Morre Dennis Carvalho: como o diretor revolucionou as novelas e filmou o 1° beijo entre mulheres idosas na Globo

Dennis Carvalho está sentado em uma cadeira de madeira com braços, diante de um fundo escuro. Ele sorri, vestindo uma camisa preta de manga curta, combinando com a calça da mesma cor. Está com uma das pernas cruzadas e usa um relógio no pulso esquerdo. A iluminação destaca seu rosto e parte do tronco, criando contraste com o fundo preto.

Crédito, João Cotta/TV Globo/Divulgação

Legenda da foto, O diretor Dennis Carvalho
  • Tempo de leitura: 5 min

Morreu na manhã deste sábado (28/2), no Rio de Janeiro, o ator e diretor Dennis Carvalho. Ele tinha 78 anos e estava internado no hospital Copa Star, em Copacabana, que emitiu uma nota à imprensa, mas não divulgou a causa nem detalhes da morte a pedido da família.

Carvalho nasceu em 1947 e começou a carreira aos 11 anos, ao fazer um teste para Oliver Twist, novela da extinta TV Paulista inspirada no romance de Charles Dickens.

Seu trabalho como ator se estendeu até a década passada, em participações especiais, mas se concentrou do fim dos anos 1960 até os anos 1980, quando atuou em clássicos como Pecado Capital, de Janete Clair, e Roque Santeiro, de Dias Gomes e Aguinaldo Silva.

Seu trabalho mais prolífico, no entanto, foi como diretor. Carvalho estreou em Sem Lenço, Sem Documento, em 1977, e trabalhou por alguns anos como assistente, principalmente de Daniel Filho — nome central da televisão e do cinema —, até se estabelecer no cargo em Malu Mulher, obra de Manoel Carlos, em 1979.

Na década seguinte, sedimentou sua parceria com Gilberto Braga, que lhe rendeu, na visão da crítica especializada, os maiores frutos de toda a carreira. A dupla criou, por exemplo, a versão original de Vale Tudo, de 1988, uma das maiores novelas já feitas no Brasil, além de Anos Rebeldes e Pátria Minha.

Novela com 'cara de cinema'

Ao lado de nomes como Luiz Fernando Carvalho, Dennis Carvalho ajudou a revolucionar as novelas nos anos 1980. À época, os folhetins tinham uma linguagem mais estática, próxima do teatro, mas sob sua supervisão passaram a incorporar a gramática cinematográfica.

Isso se traduziu em uma fotografia com planos e movimentos de câmera mais fluidos, que adicionavam camadas à performance dos atores e substituíam, por exemplo, o pingue-pongue de closes durante os diálogos que costumavam enquadrar o elenco apenas da cintura para cima.

Ele também adotou uma iluminação mais sofisticada, adicionando contraste entre atores, objetos de cena e cenários, e priorizou montagens dinâmicas, com cenas mais curtas e alternância rápida entre núcleos de personagens.

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Esse, aliás, é um dos elementos que distinguiram a dramaturgia de seu principal parceiro, Gilberto Braga, conhecido por escrever diálogos afiados, em detrimento das longas declamações comuns às radionovelas e às peças teatrais, o que tornava suas histórias, retratos dos conflitos sociais, mais empolgantes para o público.

Com essa nova linguagem visual, os atores também tiveram de se transformar. Ao explorar enquadramentos fechados em determinadas partes do corpo, por exemplo, não cabiam mais gestos amplos, que poderiam facilmente parecer exagerados. Foi nesse contexto que as novelas passaram a ter atuações mais naturalistas, com expressões mais curtas e contidas.

Investir em uma produção mais sofisticada era um desafio sobretudo pela dinâmica da teledramaturgia, mais industrial do que a do cinema. É como gravar um filme por dia, dizem os profissionais dessa indústria — até hoje, são gravadas cerca de 20 cenas por dia para cada folhetim da Globo, com três frentes de filmagens simultâneas, algo que amplia o desafio do diretor.

José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, diz à BBC News Brasil que uma das características mais marcantes de Carvalho era saber dosar o quanto uma história, em termos visuais, podia ser escapista e realista. Ele chefiou o diretor quando foi diretor-geral da TV Globo, do fim dos anos 1960 até os anos 1990.

"A dramaturgia na TV precisa ter um pé na realidade e outro na ficção. É isso o que faz o espectador ser fiel às novelas, e Dennis Carvalho soube manter esse equilírio. Era um mestre nisso. Foi uma pessoa de uma sensibilidade enorme. A TV brasileira deve muito a ele."

Primeiro beijo entre mulheres idosas na TV brasileira

A parceria entre Carvalho e Braga foi frutífera até quando os índices de audiência caíram, na visão da crítica. Isso aconteceu em Babilônia, a última novela do autor.

A razão? Um beijo entre duas das maiores atrizes do país, Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Não foi o primeiro beijo lésbico da televisão brasileira, mas foi pioneiro entre duas mulheres idosas, logo no primeiro capítulo do folhetim.

O roteiro orientava as atrizes a dar um selinho, mas Fernanda quis ir além, com um beijo de língua. Timberg aceitou a ideia, e Carvalho, que chefiava o set, deu autorização à dupla. O episódio é contado no livro Gilberto Braga - O Balzac da Globo, biografia do autor escrita pelos jornalistas Mauricio Stycer e Artur Xexéo.

A direção da emissora aprovou a ideia. O que poderia dar errado, afinal? Um ano antes, Mateus Solano e Thiago Fragoso, nos papéis de Félix e Niko, haviam dado um beijo no fim de Amor à Vida, de Walcyr Carrasco, aplaudidos pela maior parte do público.

Mas desta vez os espectadores rejeitaram a ideia, e os índices de audiência no Kantar Ibope despencaram de 33 para 20 pontos em uma semana, impulsionados pela bancada evangélica na Câmara, com dezenas de deputados incitando boicote à produção.

A direção da Globo, à época encabeçada pelo autor Silvio de Abreu na chefia de dramaturgia, fez mudanças profundas no roteiro — as personagens, por exemplo, não voltaram a se tocar até o fim da trama, que acabou encurtada.

Mas a coragem de Carvalho, ao lado de Braga, de enfrentar o conservadorismo que regia a pauta dos costumes, sobretudo no que diz respeito à sexualidade e a questões de gênero, foi celebrada pela crítica especializada e pela indústria.

Babilônia foi a antepenúltima novela de Carvalho. Sua despedida do ofício aconteceu no ano passado, no Show 60 Anos, que ele dirigiu a pedido da TV Globo para celebrar os 60 anos do canal, resgatando obras e personagens que formaram a emissora.

Sua trajetória poderá ser revista neste domingo (01/03), nas telas da Globo, que vai exibir por volta da 1h o especial Tributo, produzido no ano retrasado a partir de depoimentos de seus colegas de trabalho.