O brasileiro que 'inventou' o feijão que está no prato de 60% do país

Crédito, Sebastião José de Araújo/Embrapa
- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 11 min
O feijão sempre esteve na base da alimentação do brasileiro — antes mesmo de o território se tornar Brasil.
Já era consumido pelos nativos antes mesmo da chegada dos colonizadores europeus, lembra a gastrônoma e historiadora Camila Landi.
Os povos originários costumavam comer feijão combinando-o com farinha de mandioca, aponta ela, que é professora e coordenadora do curso de Tecnologia em Gastronomia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Até os anos 1960, eram muitas as variedades que coexistiam e dividiam as preferências, tanto dos produtores quanto dos consumidores.
No Estado de São Paulo, por exemplo, eram comuns os feijões bico-de-ouro, rosinha, jalo, chumbinho, manteiga, mulatinho e roxinho.
Desde os anos 1970, contudo, há um tipo que é preponderante no prato do brasileiro: o feijão-carioca, ou o feijão-carioquinha. Trata-se de um grão marrom claro, rajado com manchas mais escuras.
Hoje ele é consumidor por 60% dos brasileiros, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
O sucesso do feijão carioquinha é produto do trabalho da ciência brasileira, desenvolvido a partir de uma mutação que surgiu espontaneamente em uma plantação no interior de São Paulo.
De uma bem-vinda mutação ao trabalho da ciência
Agora você pode receber as notícias da BBC News Brasil no seu celular.
Clique para se inscrever
Fim do Whatsapp!
Um dos protagonistas dessa história é o engenheiro agrônomo Luiz D'Artagnan de Almeida, considerado o "pai do carioquinha", que morreu no último dia 2 de janeiro.
Em um artigo publicado na revista da Sociedade Brasileira de Recursos Genéticos em 2017, em coautoria com a engenheira agrônoma Elaine Bahia Wutke, pesquisadora no Instituto Agronômico, em Campinas, ele contou como o carioca acabou se tornando "a mais bem sucedida cultivar na história brasileira do feijão".
"Cultivar" é o termo que designa as plantas desenvolvidas a partir de técnicas de melhoramento genético, geralmente com o objetivo atingir características agronômicas superiores, como maior produtividade e maior resistência a pragas.
É diferente, por exemplo, da "variedade", que designa um grupo com diferenças que se desenvolveram naturalmente dentro de uma mesma espécie.
Assim, o feijão-carioca é uma cultivar, não uma variedade.
O relato do agrônomo conta que tudo começou em 1963, no município paulista de Ibirarema, quando o engenheiro agrônomo Waldimir Coronado Antunes percebeu uma novidade em sua lavoura de feijão.
Antunes, que depois enveredaria por carreira política, chegando a ser prefeito da cidade, era então chefe da Casa da Agricultura local.
Na fazenda Bom Retiro, de sua propriedade, ele havia semeado um feijoeiro do cultivar chumbinho — que apresenta casca marrom-escura.
"Passado um tempo, ele e um tio constataram algumas plantas cujos grãos possuíam textura listrada, manchados de preto e marrom, nessa mesma lavoura", escreveu Almeida.

Crédito, Arquivo Pessoal / José Norival Augusti
Segundo o agrônomo relata em seu artigo, Antunes era dado a uma "curiosidade profissional" pelas "coisas do campo" e então decidiu, por si só, fazer "uma experiência prática".
"Percebendo que essas novas plantas eram mais robustas, cresciam com muita facilidade, eram menos suscetíveis às doenças e mais produtivas, fez seleção massal, acreditando se tratar de uma mutação genética natural", aponta.
O engenheiro químico Luiz Gustavo Lacerda, professor de engenharia de alimentos na Universidade Estadual de Ponta Grossa, ressalta que esse é um capítulo importante da história, o fato de que ela começa a partir de "uma mutação natural".
"Muitas pessoas acreditam que surgiu por meio de modificações genéticas, em laboratório. Isso não é verdade", pontua ele à BBC News Brasil.
A seleção massal realizada por Antunes é um método de melhoramento genético mais simples, feito a partir da colheita e mistura das sementes de plantas diferentes.
Em sua casa, o feijão foi preparado e a família aprovou. O caldo parecia consistente e o aroma, atrativo.
Três anos depois, Antunes resolveu separar um saco de 30 quilos desse feijão para análise. O material foi encaminhado ao Instituto Agronômico, em Campinas, órgão de pesquisa e desenvolvimento do governo estadual paulista.
Foi quando, como pontua o artigo, a amostra foi "oficialmente catalogada" sob a denominação carioca — e o número I-38700.
Luiz D'Artagnan de Almeida foi então designado como "responsável direto pelas avaliações", "pela multiplicação dessa cultivar" e para "seu futuro lançamento".
Havia, porém, um receio: o preconceito dos consumidores. Naquela época, era estranho um feijão que não tivesse coloração homogênea. Poderia parecer algo ruim, estragado.
Era preciso ressaltar os prós, para que os contras — de fundo meramente estético ou mesmo de hábito — fossem abafados.
D'Artagnan de Almeida e sua equipe não só fizeram pesquisas. Dedicaram-se a divulgar os resultados. Viraram embaixadores do novo feijão.

Crédito, Arquivo Instituto Agronômico (IAC)
A primeira apresentação pública da variedade ocorreu em agosto de 1968, em encontro técnico realizado em Serra Negra.
"Os pesquisadores divulgaram os animadores resultados que comprovavam a produtividade superior, a resistência às doenças prevalentes na época e as qualidades culinárias desse feijão", pontua o texto de Almeida.
Em estudo publicado em 1971, foi constatado que o carioquinha rendia muito mais do que as outras variedades. Em média, produzia 1.670 quilos por hectare, enquanto bico-de-ouro e rosinha ficavam na casa dos 1.280 quilos.
Mas se as vantagens para o produto pareciam inquestionáveis, ainda havia a barreira da preferência do consumidor.
Em ata de reunião ocorrida na Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo em outubro daquele ano, ficou registrado que era preciso implementar um plano de multiplicação das novas sementes — mas havia o problema: "a premissa de sua não aceitação".
No artigo, o agrônomo conta que "era bastante difícil a introdução e oferta de cultivares com sementes cujo tegumento fosse de coloração pintada ou rajada, como no caso do carioca".
D'Artagnan de Almeida era um dos que advogavam para o fato de que era preciso também ressaltar as qualidades alimentícias do produto — e não só suas vantagens produtivas.

Crédito, Arquivo Pessoal / José Norival Augusti
No caso, suas referências vieram de casa. Afinal, se ainda quando a seleção da cultivar estava sendo feita, ele levou amostras para que sua mulher cozinhasse e o resultado havia sido aprovado pela família, ele também podia contar com o veredito profissional materno.
A mãe do agrônomo talvez tenha sido a primeira a fazer o carioquinha de forma não caseira. Então proprietária de um restaurante em Monte Mor, no interior paulista, ela passou a usar o carioca em vez do feijão-preto em sua receita de feijoada.
O engenheiro agrônomo Sérgio Aguusto Morais Carbonell, pesquisador do Instituto Agronômico, ressalta à BBC News Brasil este ponto. Além de a nova variedade produzir mais e ser mais resistente a pragas, "o feijão fazia um bom caldo e era muito saboroso".
De forma massiva, a investida popular veio por campanha de marketing do governo paulista, que chegou a distribuir para as pessoas pacotinhos de meio quilo do novo feijão, acompanhados de encartes com receitas.
Em parceria com a Associação dos Supermercados de São Paulo, o governo também montou barracas de degustação do novo feijão nos pontos de venda.
Lançamento
A cultivar foi oficialmente lançada em 1969, sob a responsabilidade de D'Artagnan de Almeida. Cinco sacas do feijão foram destinadas à multiplicação e amostras de semestres passaram a ser distribuídas a produtores, sobretudo na região sudoeste do estado, que concentrava a maior produção.
Um folheto de quatro páginas acompanhava as amostras. Ali, além das vantagens produtivas, havia também a preocupação em apresentar as qualidades culinárias da nova versão — inclusive com receitas destinadas, àquela época, às donas de casa.
Os agrônomos do Instituto de Campinas passaram a rodar o Estado dando palestras para agricultores e divulgando o novo feijão. Nessa campanha, eles acabaram ganhando um cabo eleitoral de peso: o agrônomo José Norival Augusti (1940-2017).
Agrônomo da Casa da Agricultura de Taquarituba, ele sempre foi um sujeito obcecado por fazer com que os produtores rurais implementassem técnicas modernas, sustentáveis e de vanguarda, não se resignando a manter o conforto do que parecia óbvio. Ele era entusiasmado, afeito à incorporação de novidades.
D'Artagnan de Almeida reconhece que os esforços de Augusti foram fundamentais para a disseminação das novas sementes. Não à toa, Taquarituba se autodenominaria a "capital do feijão" nos anos 1970.
De acordo com o artigo de Almeida, Augusti "colaborou destacadamente para a difusão dessa cultivar, distribuindo amostras de sementes e realizando as primeiras vendas de sementes para a região".
"Ele curiosamente relatou que, em conversas com o agricultor, incentivava aquele interessado na aquisição de 20 sacos de feijão bico-de-ouro que acabasse adquirindo pelo menos um do carioca", conta.

Crédito, Arquivo Pessoal / José Norival Augusti
Em livro sobre o tema publicado em 1992, Cultura do Feijão em Taquarituba, Augusti admite que havia uma desconfiança inicial dos agricultores porque o feijão era "manchadinho". Mas isso foi superado safra após safra — tanto pela maior produtividade e maior resistência a pragas como pela aceitação popular ao produto em si.
No blog Fios da Memória, que Augusti manteve até seus últimos dias de vida, ele afirma que foi em Taquarituba ocorreram "as primeiras vendas comerciais" da nova variedade. "[Em 1972/1973] foi também iniciado o plantio do feijão-carioquinha e o município foi o primeiro a plantar comercialmente a variedade que depois foi adotada no país […]", crava.
O agrônomo de Taquarituba também relata que fez experiências práticas, em cultivos de campo, comprovando que o feijão-carioquinha era mais resistente às pragas do que outras variedades.
Como ressalta o professor Lacerda, eram plantas que "produziam mais e eram mais resistentes do que as demais".
"O sucesso foi rápido. O feijão carioca se destacou por produzir mais do que as variedades tradicionais, além de apresentar maior resistência a doenças comuns da época", diz Lacerda. "Também conquistou os consumidores por formar um caldo mais claro e encorpado e por cozinhar mais rápido, o que facilitava o preparo no dia a dia."
"Outro ponto importante foi sua capacidade de se adaptar bem a diferentes solos e climas em várias regiões do Brasil", acrescenta o engenheiro. "Esse desenvolvimento teve grande impacto na alimentação do país. Antes da década de 1970, o feijão preto era o mais consumido em muitas regiões. Com o aumento da produção do feijão carioca, o preço caiu e ele passou a fazer parte da mesa da maioria dos brasileiros."

Crédito, Arquivo Pessoal / José Norival Augusti
A cultivar acabou se espalhando por outras regiões do Brasil nos anos 1980, com boa aceitação.
"A descoberta de uma mutação de feijão-chumbinho em uma lavoura […] foi origem de um novo tipo de feijão […]. O tipo carioca apresentava potencial altamente produtivo, resistência às doenças que acometiam a cultura, sabor agradável e rápido cozimento", pontua a publicação Arroz e Feijão: Tradição e Segurança Alimentar, da Embrapa.
Está no prato da maioria da população, mas não é hegemônico considerando os paladares regionais, vale ressaltar.
"O feijão-comum possui vários tipos comerciais, e os preferidos, dependendo da região, são o preto, o mulatinho, o carioca, o roxo-rosinha e o jalinho. O consumo do feijão-preto prevalece nos Estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, sul e leste do Paraná, sudeste de Minas Gerais e sul do Espírito Santo, já o mulatinho é bastante consumido no Nordeste e o carioca em todo o Brasil, representando cerca de 60% da produção do País", esclarece a publicação da Embrapa.
"O tipo roxo-rosinha é o preferido em Minas Gerais e Goiás. A pluralidade de tipos dá ao povo brasileiro, também diverso, mais uma experiência gratificante", conclui.
"Por mais que seja produzido em outras regiões, o feijão carioquinha é mais consumido em São Paulo devido à própria divulgação na época aos agricultores paulistas da região e também, por resistências culturais diversas", analisa Landi.
Carbonell lembra que houve um intenso empenho de D'Artagnan de Almeida e sua equipe em divulgar a novidade para os paulistas -- e isto impactou na adoção maciça.
"O consumo do feijão carioca foi maior em São Paulo porque ele surgiu no próprio Estado, onde a produção se expandiu rapidamente, tornando o grão mais disponível e mais barato para a população local", analisa Lacerda.
"Além disso, São Paulo já contava com forte estrutura agrícola, mercados consumidores urbanos e apoio da pesquisa, o que facilitou sua difusão."
"Em outras regiões do país, o feijão carioca precisou competir com hábitos alimentares já consolidados e variedades tradicionais, como o feijão comum no Sul e Sudeste e o feijão-de-corda no Nordeste. Assim, a adoção fora de São Paulo foi mais lenta, não por falta de qualidade, mas pela força da cultura alimentar regional, embora com o tempo o feijão carioca tenha se espalhado e se tornado o mais consumido no Brasil", comenta Lacerda.
Revolução carioca
"Os resultados obtidos da pesquisa com melhoramento genético de feijão, a partir desse ponto, promoveram uma revolução no comércio de feijão no Brasil, marcando uma mudança na preferência dos consumidores para o tipo carioca", salienta o texto da Embrapa.
Em artigo publicado pelo Instituto Agronômico no ano 2000, Almeida colocou o lançamento do carioquinha como "um divisor de águas na evolução dessa lavoura".
"Esse fato promoveu uma reversão da tendência declinante da produtividade da terra, ao mesmo tempo em que formou o alicerce da modernização dessa atividade", escreveu o agrônomo.
"Com isso, contrariando a perspectiva de que teria havido prioridade absoluta para produtos de exportação, a pesquisa publica paulista sustentou o desenvolvimento de uma cadeia de produção tipicamente de mercado interno."
O Instituto Agronômico divulgou nota de pesar pela morte do agrônomo D'Artagnan de Almeida, ressaltando que sua pesquisa "revolucionou a mesa dos brasileiros".
"Por sua contribuição científica, o pesquisador ficou carinhosamente conhecido como o 'pai do carioquinha' e recebeu diversas homenagens", pontua o texto.
O engenheiro agrônomo Carbonell ressalta ainda que o feijão é um ingrediente indispensável à nutrição do brasileiro.
"É um dos produtos do agro mais importantes para a segurança alimentar porque tem uma excelente quantidade de proteína e fibra em seus grãos, podendo ser consumido seco ou em subprodutos de outros alimentos como enriquecimento", pontua.
"É um alimento com grande diversidade de tipos, portanto pode oferecer a lima população crescente de vegetarianos e veganos, opções de sabores e odores para novas culinárias e alimentação", acrescenta ele.

Crédito, José de Sebastião Araújo/Embrapa
Segundo o artigo coassinado por Almeida, o nome do novo feijão acabou ficando carioca por ideia de um dos empregados de Waldimir Antunes, que "percebeu a semelhança entre a aparência dos grãos e a dos porcos criados na fazenda, conhecidos por tal nome".
"O curioso é que o nome carioquinha foi atribuído por sua similaridade com um porco caipira da região que possui a pelagem rajada, da raça carioca", comenta a historiadora Landi. "Portanto, foi uma associação pela similaridade da pelagem, não tendo relação com o Rio de Janeiro, como muitos pensam."
Almeida ressalta que não passa de lenda urbana a versão de que o nome feijão-carioca seria em alusão ao padrão gráfico das famosas calçadas de Copacabana, no Rio.















