|
Filme de Gibson é volta ao 'obscurantismo', diz Zeffirelli | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O filme de Mel Gibson sobre a paixão e morte de Jesus Cristo é um ''retorno ao obscurantismo medieval cristão anti-hebraico'', na opinião do cineasta italiano Franco Zeffirelli. O diretor de Romeu e Julieta e Jesus de Nazaré disse, em entrevista à BBC Brasil, que a violência não o chocou, mas lamentou e afirmou que se sentiu ofendido pelo preconceito contra o povo judeu. ''Percorremos um longo percurso para nos liberar dessa herança dramática e não podemos permitir a volta aos tempos de barbárie absurda que custaram a vida de milhões de inocentes'', comentou. Zeffirelli, de 81 anos, disse que está ''indignado''. Em sua opinião, o filme pode ter conseqüências graves e até provocar ''kamikazes cristãos contra judeus''. Ele espera que a França, como anunciado, proíba sua divulgação. Mensagem Apesar de não ter gostado do conteúdo, o diretor afirma que, do ponto de vista cinematográfico, o filme é muito bem-feito, por pessoas inteligentes e competentes. ''Mas o problema é a gravidade da mensagem que manda para o mundo'', acrescentou. ''Quando se toca essa matéria, é preciso estar muito atento, é uma responsabilidade. O cinema é uma arma de penetração perigosíssima e deve ser usado com cuidado porque deixa cicatrizes inapagáveis na memória e na consciência'.' Em Jesus de Nazaré, filmado em 1977, com Robert Powell, Olivia Hussey, Anne Bancroft, Anthony Quinn e Rod Steiger, o cineasta disse que houve grande cuidado com o texto, baseado nos evangelhos. O roteiro foi escrito por Anthony Burgess e Suso Cecchi D'Amico. Na opinião de Zeffirelli, Mel Gibson não se preocupou muito com esse aspecto e não usou as falas de Cristo e dos judeus para mostrar qual era o problema. ''Não podemos representar uma tragédia que teve essa importância na história da humanidade sem esclarecer como ocorreram os fatos e por quê. É um perigo principalmente diante dos jovens que não sabem, ainda mais hoje, com uma tendência muito difusa ao anti-semitismo'', afirmou. Duas versões Franco Zeffirelli disse que não confrontou as duas obras e chegou a conclusões pessoais como se nunca tivesse feito um filme sobre Jesus.
Segundo o cineasta, há graves falsidades históricas em A Paixão de Cristo e ''uma tendência sanguinária exibida''. Tendência que ele já conhecia. Gibson e Zeffirelli trabalharam juntos em 1990, quando o cineasta italiano dirigiu o ator em Hamlet. Em um artigo que escreveu para o jornal Corriere della Sera, Zeffirelli recordou que, durante as gravações, ouviu de Gibson a descrição crua e detalhada da expressão que os animais fazem quando estão prestes a morrer. ''Aprendeu matando bezerros em suas fazendas, para relaxar. Não com uma arma, mas com facões'', diz o texto. Definindo-se como profundamente católico, o cineasta lamenta que a Igreja Católica não tenha tomado uma posição nítida contra o filme para ''confirmar o que já disse há 25 anos e repetiu com o pedido de perdão de joelhos pelos erros do passado''. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||