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Vizinhos aprovam Lula, mas temem sua liderança
Os primeiros seis meses de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva têm merecido elogios nos países vizinhos, apesar das críticas que começaram a surgir na Argentina, de questionamentos na dividida Venezuela e do "mal-estar" que sua suposta liderança na região estaria gerando no Chile. Na opinião da analista econômica e ex-secretária da Indústria da Argentina, Débora Giorgi, o presidente Lula vem sendo apontado por diferentes setores como líder natural da região. Para ela, Lula superou todas as expectativas. "Ele demonstrou capacidade de lideranca, jogo de cintura e resistência aos lobbies", diz. A consultora observa ainda que, neste período, o presidente revelou "valentia" ao optar por uma estratégia de reformas profundas. Crescimento O professor de Ciências Políticas da Universidade Torcuato Di Tella, Sergio Berensztein, concorda com a análise. Ele acrescenta ainda que, ao optar pelo ajuste e cumprimento da dívida pública, Lula está preparando o Brasil para um crescimento de médio e longo prazos, apesar dos primeiros efeitos negativos na economia real. "Além disso, a estabilidade do Brasil gera estabilidade e crescimento para toda a região." Mas sua política econômica também tem recebido as primeiras críticas nestes primeiros seis meses. De la Rúa O jornal argentino Página 12 fez uma enquete entre analistas para saber se Lula é um novo Fernando De la Rúa, o presidente que fez ajustes, mas que renunciou sob panelaços, em dezembro de 2001. "Es Lula como De la Rúa?", publicaram em duas páginas. Ao que o economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Júnior, um dos entrevistados, respondeu: "Lula está sendo mais papista que o papa ao implementar uma política fiscal e monetária muito ajustada, com o aprofundamento da agenda conservadora". O economista chefe do banco ABN Amro no Brasil, Mario Mesquita, também entrevistado pelo jornal argentino, afirmou que Lula está aplicando "a política que o Brasil precisa". Para o argentino Sérgio Berensztein, é "cega e equivocada" a possibilidade de comparação entre Lula e De la Rúa. "Lula está levando a região para o caminho certo". declara. A mesma interpretação é feita no FMI, onde Lula é definido como exemplo a ser seguido. Nos bastidores do fundo, comenta-se que, se a reforma da Previdência entrar em vigor, o Brasil será um "catalisador de investimentos". Venezuela Na Venezuela, onde o presidente Hugo Chávez é avesso à política do FMI e ao governo do presidente George W. Bush, a imagem de Lula gera polêmica, como destaca de Caracas o escritor e analista Alberto Garrido, colunista do jornal El Universal. "Lula tem nadado entre duas águas. De um lado, abre um diálogo direto com o presidente Bush e de outro aproxima a Venezuela do Brasil, fortalecendo o Mercosul", observa. O Diário Nacional publicou, recentemente, que o governo brasileiro vem sendo apontado por estar se metendo na política interna da Venezuela, o que não teria ocorrido somente durante a greve do setor petroleiro no início do ano. Essa atitude, segundo Garrido, não teve a aprovação dos que formam a oposição a Chávez. Plano Colômbia "Nesses primeiros meses, Lula atuou com tranqüilidade na cena internacional. Mas, na semana passada, ocorreu um fato delicado: a assinatura de um convênio entre os Ministérios da Defesa do Brasil e da Colômbia para a ampliação do Plano Colômbia, um Plano Colômbia 2", afirma Garrido. Esse acordo prevê, como lembra, a cooperação militar entre os dois países no combate à guerrilha e ao narcotráfico e acaba com a neutralidade que era esperada do governo brasileiro nessa questão. "Esse pacto entre os dois países marca a internacionalização do Plano Colômbia, o que queria o governo americano", diz. "Daqui, da Venezuela, também observamos que o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) vem agindo com mais intensidade, o que obrigará o presidente a tomar medidas mais rápidas." Para o analista venezuelano, até aqui os Estados Unidos têm permitido, ao mesmo tempo, que exista o que Garrido chamou de "elo revolucionário" - Brasil, Venezuela e Cuba. "Até agora, pelo menos, a teoria que impera no governo americano é: mais vale petróleo (venezuelano) na mão do que uma revolução voando", ironiza. Chile No Chile, diferente da Venezuela, as opiniões não estão divididas. Seis meses depois, Lula continua merecendo aprovação, como destaca de Santiago o cientista político Francisco Rojas, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). "A impressão que temos de Lula no Chile e na comunidade internacional é a de que ele é um grande sucesso", afirma Rojas. "A expectativa era que ele enfrentaria problemas com o sistema internacional, especialmente os Estados Unidos e dentro do próprio Brasil. Mas não foi o que ocorreu." Assim como a argentina Débora Giorgi, Rojas acha que Lula demonstrou "enorme jogo de cintura", já que hoje o governo brasileiro tem diálogo "direto" com o governo americano, foi convidado para participar da reunião do G-8 e mantém "bom diálogo" com os presidentes Ricardo Lagos, do Chile, e Néstor Kirchner, da Argentina. Porém, quando questionado se o presidente brasileiro é, portanto, um "líder nato" da região, Rojas defendeu que a liderança seja compratilhada numa espécie de "ABC mais um", definição que usou. Quer dizer, Argentina, Brasil, Chile e México. Lideranças pessoais O analista chileno entende que a América Latina não precisa de lideranças pessoais. Para ele, o Brasil sempre será um líder devido a seu tamanho. Os comentários sobre a possível liderança de Lula na região não estariam agradando ao governo do presidente Ricardo Lagos, como chegou a publicar o jornal La Tercera, de Santiago, durante a última reuniao do Mercosul, há poucos dias. O Chile é o único país da América do Sul a ter assinado um acordo bilateral com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, naquele país banhado pelo Pacífico, o desemprego está em queda, diferente do que ocorre nos países vizinhos, inclusive o Uruguai e o Paraguai, onde a crise social registra números em alta. Mas, num momento de negociações com a União Européia e para a formação da Alca, analistas apostam que Lula será fundamental para fortalecer o Mercosul e a região em geral. Por isso, esperam definições sobre a criação do Parlamento do Mercosul, o incremento da vinculação física (pontes e estradas) entre os países que formam o bloco (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, além do Chile, da Bolívia e da própria Venezuela) e até sobre o anunciado papel do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) em países como Chile e Venezuela. Decisões que contribuirão para seu papel de líder, afirmam os negociadores do Brasil e da Argentina. |
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