O que disse Daniel Vorcaro, do Banco Master, à Polícia Federal — e quais as contradições do depoimento

Daniel Vorcaro durante depoimento à Polícia Federal. Ele veste paletó cinza e camisa branca e fala ao microfone

Crédito, Reprodução/PF

Legenda da foto, Vorcaro e ex-presidente do BRB apresentaram à PF versões divergentes sobre origem dos créditos supostamente falsos vendidos pelo Master ao banco do DF
  • Tempo de leitura: 9 min

O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantou na quinta-feira (29/1) o sigilo dos depoimentos à Polícia Federal do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, e do diretor de fiscalização do Banco Central (BC), Ailton Aquino.

Os depoimentos foram colhidos em dezembro de 2025, antes de uma acareação entre os executivos, também determinada por Toffoli, no âmbito da investigação da venda pelo Master ao BRB de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consideradas falsas pelo BC.

Segundo as investigações, o Master teria adquirido carteiras de crédito da Tirreno, empresa criada em dezembro de 2024, que passou a revender carteiras ao Master já em janeiro de 2025, totalizando R$ 6,7 bilhões, mesmo sem ter então qualquer movimentação financeira comprovada.

Essas carteiras foram em seguida revendidas pelo Master ao BRB, mesmo sem o banco de Vorcaro ter realizado o desembolso à Tirreno pela compra dos ativos.

Em meio ao escândalo, que contou ainda como uma tentativa de compra do Master pelo BRB, o banco de Vorcaro foi liquidado pelo BC em 18 de novembro de 2025.

Em seu depoimento, Vorcaro disse que o BRB teria ciência de que as carteiras de crédito revendidas eram originadas por terceiros, o que foi negado pelo ex-presidente do BRB na acareação.

"A gente anunciou que faria a venda de originadores terceiros. A gente chegou a conversar que a gente começaria um novo formato de comercialização, que seria originada de terceiros, não mais originação própria", afirmou Vorcaro.

O ex-presidente do BRB disse que acreditava que as carteiras eram do Master.

"No meu entendimento, eram carteiras originadas pelo Master, que haviam sido vendidas ou negociadas com terceiros e que o Master estava recomprando e revendendo para a gente [BRB]", disse Paulo Henrique Costa.

Reuniões com Ibaneis

Em seu depoimento, Vorcaro admitiu ter participado de mais de uma reunião com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), sobre a proposta de aquisição do Banco Master pelo BRB, anunciada em 28 de março de 2025.

"Conversei [com Ibaneis] em algumas poucas oportunidades, sim", disse o banqueiro.

A delegada então questionou se Ibaneis frequentava a casa de Vorcaro.

"Já foi à minha casa, se não me engano, uma vez. Eu já fui à casa dele, e a gente se encontrou poucas vezes. Conversas institucionais, todas."

Ibaneis Rocha ainda não comentou as declarações do banqueiro.

Assista
Legenda do vídeo, 'Já foi à minha casa, se não me engano, uma vez. Eu já fui à casa dele', disse Vorcaro sobre o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB)

Vorcaro, preso pela Polícia Federal em 17 de novembro e atualmente em liberdade mediante uso de tornozeleira eletrônica, negou porém que "amigos políticos" tenham intervindo para tentar viabilizar a operação.

"Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo", irnonizou.

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Legenda do vídeo, Daniel Vorcaro é investigado por suposto esquema de fraudes no Banco Master

Crise de liquidez e negócio baseado no FGC

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O banqueiro reconheceu ainda que o Master enfrentava uma crise de liquidez e que o negócio do banco era baseado no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), espécie de seguro que protege investimentos em casos de falência bancária.

"Existia uma crise, não era de hoje, mas o Banco Master sempre foi solvente, sempre teve muito mais ativo que passivo e sempre honrou todos os compromissos até o dia 17 de novembro", disse.

"E essa crise de liquidez, há de se ressaltar, e está no próprio relatório do Banco Central, foi criada por duas coisas, por mudança de regulação com a pressão dos grandes bancos, que mudaram por duas vezes a regra do FGC, porque o mercado se julga dono ali do fundo que é criado justamente para criar competição no mercado", criticou.

"Essa mudança pressionou a captação do banco, porque todo o plano de negócio desde 2018, que a gente entregou para o Banco Central, ele era baseado no FGC. O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo", completou.

A sede do Banco Master em São Paulo

Crédito, Bloomberg via Getty Images

Legenda da foto, 'Existia uma crise, não era de hoje', admitiu Vorcaro, em seu depoimento

Ainda segundo Vorcaro, no momento da venda das carteiras de crédito problemáticas do BRB, a compra e revenda de ativos havia se tornado a principal fonte de captação do banco, representando de 70% a 80% de seu negócio, diante da impossibilidade de captar através da emissão de títulos em plataformas de investimento, em meio à crise de confiança que já rondava o banco.

"Nos últimos trimestres, a originação e cessão de ativos tinha se tornado a principal fonte de captação do banco, porque foi fechada as fontes originais de captação, que eram as plataformas. No momento do anúncio do BRB, inclusive, elas fecham-se por completo", disse.

Ativos no exterior

Após inicialmente desconversar quando questionado sobre se mantém ativos no exterior, Vorcaro admitiu possuir "algumas contas correntes" fora do país, além da holding (empresa controladora) do banco, nas Ilhas Cayman.

"Talvez eu tenha sido uma das pessoas mais escrutinadas no Brasil antes dessa operação", disse quando primeiro questionado sobre se tem ativos no exterior.

"Tenho todos os meus bens declarados, impostos altíssimos pagos ao longo do tempo, porque já existia esse escrutínio por parte do próprio Banco Central, que acompanha não só o banco, como a minha vida já há alguns anos."

Depois, novamente questionado pela PF sobre bens no exterior, ele deu mais detalhes: "Eu não consigo me recordar de todas as contas que eu possuo. Eu possuo a holding do banco, que era proprietária do banco, nas Ilhas Cayman. Tinha sido estruturada lá. E algumas contas correntes. Não me recordo de outra coisa."

Mas Vorcaro negou ter uma mansão em Miami (conforme noticiado pela imprensa à época de sua prisão), dizendo apenas locar um imóvel na cidade da Flórida.

"Apesar da mídia ter anunciado, não tem [casa em Miami]. Tenho locação de um imóvel lá."

Mansão que seria de Daniel Vorcaro em Miami, segundo reportagens publicadas à época da prisão do banqueiro, em novembro de 2025

Crédito, Divulgação

Legenda da foto, Mansão que seria de Vorcaro em Miami, segundo reportagens publicadas à época da prisão do banqueiro, em novembro. Ele nega e diz apenas locar imóvel na cidade

Críticas à atuação do BC

Em diversos pontos de seu depoimento, Vorcaro criticou a atuação do BC com relação ao Master, dizendo não ter recebido comunicações de irregularidades, multas ou outras penalidades entre o questionamento das operações de venda de carteiras ao BRB em março de 2025 e sua prisão em novembro daquele ano.

"O Banco Central me notifica em março e de repente em 17 de novembro sou preso, sem nenhuma outra pergunta depois de março. É a dúvida que fica para mim, porque o Banco Central não só sabia como acompanhou esse processo da aquisição da Tirreno, da venda para o BRB, das trocas que foram feitas, do desfazimento e não conclusão da operação", afirmou.

Fachada do Banco Central do Brasil

Crédito, Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Legenda da foto, Em depoimento, Vorcaro criticou a atuação do BC com relação ao Master

Ele também disse que havia pessoas dentro do BC que eram contrárias a uma solução de mercado (isto é, a venda do banco ou de seus ativos a investidores) para os problemas do Master e que isso teria resultado na liquidação da instituição financeira, o que, segundo ele, prejudicou todo o sistema financeiro.

"Dentro do Banco Central, existiam pessoas que queriam uma solução de mercado, e existiam outras pessoas, departamentos, que queriam que acontecesse o que aconteceu [a liquidação do banco] e acabaram vencendo", afirmou.

"Acho que essa é a grande questão. Então, talvez o Banco Central como um todo, na minha opinião, não falhou, mas eu acho que algumas áreas e algumas pessoas falharam muito, não só comigo, mas com o sistema financeiro", criticou.

Venda de carteiras sem documentação completa

Vorcaro admitiu ainda ter revendido as carteiras de crédito ao BRB sem ter a documentação completa sobre os ativos.

"Na verdade, a gente fez uma cessão, como várias outras que a gente tinha feito, que ainda carecia da documentação completa. Mas a gente tinha responsabilidade por qualquer vício formal pela ausência de documento, que, obviamente, quando aconteceu, a gente acabou desfazendo [o negócio]", disse.

O banqueiro argumentou, porém, que o Master não tinha ciência da falta de documentos ao fazer o negócio com o BRB.

"Para ser sincero, quando a gente fez o negócio, ainda não tinha essa ciência da ausência da documentação. Eu fiquei sabendo posteriormente que não tinham vindo todas as documentações e, a partir daí, a gente começa a ir atrás. Porque também não foi uma ausência completa: existiu uma documentação base e tinham coisas que estavam faltando", completou.

Fachada do BRB

Crédito, Joédson Alves/Agência Brasil

Legenda da foto, Vorcaro admitiu ainda ter revendido carteiras de crédito ao BRB sem ter a documentação completa sobre os ativos

Contradições sobre prejuízos ao BRB

Em diversos pontos do depoimento, Vorcaro argumentou que não teria havido crime na operação de venda das carteiras ao BRB, por ela ter sido desfeita posteriormente, sem prejuízos ao banco público, segundo ele.

"Para um crime ou para uma fraude acontecer, alguém tem que ter vantagem e outro tem que ter prejuízo. Nesse caso, o BRB não teve prejuízo, nenhum cliente teve prejuízo e o Banco Master não teve vantagem nesse negócio", argumentou.

O diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino, lembrou em sua oitiva, no entanto, que a reserva de recursos a ser feita pelo BRB para cobrir as perdas com o Master pode chegar a quase R$ 5 bilhões.

O BC já determinou que o banco do DF faça um provisionamento (reserva financeira) de R$ 2,6 bilhões em seu balanço para cobrir perdas. E seriam necessários ainda outros R$ 2,2 bilhões.

Durante o depoimento de Vorcaro, os delegados da PF também questionaram a versão do banqueiro de que a operação não teria existido, por ter sido posteriormente revertida.

"Essas carteiras chegaram a ser vendidas e, por problemas vários, foram trocadas por títulos, por participativos. Outro tipo de ativo. Outro tipo de ativo, com outro tipo de liquidez, muito menor liquidez do que a inicial", disse um dos delegados.

"Então, só para deixarmos claro, a operação existiu, o BRB efetivamente deu liquidez ao Master em algum momento com R$12 bilhões e o Master trocou os bens que vendeu ao BRB no meio do caminho e esses bens eram de liquidez distintas", completou o delegado, mais à frente.

Ao que Vorcaro respondeu: "Distintas e que, no meu entendimento, gerou resultados para o próprio BRB ao longo desse ano."

Tomada de decisão sobre venda de carteiras ao BRB

Vorcaro também confirmou ter participado diretamente do processo de aprovação da operação de venda de carteiras de terceiros aos BRB.

"Desde 2023 (...) até novembro de 2025, eu era o presidente. Então, todas as decisões estratégicas de novos negócios e transações relevantes da instituição dependiam da minha aprovação. Nesse caso específico, sim, era [responsável pela aprovação] pela relevância das transações."

Vorcaro afirmou também não ver anormalidade no fato de o Banco de Brasília ter tentado comprar o Master mesmo depois de essa operação ter sido revertida após a constatação de irregularidades.

"Se o senhor fosse presidente do BRB, tentaria comprar um banco que já lhe havia vendido, mais de uma vez, carteiras de crédito falsas?", questionou a delegada Janaína Palazzo, da PF.

"Primeiro, novamente, o banco não vendeu carteiras de crédito falsas para o BRB. E sim, se eu fosse o BRB, compraria. E foi uma pena o negócio ter sido negado. Uma pena para o mercado brasileiro, não só para o BRB", disse o banqueiro.