PF prende Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, de novo; o que se sabe até agora

Crédito, Victor Moriyama/Bloomberg via Getty Images
- Author, Leandro Prazeres e Julia Braun
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília e Londres
- Tempo de leitura: 6 min
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, voltou a ser preso nesta quarta-feira (4/3) pela Polícia Federal (PF) em São Paulo em nova fase da operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraude na instituição financeira.
A decisão que autorizou a operação, do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), cita a formação de uma organização criminosa, danos bilionários e a possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.
Em nota, a PF afirmou que estão sendo cumpridos 4 mandados de prisão preventiva e 15 mandados de busca e apreensão na manhã desta quarta.
Também foram determinadas ordens de afastamento de cargos públicos e de sequestro e de bloqueio de bens, no montante de até R$ 22 bilhões.
Vorcaro já havia sido preso em novembro do ano passado, na primeira fase da operação, mas foi solto na sequência. Na época, foi determinado que o empresário fizesse o uso de tornozeleira eletrônica.
O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, também foi preso.
Além de Vorcaro e Zettel, os mandados de prisão têm como alvos Luiz Phillipi Mourão, que estaria conduzindo monitoramento de adversários de Vorcaro, e o policial federal Marilson Roseno da Silva.
Segundo a decisão que autorizou a operação, Silva auxiliava Vorcaro e outras pessoas ligadas a ele com o levantamento de informações para o monitoramento de seus adversários.
Procurada pela BBC News Brasil, a defesa de Vorcaro afirmou que ainda não há informações sobre a prisão.
Esta é a primeira ação do ministro André Mendonça como relator do caso, que assumiu no mês passado.
Na decisão, o magistrado detalha a estrutura do esquema investigado, além de indicar a existência de evidências que apontam uma tentativa estruturada de Vorcaro e aliados de interferir no andamento das investigações.
Segundo Mendonça, a polícia encontrou indícios de quatro núcleos principais de atuação: um núcleo financeiro, responsável pela estruturação das fraudes; um núcleo de corrupção institucional, voltado à cooptação de servidores públicos do Banco Central para o esquema; um núcleo de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro, com utilização de empresas interpostas; e um núcleo de intimidação e obstrução de justiça, responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades.
'Monitoramento' e 'intimidação'
As investigações apontam que o grupo criminoso mantinha estrutura de vigilância e coerção privada, denominada "A Turma", destinada à obtenção ilegal de informações sigilosas e à intimidação de críticos do conglomerado financeiro.
Sobre o sistema de vigilância, Mendonça diz na decisão desta quarta que Vorcaro comandava o grupo e contratou uma pessoa para monitorar seus adversários. O empresário teria citado a possbilidade de fazer ameaças a ex-funcionários e a jornalistas.
Em uma troca de mensagens detectada pela PF, Vorcaro chega a citar a possibilidade de simular um assalto para "quebrar todos os dentes" de um jornalista.
Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, também teria participado do grupo de monitoramento, segundo Mendonça. Ele seria responsável por operacionalizar o pagamento da empreitada.
Ainda segundo a decisão, o grupo de monitoramento receberia até R$ 1 milhão por mês.

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O grupo também é acusado de realizar acessos indevidos a sistemas sigilosos da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de organismos internacionais, como o FBI e a Interpol, para obter dados protegidos.
Segundo o documento, o esquema contava ainda com a cooptação de servidores de alto escalão do Banco Central, como Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, que ocupavam cargos de chefia na supervisão bancária.
Ambos foram suspensos de suas funções. Segundo a PF, eles atuavam como "consultores informais" de Vorcaro, revisando minutas de documentos que o próprio banco enviaria ao órgão regulador e antecipando movimentos de fiscalização.
O caso Master
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O Banco Master e outras quatro empresas do conglomerado comandado por Daniel Vorcaro foram liquidados extrajudicialmente pelo Banco Central no dia 18 de novembro de 2025. No mesmo dia, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal durante a Operação Compliance Zero, quando tentava embarcar em um jatinho para os Emirados Árabes Unidos.
Segundo nota oficial divulgada pelo Banco Central naquele mesmo dia, as empresas do conglomerado comandado por Vorcaro foram liquidadas por três motivos principais:
- crise de liquidez;
- violações de normas que regulam o Sistema Financeiro Nacional e;
- comprometimento da situação financeira das empresas.
A crise de liquidez do grupo empresarial de Vorcaro era um dos pontos que vinha chamando atenção de autoridades monetárias e analistas do mercado financeiro há mais de um ano.
Segundo documentos do caso envolvendo Vorcaro aos quais a BBC News Brasil teve acesso, o Banco Master expandiu suas operações entre 2019 e 2024 com base em um modelo de emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) pagando taxas de retorno aos seus investidores acima do que normalmente eram praticadas no mercado.
Os CDBs são ativos financeiros negociados por bancos ou corretoras de valores e que podem ser adquiridos tanto por pessoas físicas quanto por empresas. As taxas acima do mercado serviam para atrair mais clientes e para ampliar o volume de recursos entrando no banco. Por outro lado, o Master se viu obrigado a pagar taxas altas por esses recursos.

Crédito, Bloomberg via Getty Images
A estratégia de crescimento do Master, de acordo com um relatório do Banco Central, passou a enfrentar dificuldades depois que o Banco Master começou a ter problemas para captar recursos com os quais ele deveria pagar os juros dos CDBs que ele emitia.
Para reverter essa situação, ele passou a vender parte dos seus ativos, entre eles, carteiras de crédito consignado, que são empréstimos feitos normalmente a funcionários públicos cujas parcelas são descontadas diretamente na folha de pagamento.
"As cessões de carteiras foram intensificadas a partir de novembro de 2024, quando ocorreu agravamento do risco de liquidez, pois o Master passou a não conseguir rolar a totalidade dos vencimentos das captações", diz um trecho do relatório.
Em seu depoimento à Polícia Federal, Vorcaro reconheceu que o Banco Master enfrentou, sim, problemas de liquidez.
"Existia uma crise, não era de hoje, mas o Banco Master sempre foi solvente, sempre teve muito mais ativo que passivo e sempre honrou todos os compromissos até o dia 17 de novembro", disse Vorcaro à PF.
Ainda de acordo com o executivo, o modelo de negócio do Banco Master era baseado no funcionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O fundo garante o reembolso de até R$ 250 mil por investidor (pessoa física ou jurídica) por grupo econômico em caso de liquidação da instituição financeira.
"O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo", afirmou.
Mas a investigação sobre o caso Master não chama atenção apenas pelo aspecto econômico. Vorcaro era conhecido pelo trânsito que mantinha tanto no ambiente político quanto jurídico do país. Por isso, as revelações que podem surgir com o avanço das investigações vêm causando expectativa em Brasília.
Esse ponto foi central para que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), deixasse a relatoria da investigação em fevereiro.
A atuação de Dias Toffoli no caso vinha sendo questionada devido a supostas relações do ministro com pessoas ligadas ao Banco, entre elas Daniel Vorcaro.



























