A campanha do brasileiro Adolpho Veloso pelo Oscar: 'A única coisa que não faço e político faz é comer pastel e abraçar criança'

Crédito, Daniel Schaefer/Divulgação
Ir à sua própria festa de aniversário sem conhecer nenhum convidado. É assim que o diretor de fotografia Adolpho Veloso descreve a experiência de fazer campanha em busca de seu primeiro Oscar, premiação na qual concorre com o filme Sonhos de Trem, da Netflix, dirigido por Clint Bentley.
Paulistano de 36 anos radicado em Lisboa, Veloso tem feito há meses quase o mesmo périplo que Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho, protagonista e diretor do filme O Agente Secreto, em busca de uma estatueta dourada.
Apesar de não ter o rosto estampado em capas de revistas como Moura, a experiência é parecida, ele diz. Envolve dar entrevistas quase todos os dias, em idiomas diferentes e em vários países — como esta que concedeu à BBC News Brasil em uma passagem por Londres na última semana.
Há ainda uma série de almoços, jantares e sessões de perguntas e respostas após a exibição de seu filme, em geral organizadas para receber integrantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que escolhem os vencedores.
A votação começou na quinta-feira (26/02) e se estende até esta semana. Ainda dá tempo, portanto, de ampliar a campanha. A experiência, ele compara, assemelha-se à de um candidato à Presidência da República às vésperas das eleições.
"A única coisa que eu não faço e político faz é comer pastel e abraçar criança, porque o resto estou fazendo tudo. É um trabalho de campo, muito mais difícil do que filmar. Fazer um filme é muito difícil, mas é minha zona de conforto", afirma.

Crédito, Daniel Schaefer/Divulgação Netflix
De São Paulo para Hollywood
Veloso é calejado por décadas na indústria audiovisual, tendo trabalhado com publicidade, videoclipes, curtas-metragens e outros formatos no Brasil. Sonhos de Trem, porém, coroa os primeiros passos de sua carreira internacional, que começou a ser desenvolvida há cerca de cinco anos.
O filme acompanha um lenhador e operário no oeste dos Estados Unidos, do fim do século 19 até meados do século 20, enquanto ele ajuda a construir, com suor e sangue, o país que se conhece hoje.
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Mais introspectivo, o longa-metragem tem justamente na fotografia um de seus principais méritos, segundo a crítica especializada, por fundir de forma orgânica os dramas do protagonista aos do cenário — outro personagem em constante transformação na película.
O papel de Veloso foi fundamental para a estética do filme, visto que, no set de filmagens, era sua função definir elementos como enquadramentos, movimentos de câmera e iluminação da produção.
Mas ele diz acreditar que é pequena sua chance no Oscar, cuja cerimônia será realizada no dia 15 de março, em Los Angeles, pois neste ano a competição está acirrada.
Ele concorre com Pecadores, estrelado por Michael B. Jordan; Uma Batalha Após a Outra, aposta do ano de Leonardo DiCaprio; Marty Supreme, que pode enfim levar à premiação de Timothée Chalamet; e Frankenstein, trabalho de Guillermo Del Toro com Jacob Elordi.
"Todos têm no mínimo dez vezes mais orçamento do que a gente teve", ele diz. "A favorita é (a americana) Autumn Durald, de Pecadores. Seria histórico. A primeira mulher a ganhar um Oscar de fotografia. Foi também a primeira a fotografar um filme em Imax. Está rompendo muitas barreiras."
Mas a esperança persiste. "O que me disseram é que, se eu não fizesse nada, teria 0% de chance; se fizesse tudo o que me pedissem, teria 5%", ele diz, entre risos. "Mas, ao mesmo tempo em que é impossível chegar sem uma campanha, todo mundo está fazendo campanha. Entre todo mundo, provavelmente o trabalho fale mais alto."

Crédito, Divulgação/Netflix
Leia abaixo a entrevista, na qual Veloso comenta ainda o momento atual do cinema brasileiro, as chances de O Agente Secreto na premiação, o uso de inteligência artificial nas artes e os entroncamentos de Sonhos de Trem com a política americana.
BBC News Brasil — Como tem sido sua campanha pelo Oscar?
Adolpho Veloso — A única coisa que eu não faço e político faz é comer pastel e abraçar criança, porque o resto estou fazendo tudo. É um trabalho muito mais difícil do que filmar. Você vai em um almoço que fizeram para você conhecer os votantes, são pessoas que você admira, mas é uma situação um pouco forçada para conquistar um voto. Tenho tentado tirar o melhor disso, que é conhecer as pessoas e ouvir o que elas têm a dizer em vez de ficar só pedindo 'vote em mim'. Fazem uma festa para o filme, você e seu trabalho, só que você não conhece ninguém. É como se fosse seu aniversário, só que com um monte de convidados que você nunca viu na vida.
BBC News Brasil — Dito isso, até que ponto o Oscar premia a qualidade e até que ponto recompensa a campanha de marketing?
Veloso — Não faço a menor ideia, mas você não consegue chegar a uma indicação sem campanha. É preciso que as pessoas assistam ao filme e simpatizem com você. O que me disseram é que, se eu não fizesse nada, teria 0% de chance; se fizesse tudo o que me pedissem, teria 5%. Mas, ao mesmo tempo em que é impossível chegar sem uma campanha, todo mundo está fazendo campanha. Entre todo mundo, provavelmente o trabalho fale mais alto.
BBC News Brasil — Isso deve custar caro. O orçamento de Sonhos de Trem foi de US$ 8 milhões. Não é difícil pensar que se gaste até mais com a campanha, né?
Veloso — Bem mais. É um filme independente, aí a Netflix adquiriu e tem feito um trabalho de campanha para que todos assistam. Mas originalmente é um filme independente muito barato perto dos padrões de Hollywood. Todos os que estão concorrendo na categoria de fotografia têm no mínimo dez vezes mais orçamento do que a gente teve. Pecadores e Uma Batalha Após a Outra, são filmes de mais de US$ 150 milhões, Marty Supreme e Frankenstein provavelmente também.
BBC News Brasil — Pensando não só na sua indicação, mas nas de O Agente Secreto e Wagner Moura, qual é a chance do Brasil no Oscar este ano?
Veloso — É muito difícil separar o lado torcedor do mais realista. Torço muito para que o Brasil ganhe todas as indicações, mas é difícil. Melhor filme é muito difícil, filme internacional tem grandes chances, assim como Valor Sentimental. Apesar de merecer muito, a situação do Wagner é muito complicada, porque tem um hype em cima do Timothée Chalamet. A maior chance talvez seja em direção de elenco. Tem um trabalho especial em O Agente Secreto de ser um elenco muito diverso, com muitas pessoas que não eram atores, que atuam pela primeira vez, então a chance é grande.
A minha eu acho muito difícil. A favorita é Autumn Durald, de Pecadores. Seria histórico, a primeira mulher ganhando um Oscar de fotografia. Ela também foi a primeira mulher a fotografar um filme em IMAX. Está rompendo muitas barreiras.
BBC News Brasil — Uma das marcas mais fortes da fotografia de Sonhos de Trem, segundo a crítica, é o céu, que é muito bonito. O quanto isso foi definido na filmagem e o quanto na edição?
Veloso — Foi na filmagem. A gente não tem nenhuma troca de céu na pós-produção. É tudo muito naturalista. Foi feito de verdade. A gente tinha um plano, queríamos estar no lugar certo na hora certa, evitamos filmar cenas externas com o sol muito alto, com a luz muito dura, então procurávamos o pôr do sol. A gente trabalhou quase o filme todo com luz natural. Não tem interferência de luz artificial ou efeitos especiais.
É difícil fazer isso, mas foi a maneira que aprendi a trabalhar. Grande parte da minha carreira foi no Brasil, com orçamentos pequenos, e tudo o que tinha era uma locação. Às vezes nem tinha orçamento para ter uma luz ou uma interferência na pós-produção. Só ampliei isso para uma escala maior. É difícil não ter o controle, estar à mercê de estar chovendo, de o céu nublar, mas é mais inspirador estar no mundo real. Ficar dentro de um estúdio com um fundo verde no fundo é pouco inspirador. Muitas vezes a gente tinha planejado filmar dentro, mas a luz estava bonita, então mudávamos para fora; às vezes planejamos filmar com sol, mas estava chovendo, e a gente reagia ao mundo real.
BBC News Brasil — O que isso muda para os atores?
Veloso — A gente queria dar liberdade para os atores. Não se preocupar com um monte de tripés, luzes e caminhões ao redor. Queríamos reduzir o impacto da equipe ao redor para que eles se sentissem mais naquele mundo.

Crédito, Divlgação/Netflix
BBC News Brasil — O filme retrata as pessoas que ajudaram a construir os Estados Unidos, com suor e sangue. Como vocês trabalharam ao redor desse tema neste momento em que os EUA está sob escrutínio por conta das políticas do presidente Donald Trump?
Veloso — A gente queria fazer com que as pessoas se identificassem com o personagem, em vez de dar um tapa na cara e falar que você precisa pensar assim ou prestar atenção nisso. Esses são os personagens, isso é o que estava acontecendo ao redor deles, e deixamos o espectador se identificar ou não com alguns aspectos. A gente queria que a natureza fosse uma personagem do filme, por isso a gente não a filmou como um cartão postal. Os personagens discutem quantas árvores eles podem cortar ou não, tem conversas sobre isso, pensam diferente. A questão da imigração também está ali, mas não como um testamento de nada, e sim como uma exposição para as pessoas refletirem o que quiserem.
BBC News Brasil — O filme vai do fim do século 19 até meados do século 20. É um filme de época, mas será que ele ressoa mais hoje?
Veloso — É um filme de época, mas muito contemporâneo. Além de meio ambiente e imigração, ele fala da dificuldade do ser humano de se adaptar a novas tecnologias e se manter atualizado, como naquela cena em que o protagonista tenta usar uma serra elétrica e não consegue. É a gente com o ChatGPT hoje tentando entender como ele funciona. São aspectos de 1920, mas as dificuldades são as mesmas de hoje.
BBC News Brasil — Quais são as diferenças entre a sua fotografia e a dos seus concorrentes?
Veloso — Além da questão orçamentária, de sermos o peixinho perto de peixes grandes, tem o lado quase orgânico de Sonhos de Trem. Enquanto os outros filmes são feitos com mais orçamento, mais equipamentos e muita pós-produção, o nosso é o mais orgânico, o mais feito à mão de todos.
BBC News Brasil — Você citou o ChatGPT. O que pensa sobre o uso da inteligência artificial no cinema?
Veloso — A IA está aí e vai ajudar o ser humano em muitas coisas, mas tem questões a serem discutidas, como direitos autorais. O sistema de aprendizado da IA está remunerando quem deveria ser remunerado, a fonte desse material? Terá filmes inteiros feitos com inteligência artificial, mas as pessoas sempre vão querer assistir a filmes feitos por pessoas. É a mesma coisa com os produtos orgânicos e os ultraprocessados. Tem muita gente querendo comer comida de verdade, feita à mão. Vai acontecer a mesma coisa com o cinema.
BBC News Brasil — Devemos ter mais brasileiros no Oscar nos próximos anos?
Veloso — Vivemos um bom momento, com recorde de indicações este ano, presença nos festivais, mas é difícil saber se isso vai se traduzir numa indicação ao Oscar ou numa vitória. Certamente a gente vai continuar fazendo parte da conversa.

Crédito, Divulgação/Netflix
BBC News Brasil — A que você atribui esse bom momento?
Veloso — À força do Brasil como um todo. A interferência que o povo brasileiro tem nas redes sociais, no Instagram da Academia, em que os posts com mais like são os de Wagner Moura e Fernanda Torres. Quem está de fora vê e pensa: esse país tem uma voz, precisamos escutar. Se tanta gente está falando deste filme, vamos assistir? O barulho do brasileiro está funcionando.
BBC News Brasil — O quanto esse movimento pode trazer de retorno ao Brasil? Será que a gente está produzindo e assistindo a mais filmes brasileiros?
Veloso — Quando assisti à indicação de Cidade de Deus ao Oscar, me inspirou muito. Se um filme brasileiro chegou lá, por que eu não posso? Esses exemplos constantes de brasileiros vão inspirar muita gente que já faz cinema e também quem vai começar a fazer. E pode trazer um olhar de fora, um investimento de fora, para o Brasil. Ajuda a discutir o quão importante é incentivar a cultura, porque a cultura está pondo o Brasil em pauta e pode trazer investimentos até para outras coisas. É o que a gente vê com a Coreia do Sul, o quanto o investimento em cultura impactou turismo e outras áreas.
BBC News Brasil — O que falta, então, para o Brasil ir além?
Veloso — A gente está num bom caminho. Falta mais conversa, acabar com os preconceitos ao redor do investimento em cultura, mostrar quantos trabalhos isso gera, o quanto de dinheiro e retorno isso traz. É difícil dizer, mas acho que falta mais. Fazer mais, mostrar mais, dar mais oportunidade para mais gente. Por muito tempo, o cinema foi um espaço para poucos, e agora mais gente tem voz.
BBC News Brasil — Na categoria de melhor filme, seu filme, Sonhos de Trem, está concorrendo com O Agente Secreto. Para quem é sua torcida?
Veloso — Infelizmente, acho que nenhum dos dois vai levar. Eu ficaria muito feliz pelos dois. Um por ter feito, outro por ser do Brasil. Mas é difícil.
BBC News Brasil — Você já preparou um discurso para caso ganhe?
Veloso — Não. Primeiro porque as chances são poucas e depois porque, como um bom torcedor de futebol, gritar gol antes da hora não pode. É zica.



























