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Quem é o economista indicado para chefiar banco central dos EUA em meio a ataques de Trump à instituição
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nomeou nesta sexta-feira (30/1) o economista Kevin Warsh para substituir Jerome Powell no comando do Federal Reserve (Fed), o banco central americano.
"Conheço Kevin há muito tempo e não tenho dúvidas de que ele será lembrado como um dos GRANDES presidentes do Fed, talvez o melhor", escreveu Trump ao anunciar na rede social Truth Social a indicação, que ainda tem que ser confirmada pelo Senado.
"Ele é perfeito para o papel e nunca decepciona", disse Trump no post.
Powell foi indicado por Trump para presidir o Fed ainda em 2018, mas entrou em rota de colisão com o republicano quando ele retornou à Casa Branca para o segundo mandato e passou a pressionar o banco central para baixar as taxas de juros.
A Fed chegou a realizar três cortes consecutivos nos juros no fim de 2025, mas vinha sinalizando uma postura de maior cautela por conta do comportamento da inflação americana, que fechou o ano em 2,7%, acima da meta de 2% estabelecida pelo banco central.
Na última reunião, realizada quarta-feira (28/1), a instituição manteve os juros no mesmo patamar, entre 3,5% e 3,75%.
Trump criticou a decisão em sua rede social e insultou Powell. "O Fed deveria reduzir substancialmente as taxas de juros, AGORA!", escreveu no post publicado na quinta-feira (29/1).
A relação entre os dois tem se deteriorado de forma contínua, com tensão crescente e troca de farpas.
Powell chegou a se tornar alvo no início de janeiro de uma investigação criminal em torno das reformas feitas no prédio do Fed e, ao falar sobre o caso, ligou o episódio a "ameaças" e "pressão contínua do governo".
Dirigentes de bancos centrais de diversos países se manifestaram em seu favor. Em uma nota conjunta divulgada no último dia 13, a presidente do Banco Central Europeu, Cristine Lagarde, e presidentes dos bancos centrais de países como Inglaterra, Suíça, Coreia do Sul e Brasil expressaram "total solidariedade" a Powell.
"A independência dos bancos centrais é um pilar fundamental para a estabilidade de preços, financeira e econômica, no interesse dos cidadãos a que servimos. Por isso é crucial preservar essa independência com pleno respeito ao Estado de Direito e à responsabilidade democrática", diz o texto.
"O presidente Powell tem atuado com integridade, focado em seu mandato e com um compromisso inabalável com o interesse público. Para nós, ele é um colega respeitado altamente reconhecido por todos que trabalham com ele", conclui a nota.
Quem é Kevin Warsh
Veterano de Wall Street, Warsh tem 55 anos e já foi membro do Conselho de Governadores do Fed, o colegiado que comanda a instituição, entre 2006 e 2011. Mais recentemente, contudo, vinha disparando uma série de críticas contra o banco central americano.
Ele é membro do Hoover Institution, uma instituição de tendência conservadora voltada à discussão de políticas públicas, e integrante do conselho da empresa de logística UPS.
O economista teve uma reputação relativamente "hawkish" (linha dura), como diz o jargão do mercado, em seu primeiro mandato como membro do Conselho de Governadores do Fed, o que significa que ele tendia a favorecer taxas de juros mais altas e concentrava o foco da política monetária no controle à inflação.
Mais recentemente, contudo, passou a ser visto como uma voz que apoiaria um corte de juros no curto prazo, algo que Trump tem defendido desde que voltou à Casa Branca.
"Ele acha que é preciso reduzir as taxas de juros", disse o presidente ao jornal americano Wall Street Journal em dezembro. "E todos com quem conversei também acham."
Warsh também tem fortes laços familiares com o círculo de Trump. Seu sogro, o empresário bilionário Ronald Lauder, é um doador e aliado de longa data de Trump.
Ao analisar a indicação, a editora adjunta de economia da BBC Dharshini David aponta que Warsh é um caso "raro que parece agradar tanto ao presidente quanto a investidores".
"Warsh acredita que as taxas de juros deveriam estar em patamar mais baixo que o atual e que a revolução da inteligência artificial pode ajudar a conter as pressões inflacionárias — alinhando-se com o presidente", escreve David.
Ao mesmo tempo, ela prossegue, alguns investidores acreditam que o histórico da carreira do economista, com posicionamentos que endossavam o controle mais rigoroso da inflação, sinalizam que ele pode ter uma abordagem pragmática à frente do Fed.
Caso seja confirmado pelo Senado, onde, ainda segundo David, há resistência à nomeação de um novo presidente enquanto a investigação sobre Powell estiver em andamento, ele "precisará provar sua credibilidade aos mercados, lidando com a pressão política para cortar as taxas de juros em meio a um mercado de trabalho em desaceleração — enquanto também tenta equilibrar a necessidade de conter a inflação".
"Economistas sugerem que Warsh pode optar por não pressionar por cortes nas taxas de juros imediatamente, para enfatizar que a independência do banco central americano foi mantida", ela completa.
O que é o Federal Reserve
O Fed opera de forma independente do governo e tem como função conduzir a política monetária dos EUA com dois objetivos principais, frequentemente chamados de "mandato duplo" do banco central: apoiar a estabilidade de preços, mantendo a inflação dentro da meta estabelecida, de 2%, e apoiar o pleno emprego, definido como o nível máximo ou mínimo que a economia suporta sem gerar pressão na inflação.
Os juros são a principal ferramenta usada pelo Fed nesse sentido.
Aumentar as taxas de juros — ou mantê-las elevadas —, de um lado, pode ajudar a controlar a inflação, à medida em que aumenta o custo do crédito, tornando mais caro para famílias e empresas fazerem dívidas, e desestimula o consumo.
Mas justamente pelo impacto no custo de capital e no crédito, os juros mais altos costumam também, com o tempo, desacelerar o mercado de trabalho e a economia como um todo, reduzindo o crescimento.