'O Irã cruzou todas as linhas vermelhas': países do Golfo Pérsico avaliam como reagir aos ataques 'traidores' do Irã

Imagem de satélite do porto de Jebel Ali, em Dubai, após um dos cais ter pegado fogo devido a destroços de um míssil interceptado

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Cais no porto de Jebel Ali, em Dubai, em chamas devido a destroços de um míssil interceptado
    • Author, Barbara Plett-Usher
    • Role, Correspondente da BBC em Doha, no Catar
  • Tempo de leitura: 4 min

Os países do Golfo Pérsico se viram na linha de frente da nova guerra do Oriente Médio e não estão gostando nada disso.

O Irã retaliou aos ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel disparando centenas de mísseis e drones contra seus vizinhos árabes — visando bases militares americanas em seus territórios, mas também infraestrutura civil e energética.

Ao fazer isso, o Irã ataca a imagem do Golfo como um centro seguro e próspero para viagens, turismo e finanças, além de interromper a indústria de petróleo e gás, que é fundamental para a região.

Esta é uma guerra que os governos árabes não queriam e tentaram evitar. A questão é se eles serão arrastados para ela pelo que chamaram de ataques iranianos "traiçoeiros".

"Todas as linhas vermelhas já foram cruzadas", disse Majed al Ansari, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, em uma coletiva de imprensa na terça-feira (3/3). "Os ataques à nossa soberania são constantes."

"Há ataques à infraestrutura, às nossas áreas residenciais, e os efeitos são muito claros. Quando se trata de uma possível retaliação, todas as opções estão com a nossa liderança. Mas temos que deixar bem claro que ataques como esses não ficarão nem podem ficar sem resposta."

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Legenda do vídeo, 'Pânico e desespero' em Dubai e Abu Dhabi com ataques do Irã

A estratégia de caos do Irã

Na maior parte dos casos, os mísseis iranianos estão sendo interceptados, mas os destroços que caem já causaram incêndios e mataram pessoas. Drones que conseguem ultrapassar as defesas aéreas com mais facilidade geralmente causam danos mínimos, mas ainda assim semeiam o caos, interrompendo o comércio e as viagens.

Essa parece ser a estratégia iraniana: aumentar a pressão sobre seus vizinhos árabes na esperança de que eles aumentem a pressão sobre os Estados Unidos para que encerrem a guerra.

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Acredita-se que o Irã tenha disparado quase tantos drones e mísseis contra os Emirados Árabes Unidos, o principal centro de comércio e turismo do Golfo Pérsico, quanto contra Israel, segundo o jornal Financial Times.

O Irã pode usar como arma a vital indústria de petróleo e gás da região. Interromper esse setor poderia causar ondas de choque na economia global.

Isso também significa que a estratégia de Teerã pode ser contraproducente. O Irã corre o risco de aproximar os países do Golfo de Washington, podendo até mesmo levá-los a participar do esforço de guerra de alguma forma.

Até agora, eles se recusaram a permitir que os EUA usassem seu espaço aéreo e território para lançar ataques contra o Irã.

Isso pode mudar. Em algum momento, eles podem decidir participar de operações militares. Ainda não chegaram lá. Por enquanto, os árabes estão centrados na defesa. Mas isso depende de quanto tempo a guerra vai durar.

Alguns relutariam em parecer estar tomando o lado de Israel no conflito.

A ofensiva mortal e destrutiva de Israel em Gaza, em resposta aos ataques do Hamas em outubro de 2023, bem como suas intervenções militares em países como Líbano e Síria, tensionaram cada vez mais as relações com os árabes. Eles ficaram furiosos quando Israel bombardeou o Catar no ano passado, em uma tentativa de assassinar líderes do Hamas.

O que está claro é que os ataques do Irã fortaleceram a unidade entre os países do Golfo.

Os seis membros do Conselho de Cooperação do Golfo — Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Omã — reuniram-se em sessão de emergência no domingo (1°/3) para expressar solidariedade e prometer "tomar todas as medidas necessárias para defender sua segurança e estabilidade e proteger seus territórios, cidadãos e residentes, incluindo a opção de responder à agressão".

Um importante conselheiro diplomático do presidente dos Emirados Árabes Unidos, Anwar Gargash, instou o Irã a recobrar o bom senso. "Sua guerra não é com seus vizinhos", escreveu ele em uma postagem no X. "Retorne ao seu entorno e lide com seus vizinhos com razão e responsabilidade antes que o círculo de isolamento e a escalada se amplie."