Bolsonaristas falam de 'traição' e 'decepção' com Trump após retirada de Moraes das sanções da Lei Magnitsky

Alexandre de Moraes usando toga

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Sanções ao ministro foram aplicadas em julho pelo governo americano
    • Author, Iara Diniz
    • Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Tempo de leitura: 5 min

A decisão do governo americano de retirar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviani Barci de Moraes, da lista de sanções da Lei Magnitsky gerou reações entre aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Alguns parlamentares da oposição que se manifestaram nas redes sociais criticaram o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dizendo que se sentiam traídos e decepcionados.

"O sentimento, não escondamos, é de traição. Certamente o preço cobrado por Trump não foi baixo, e em breve saberemos se Lula ofereceu as terras brasileiras ou o apoio na queda de Nicolás Maduro", disse o vice-líder da oposição na Câmara, o deputado federal Maurício Marcon (Podemos-RS), em uma publicação no X.

"Trump pensou nos EUA, com seu slogan 'American First'", acrescentou.

O deputado Carlos Jordy (PL-RJ) disse que a Lei Magnitsky foi "banalizada" por Trump e que o presidente americano é uma "grande decepção".

"Não existe 'ex-violador de direitos humanos'. Infelizmente colocamos esperanças em alguém que só queria negociar. Uma grande decepção com o presidente americano e uma enorme lição para nós: não terceirizemos nossa responsabilidade", declarou.

O deputado Rodrigo Valadares (União-SE), também fez críticas, dizendo que "o sistema se fechou em si e nos seus próprios interesses" apesar do "sacrifício" de Eduardo Bolsonaro.

A retirada das sanções, anunciada nesta sexta-feira (12/12), era defendida pelo governo brasileiro em conversas mantidas com interlocutores da administração norte-americana.

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Em uma publicação no X, a ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), atribuiu a decisão a uma vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"Foi Lula quem colocou esta revogação na mesa de Donald Trump, num diálogo altivo e soberano", afirmou.

"É uma grande derrota da família de Jair Bolsonaro, traidores que conspiram contra o Brasil e contra a Justiça".

As sanções contra Alexandre de Moraes foram impostas em julho, em meio às pressões do governo americano para tentar influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.

Em setembro, a esposa de Moraes também foi incluída na lista, assim como a empresa administrada por ela e pelos três filhos do casal.

Na época, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) disse que estava trabalhando para que isso acontecesse, e que a sanção era uma pressão por anistia

Na tarde desta sexta-feira, pouco depois do anúncio do fim das sanções, Eduardo se manifestou sobre o assunto.

Em uma publicação no X, o parlamentar divulgou uma nota conjunta com o influenciador Paulo Figueiredo. Eles disseram receber com "pesar" a notícia, mas que eram "gratos pelo suporte dado pelo presidente Trump demonstrado durante este processo e pela atenção que ele deu a esta séria crise de liberdade afetando o Brasil"

Eduardo e Paulo Figueiredo foram denunciados pela Procuradoria-Geral da República por articular as sanções para tentar influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro. No mês passado, o parlamentar se tornou réu em um processo no STF por coação no curso do processo.

Seguindo a linha de Eduardo, o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) também agradeceu a Donald Trump pela "ajuda", disse que a aplicação da Lei Magnitsky "abriu janela para o Brasil" e que restava aos brasileiros, agora, fazer sua parte.

"A guerra para tirar a suprema esquerda do poder no Brasil será nossa, dos brasileiros", escreveu.

"Ou o Brasil reage agora, ou normaliza o autoritarismo togado."

O deputado Mario Frias (PL-SP) pediu que as pessoas não buscassem culpados e também "não colocassem mais lenha na fogueira".

"Quem mais sofre ncesse processo são os inocentes que são presos políticos e o próprio presidente Bolsonaro. Como ele já disse certa vez: não é o fim", afirmou.

Em evento, Moraes e Lula comentam decisão do governo americano

Tanto Alexandre de Moraes quanto Lula participaram nesta sexta-feira do evento de lançamento do canal SBT News.

Ao discursar, Moraes agradeceu a Lula pelo "empenho" em demonstrar a "verdade" relativa à sua situação e à de sua esposa.

"A verdade, com o empenho do presidente Lula e de toda a sua equipe, a verdade prevaleceu", disse Moraes em evento de lançamento do SBT News, onde Lula também estava.

O ministro do STF disse que o anúncio desta sexta-feira foi resultado de uma "tripla vitória" — do Judiciário, que "não se vergou a ameaças"; da soberania nacional; e da democracia brasileira.

"O Brasil chega hoje, no quase final de ano, dando exemplo de democracia e força institucional a todos os países do mundo", disse Moraes.

O magistrado contou ainda que, em julho, pediu a Lula que não tomasse qualquer medida contra a decisão americana, porque a "verdade" prevaleceria quando chegasse ao conhecimento das autoridades norte-americanas.

Trump e Lula sorrindo ao se cumprimentar

Crédito, Ricardo Stuckert/PR

Legenda da foto, Trump e Lula durante encontro na Malásia em outubro; decisão sobre Lei Magnitsky marca desescalada na relação entre EUA e Brasil

No mesmo evento, Lula brincou que Moraes ganhou de Trump um presente, já que o ministro fará aniversário neste sábado (13).

O presidente relatou que conversou na semana passada com Trump, que teria perguntado se a retirada das sanções seria positiva para Lula.

"É bom para você?", perguntou Trump, segundo Lula.

"Não é bom para mim, é bom para o Brasil e é bom para a democracia brasileira. Aqui, você não está tratando de amigo pra amigo. Você está tratando de nação pra nação. E a Suprema Corte para nós é uma coisa muito importante, Trump", respondeu o presidente brasileiro, de acordo com seu relato no evento do SBT News.

Segundo os jornais O Globo e Folha de S. Paulo, Lula enviou uma mensagem direta ao presidente Trump agradecendo pela retirada das sanções.

Reação da base do governo

Parlamentares da base do governo viram a retirada da sanções como uma derrota do bolsonarismo.

"É uma vitória da diplomacia de Lula e uma prova de solidez da nossa democracia. Expõe o fracasso da campanha bolsonarista de tentar deslegitimar o Brasil no exterior e atacar a nossa soberania", afirmou o senador Humberto Costa (PT-PE) nas redes sociais.

O líder do PT na Câmara dos Deputados, Lindbergh Farias (PT), chamou a medida de uma "derrota histórica dos traidores da pátria que tentaram negociar sanções internacionais, revogação de vistos, tarifas e a chamada 'pena de morte financeira' contra o ministro".

Já o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR) atribuiu a vitória à "química" entre o presidente Lula e Trump, fazendo referência a uma fala do presidente americano, durante a Assembleia Geral da ONU, de que havia uma "química excelente" entre ele e o líder brasileiro.

"Nova vitória da diplomacia do presidente Lula. Química continua produzindo bons resultados", afirmou o parlamentar.