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Política econômica de Lula divide analistas
A opção do governo Luiz Inácio Lula da Silva pelo conservadorismo econômico traduzido pela austeridade monetária e fiscal - nos primeiros seis meses de gestão divide analistas e acadêmicos. A manutenção das altas taxas de juros e do rigor com os gastos públicos que caracterizaram o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso surpreendeu tanto a integrantes do PT como aos liberais do mercado. Segundo os analistas, o Executivo deve agora se concentrar na aprovação da reforma da Previdência e no aprofundamento da abertura comercial do país para viabilizar o crescimento econômico sustentado do país. Para Paulo Leme, diretor-geral de Pesquisas para Mercados Emergentes da Goldman Sachs, as escolhas do governo foram acertadas. Reforma "A coisa mais importante é o sucesso do programa de estabilização econômica. A condução da política fiscal e monetária foi acertada", diz Leme, que chegou a ser cotado para a presidência da instituição. "A inflação vem caindo muito, o ajuste das contas externas é muito impressionante e o resultado disso tudo é que o país recuperou a confiança do investidor", acrescentou. Segundo essa visão, a reforma do sistema de aposentadoria do país pode reduzir o déficit público e ampliar o nível de recursos disponível na economia, aumentando a capacidade de investimento produtivo. Por sua vez, a elevação do volume de comércio com outros países pode vir a gerar mais divisas estrangeiras, reduzindo a dependência por financiamento externo. Investimento Segundo Ricardo Amorim, diretor da Área de Investimentos para a América Latina da consultoria independente Idea Global, a vulnerabilidade enfrentada pelo país por causa de históricas taxas de poupança interna e dependência de capital externo não deixaram outra alternativa ao governo do PT. "Com um déficit público como o do Brasil e sem a realização da reforma da Previdência, sobra pouco espaço para o investimento doméstico. Por isso, o país precisa de capital externo, que fica escasso por causa das instabilidades no mercado internacional", diz o analista. O governo Lula começou a enfrentar dificuldades ainda durante a campanha, quando o mercado internacional entrou em pânico com a perspectiva de um ex-líder sindical que já havia defendido o calote da dívida chegar ao poder. Os recursos externos minguaram, o dólar subiu. A taxa de juros começou uma escalada antes das eleições, em outubro, para garantir a entrada de capital externo, que busca uma remuneração atraente. Alternativa Lula surpreendeu com o caráter conservador das políticas econômicas de seu governo, e ao longo dos primeiros seis meses, recuperou a confiança do investidor resultando na redução da avaliação de risco do Brasil, trazendo mais capital externo para o país, com a consequente queda do dólar. Mas, se por um lado a opção do governo conseguiu domar a inflação e controlar a depreciação do real, por outro asfixiou o crescimento econômico, fazendo subir as taxas de desemprego, agora em mais de 12%. Ao condenar essa escolha feita pelo governo, Alfredo Saad Filho, especialista em Desenvolvimento Econômico e professor da Universidade de Londres diz que havia um caminho alternativo. "O empresariado brasileiro está furioso com o governo", observa Saad Filho. "E havia outra alternativa, a alternativa que foi votada por milhões de brasileiros, uma alternativa mais nacionalista e desenvolvimentista", diz, em referência a uma linha de política de governo em que o Estado tem um papel mais atuante. Comércio Mas, para Leme e Amorim, os reparos ao início da gestão Lula se referem à falta de avanços em setores como a regulamentação da economia e mais agressividade na ampliação das metas de comércio exterior, com o objetivo de gerar mais divisas para o país. A balança comercial passou a apresentar superávits com a desvalorização do real que tornou as exportações brasileiras mais baratas e com a elevação no mercado internacional dos preços de commodities que o país exporta. Amorim defende uma ofensiva que amplia a participação do comércio exterior no PIB do Brasil. Leme completa que o único caminho é avançar no fechamento de acordos bilaterais de comércio, especialmente com a União Européia e com os Estados Unidos. Endividamento "É preciso abandonar o ideal romântico do Mercosul, onde as economias são voláteis e os PIBs são pequenos", diz Leme. "Isso vai nos trazer apenas US$ 3 bilhões a mais ao ano", acrescenta. "Precisamos de algo em torno de US$ 60 bilhões ao ano, e só a União Européia e os Estados Unidos poderão nos trazer isso", completa. Os dois ressaltam que a aprovação de uma versão da reforma da Previdência com um mínimo de concessões políticas deve ser uma prioridade do governo, para garantir a melhoria dos índices de poupança interna. Técnicos Leme ainda ressalta a necessidade da reforma da lei de falências, garantindo assim a redução do spread bancário, e avanços no caminho da autonomia do Banco Central. "Há hoje, no Brasil, tantos comentaristas econômicos quanto de futebol. Isso polariza desnecessariamente o debate em torno da política econômica", ironiza. Mas os dois acreditam que o país está no caminho certo e que gradativamente a confiança do investidor externo, com a conseqüente entrada de capital estrangeiro, e o avanço das reformas. Para os analistas, essas medidas vão permitir mais crescimento a partir do final de 2003, começo de 2004, o que fará o país gerar mais emprego. Ruptura Para Saad Filho, no caminho inverso de Leme e Amorim, o governo do PT tem que reverter a opção neoliberal que fez. Ele acredita que ao fazer o que o mercado quer, sua dependência se aprofunda. A mudança de rumo seria essencial para assegurar a estabilidade política, fundamental para garantir o crescimento do país e a manutenção da democracia. De acordo com Saad Filho, os setores da sociedade que levaram Lula ao poder esperam um projeto diferente. Não retornar ao prometido seria um convite à ruptura. |
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