Os lixões clandestinos que se espalham pela Inglaterra

    • Author, Malcolm Prior
    • Role, Da BBC News
    • Author, Jenny Kumah
    • Role, Da BBC News
  • Tempo de leitura: 5 min

Centenas de aterros sanitários ilegais estão tomando conta da zona rural da Inglaterra, com ao menos uma dezena de "super lixões" que guardam dezenas de milhares de toneladas de resíduos, apontou uma investigação da BBC.

Nesta sexta-feira (30/1), uma semana após a publicação da reportagem, dois homens foram presos suspeitos de operar lixões ilegais na cidade de Kidlington, localizada no condado de Oxfordshire.

Foram detidos dois homens, de 69 e 54 anos. Ambos foram liberados após o pagamento de fiança.

Acredita-se que o aterro em Kidlington guarde cerca de 21 mil toneladas de resíduos em uma pilha que chega a 150 metros de comprimento e seis metros de altura. O monte é composto por plásticos triturados, isopor, pneus e outros itens domésticos.

Mais de 700 aterros ilegais foram fechados em 2024 e 2025, mas a agência ambiental britânica afirmou que 517 deles ainda estavam ativos no final do ano passado.

Pelo menos 11 desses locais guardam mais de 20 mil toneladas de resíduos.

A maioria desses lixões fica em áreas rurais, muitas vezes escondidas, e em terras que deveriam ser agrícolas. Segundo a polícia, eles são administrados por quadrilhas do crime organizado, que lucram cobrando muito menos do que os operadores legítimos para receber e enterrar resíduos.

As empresas precisam pagar taxas para usar aterros sanitários licenciados, dependendo da quantidade e do tipo de resíduo que estão tentando descartar, e também há uma taxa de pouco mais de 126 libras, ou R$ 900, por tonelada.

Investigações

Um porta-voz da agência ambiental disse que a entidade está empenhada em combater esses crimes e que está "fazendo todo o possível para desarticular aqueles que lucram com os danos causados ​​pelos aterros ilegais".

No entanto, ativistas ambientais e moradores que vivem perto dos lixões dizem que pouco está sendo feito, apesar de os culpados, em muitos casos, já terem sido identificados e processados.

No condado de Gloucestershire, dezenas de milhares de toneladas de resíduos foram despejadas em um terreno. Testemunhas disseram à BBC que, no auge da atividade, até 50 veículos entravam no local todos os dias.

Um incêndio em junho do ano passado, que exigiu a atuação do Corpo de Bombeiros de Gloucestershire, paralisou as operações no terreno, embora ele não tenha sido totalmente interditado.

Incêndios ocorrem regularmente no terreno, que fica próximo a uma estrada movimentada e nos fundos de um popular parque rural com loja de produtos agrícolas. Quando a BBC visitou o local, colunas de fumaça podiam ser vistas subindo de alguns pontos.

Assista

Uma mancha na paisagem

Charlie Coats, presidente do conselho paroquial de Highnam, uma vila na cidade de Tewkesbury, disse que o terreno agora representa uma "mancha na paisagem" e que o lixo está se infiltrando no rio Leadon, que deságua no rio Severn.

Ele afirmou que os caminhões que despejam lixo diariamente ao longo dos anos criaram problemas de segurança viária, ruído e poluição. "Causou mau cheiro, houve fumaça, houve barulho. Danificou muita vegetação, árvores e arbustos foram destruídos, e é uma mancha na paisagem."

Além disso, houve incidentes de combustão espontânea, quando o material aqueceu e pegou fogo. O Corpo de Bombeiros foi acionado em algumas ocasiões para apagar o fogo.

A BBC não conseguiu contatar o proprietário do terreno, mas conversou com uma das pessoas que se acredita estar usando o local de descarte. O homem se recusou a comentar o caso.

Crime organizado

Muitos desses aterros são controlados por quadrilhas do crime organizado, em uma escala de atividade que fez com que o caso fosse apelidado de "os novos narcóticos" pelo ex-chefe da agência ambiental britânica, James Bevan.

As quadrilhas levam equipamentos de trituração para áreas rurais, em estradas vicinais tranquilas, que então recebem um fluxo constante de caminhões carregados de resíduos — desde lixo doméstico até terra e agregados de canteiros de obras — para serem triturados em quantidades menores e se tornarem fáceis de despejar.

No início deste mês, quase 100 mil libras (R$ 713,2 mil) em espécie foram apreendidos e dois homens foram presos em uma série de operações ligadas a suspeitas de lavagem de dinheiro e crimes ambientais nos condados de Herefordshire, Shropshire e Worcestershire.

Os policiais também apreenderam seis armas, produtos eletrônicos falsificados e um veículo roubado.

Um morador de uma vila próxima a um dos locais que foi alvo da operação disse à BBC que toneladas de lixo estavam sendo trituradas no local antes de serem descartadas em outro lugar.

"O impacto ambiental é enorme. A fumaça sobe do local diariamente e o cheiro, às vezes, é insuportável. Houve épocas no verão em que não deixamos as crianças brincarem lá fora por causa do cheiro, por causa dos vapores", disse ele.

O inspetor Dave Wise afirmou que crime ambiental "não é um problema que se resolve da noite para o dia", mas acrescentou que a polícia está conduzindo investigações complexas sobre as quadrilhas, que têm ligações com lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros, e sobre os indivíduos que "lucram com a poluição ambiental".

O proprietário do terreno em Worcestershire se recusou a comentar o caso ao ser abordado pela BBC em sua casa, mas já havia declarado que o terreno é alugado. O inquilino não respondeu às tentativas de contato.

Onde ficam os maiores aterros

Emma Viner, gerente de fiscalização e investigações da agência ambiental, disse que compartilha da "indignação pública com o que está acontecendo e com os crimes ambientais que estamos presenciando".

"Todos os anos, fechamos centenas de aterros sanitários ilegais, mas o cenário é dinâmico e, para cada aterro que fechamos, vemos mais e mais surgirem por todo o país", ela acrescentou.

Um porta-voz do Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais afirmou que está apoiando a agência ambiental, fornecendo mais agentes e 50% mais verbas para reforçar a fiscalização de crimes ambientais.