa investir no social

O economista americano Jeffrey Sachs, da Universidade Columbia, elogiou a condução geral da política econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas disse que os juros continuam altos demais.

"Os fundamentos da economia brasileira não justificam juros tão altos. Mas é necessário que o governo apresente um plano mais coerente para médio prazo que mostre o estado de solvência do governo", afirmou Sachs, que é um dos principais estudiosos da globalização e da economia internacional.

O professor americano defendeu ainda uma política de exportação agressiva, principalmente em relação à Alca (Área de Livre Comércio das Américas).

Leia abaixo a íntegra da entrevista de Sachs.

BBC Brasil - O governo Lula completa seis meses, e as taxas de juros ainda não baixaram significativamente. O que o sr. acha das taxas de juros no Brasil?

Jeffrey Sachs - As taxas de juros podem baixar. Os fundamentos da economia brasileira não justificam juros tão altos. Mas, para os juros baixem, é necessário que o governo apresente um plano mais coerente para médio prazo que mostre o estado de solvência do governo. A idéia de que esses juros altos refletiriam o alto risco do país são injustificadas. Então, uma coisa que eu recomendaria ao governo é uma demonstração muito mais coerente de um cenário de médio prazo para explicar aos mercados que eles estão errados, e eu realmente acho que estão errados. Não há realmente razão para juros em torno de 25%. Mas esses juros altos refletem um sentimento de risco dos mercados e para desfazer isso, o governo tem que fazer um trabalho muito bom para explicar que isso é um tipo de pânico auto-realizável. Altos juros estão lá por causa do risco, mas o risco está lá por causa dos juros altos. Se a estrutura de juros altos caísse, o Brasil pareceria muito melhor e mais seguro. Por isso, não há necessidade para esses juros altos.

BBC Brasil - Mas, fundamentalmente, isso depende da resposta dos mercados no fim das contas.

Sachs - Eu realmente acredito que os mercados não são muito bons em interpretar fundamentos. Acho que eles tiveram uma leitura absurda do próprio Lula no ano passado. Estavam pessimistas em excesso e se levaram ao pânico. Não acho que entendem os fundamentos do Brasil e é por isso que o governo poderia baixar os juros por meio de um esforço coordenado de explicar o cenário de médio prazo do Brasil. Parte desse cenário de médio prazo vai ser alcançado quando o presidente ganhar as reformas básicas da Previdência e tributária. E mostrar que uma estrutura fiscal sólida está sendo formada. E parte é explicar melhor os dados.

BBC Brasil - Críticos do governo dizem que não apenas o governo Lula se preocupa demais com taxas de inflação, mas que também Fernando Henrique Cardoso se preocupou demais com inflação. O senhor acredita que, depois de ter tido um programa bem-sucedido de estabilização, o Brasil ainda teme a inflação e deveria deixar isso para trás?

Sachs - Acredito que a inflação pode permanecer baixa e os juros podem cair. Não acredito que isso seja uma camisa de força para a economia. Mas os mercados estão nervosos, em parte porque não fazem um bom trabalho de análise, não têm informação suficiente. E parte é porque há poucos anos houve a crise financeira, e a última década foi um período de inflação muito elevada. Então, leva tempo para que os mercados entendam melhor as coisas. Como disse, não vejo qualquer justificativa para que os juros estejam nesse nível, mas estão lá. Acredito que o governo poderia preparar uma programa em que os juros poderiam estar consideravelmente abaixo do nível em que estão.

BBC Brasil - O sr. acredita que o governo está excessivamente cauteloso agora?

Sachs - Acho que o governo fez um excelente trabalho, mas acredito que, com um trabalho adicional de fazer passar as reformas no Congresso e também explicar de forma muito coerente, eu quero dizer com os verdadeiros números e dados, não o cenário de curto prazo, mas o cenário para os próximos cinco anos, seria possível baixar os juros de forma significativa. Mas não pode apenas baixar, é preciso ganhar a confiança dos mercados. Porque a razão pela qual os juros estão tão altos é porque ainda existe muito risco que é percebido em relação ao Brasil, um risco que não acredito que seja justificado ou real.

BBC Brasil - Voltando à distribuição de renda. O governo tinha prometido durante a campanha se concentrar em políticas redistributivas direcionadas às altas discrepâncias de renda no Brasil. Mas a falta de crescimento econômico deixou pouco espaço para isso, investimento em políticas sociais. O que poderia ser a solução para esse problema a curto prazo?

Sachs - Minha visão é que os sérios problemas de distribuição de renda do Brasil serão melhor tratados com grandes investimentos em saúde, educação e política agrícola para os mais pobres. O foco deveria ser fortalecer os pobres, construindo seu capital humano, o capital de ser saudável, o capital de ser bem educado, o capital de ser mais produtivo. Isso, penso, precisa ser deixado bem claro e estratégico. Não é um processo imediato. A desigualdade no Brasil tem cerca de dois séculos e meio de idade. Tem raízes geográficas, políticas e sociais extraordinariamente profundas. Mas tem também uma saída para isso no mundo e na economia modernos. E essa saída é fortalecer os pobres para que sejam produtivos. Isso é uma questão de política fiscal, mas principalmente uma questão de o governo aumentar os investimentos em saúde, educação e produtividade rural, e isso precisa ser parte daquele plano de médio prazo de que falei antes, para realmente mostrar aos mercados, e o que é mais importante ainda, ao povo brasileiro, que existe uma forma de ter ambos: estabilidade macroeconômica e investir nessas grandes preocupações sociais. Não há um remédio de curto prazo para isso. É claro que as necessidades urgentes dos pobres precisam ser atendidas. Quando as pessoas estão profundamente malnutridas, elas precisam receber os meios para uma nutrição apropriada. E é disso que trata o programa contra fome. Mas os problemas de longo prazo de desigualdade de distribuição de renda estão relacionados com investimento na produtividade dos pobres e das regiões pobres do Brasil. E isso só vai trazer resultado em alguns anos.

BBC Brasil - Um governo que usa a maior parte dos recursos disponíveis para pagar juros e servir sua dívida não vai ter dinheiro suficiente para investir em políticas sociais. Então, a curto prazo não há saída...

Sachs - Mesmo que o governo tivesse dinheiro, a curto prazo não há saída para a desigualdade, porque a maneira de resolver essas desigualdades não é dando dinheiro, porque isso não vai resolver os problemas estruturais profundos. Os pobres não conseguem serviços públicos apropriados, não obtêm educação suficiente, não são suficientemente saudáveis e são malnutridos. As soluções estruturais para isso são fazer investimentos públicos significativos em educação, saúde, produção rural. Mesmo que o governo tivesse muito dinheiro agora e fizesse esses investimentos, os resultados seriam vistos em 5, 10 ou 15 anos. As crianças ficam mais saudáveis, vão à escola e se tornam membros produtivos da economia. De tal forma que as famílias têm filhos que ganham mais. Esse é um processo que vai levar muitos anos, tendo em vista o grau de desigualdade em produtividade e acesso aos serviços públicos de saúde e educação existentes hoje no Brasil. Então, não é uma questão de recursos de curto prazo. O que é verdade, porém, é que os juros altos consomem dinheiro. O governo recolhe receitas tributárias e usa para um fim que não produz resultados que ajudem a derrubar os juros.

BBC Brasil - O processo de globalização funcionou em países como a China, onde milhões de pessoas saíram da pobreza, mas não funcionou no caso de países como o Brasil e a Argentina, onde a diferença social não diminuiu e, no caso da Argentina, até aumentou. O que deu errado na América Latina?

Sachs - Acho que, por mais que pareça estranho, mesmo que a China não seja uma sociedade aberta e esteja sob um regime de um partido único, ela abriu sua economia mais do que o Brasil para o comércio internacional e os investimentos estrangeiros. A China cresceu rapidamente na esteira do sucesso da globalização. O Brasil se manteve basicamente fechado até 1999 e, mesmo quando o Brasil e a Argentina entraram no Mercosul, eram duas economias fechadas comercializando entre si, não eram duas economias competindo no mercado mundial. Fico feliz em dizer que, desde a desvalorização do real em 1999 e a queda da demanda interna, a indústria brasileira partiu para buscar novos mercados para exportação, e foi isso que a China fez também. Agora as exportações do Brasil estão crescendo rapidamente, estão mostrando competitividade internacional, e você tem empresas como a Embraer, que são grande empresas competitivas internacionais em áreas de alta tecnologia. Isso vai trazer muitos resultados positivos para o Brasil. Eu diria que finalmente o Brasil decidiu que vai competir nos mercados internacionais em vez de viver numa economia fechada com estratégia voltada para o Brasil. Meus amigos no Brasil costumavam dizer durante o período de supervalorização do real nos anos 90: 'Não se preocupe, nós temos uma grande mercado interno'. Eu dizia que mercados internos não garantem um crescimento dinâmico. Se você quer um crescimento dinâmico, você precisa exportar para o mundo, sair e competir, e eu acho que isso está acontecendo agora.

BBC Brasil - O presidente Lula esteve há pouco nos Estados Unidos para discutir com Bush a Alca. O sr. acha que o Brasil vai ter benefícios com ela?

Sachs - Eu não acho que isso deva acontecer logo e eu acho que o Brasil deve manter a sua posição de negociação agressiva, que é, se você quer uma área de livre comércio, tem que ser realmente livre comércio, incluindo acesso aos Estados Unidos para as exportações agrícolas brasileiras. Os Estados Unidos querem um comércio livre do tipo 'Abra o mercado para as coisas que nós vamos vender para vocês, mas nós não vamos abrir o mercado para as coisas que você quer vender para nós'. O comércio tem que ser nas duas direções, inclusive a liberalização do setor de agricultura dos Estados Unidos. A minha opinião é que essas negociações vão se arrastar, nós não vamos ter uma área de livre comércio na data marcada, 2005. Pode ser que os fatos me desmintam, mas eu não vejo isso acontecendo agora. Os Estados Unidos são muito políticos no seu próprio planejamento comercial, sem mencionar os problemas dos outros países.

BBC Brasil - O sr. disse uma vez que o Brasil deveria seguir sua vocação para exportação e deveria tentar expandir seu nível de comércio com outros países. O sr. acha que o país está no caminho certo, está fazendo o suficiente para garantir isso?

Sachs - Uma coisa interessante que estamos vendo hoje é que o Brasil está vendendo mais para o Oriente Médio e para a Ásia. Estamos vemos um aumento grande acontecendo agora em mercados não tradicionais. Isso é que eu sempre quis ver no Brasil. As exportações brasileiras para a China aumentaram muito, para a Ásia subiram 50% em um intervalo de tempo recente, as exportações para o Oriente Médio subiram, e isso é importante porque o Brasil tem uma economia potencialmente muito diversificada, tem a habilidade de vender para os mercados internacionais, mas, para vender no exterior, você tem que ser muito competitivo, tem que prestar muita atenção. O governo tem um papel importante para ajudar a promover as exportações brasileiras. Eu acho se isso está realmente acontecendo, será essencial para garantir o crescimento econômico mais rápido.

BBC Brasil - Quais são os maiores desafios para o governo Lula agora?

Sachs - Eu acho que o principal desafio é encontrar um meio de ter uma agenda que continue a promover as necessidades sociais do país, ao mesmo tempo convencendo o mercado de que o Brasil é uma parte responsável da economia mundial. Eu acho que isso é possível, e que o país está no caminho certo. Isso quer dizer estabelecer uma estratégia clara de médio prazo, quer dizer fazer passar essas grandes reformas no Congresso, quer dizer mostrar um caminho de crescimento baseado no rápido crescimento das exportações nos mercados mundiais, provando que o Brasil pode competir, quer dizer um forte investimento no nível de habilidades, de educação e de ciência no Brasil para que o país realmente realmente seja uma parte da economia mundial altamente produtiva e de alta tecnologia. Nada disso é fácil, mas acho que o presidente é o tipo de líder que poderia juntar uma coalizão que pode executar essa árdua tarefa.

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