Vorcaro preso, 'Sicário', mensagens: a reviravolta no caso Master em 5 pontos

Viatura da Polícia Federal.

Crédito, Agência Brasil

Legenda da foto, Vorcaro foi novamente detido pela Polícia Federal no dia 4 de março
  • Tempo de leitura: 8 min

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso novamente nesta quarta-feira (4/3) pela Polícia Federal (PF) em São Paulo.

A nova fase da operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraude na instituição financeira, também levou à prisão Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, Luiz Phillipi Mourão, chamado de 'Sicário', que estaria conduzindo monitoramento de adversários de Vorcaro, e o policial federal Marilson Roseno da Silva.

A decisão que autorizou a operação, do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), cita a formação de uma organização criminosa, danos bilionários e a possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.

Dois servidores de carreira do Banco Central — Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana — também foram alvos da operação. Mendonça determinou o uso de tornozeleira eletrônica e o afastamento de seus cargos.

A defesa de Vorcaro questionou as acusações, enquanto a de Zettel disse que está à disposição das autoridades e não conhece o imputado contra ele. A BBC News Brasil tentou, sem sucesso, contato com a defesa dos servidores do BC e de Marilson Roseno da Silva.

Vorcaro já havia sido preso em novembro do ano passado, na primeira fase da operação, mas foi solto na sequência. Na época, foi determinado que o empresário fizesse o uso de tornozeleira eletrônica.

A decisão de Mendonça menciona mensagens trocadas entre o banqueiro e os demais alvos da operação, apontando que elas "indicam que os investigados atuavam de forma estruturada e com divisão de tarefas, característica típica de organizações criminosas".

A nova prisão de Vorcaro é mais um capítulo do caso Master. Entenda, em cinco pontos, o que está acontecendo.

1. Por que Daniel Vorcaro foi preso de novo?

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Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro do ano passado por determinação da Justiça Federal. Ele estava no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, tentando embarcar em um avião particular. Na época, seu celular foi apreendido também.

A prisão, realizada pela PF, ocorreu no âmbito da Operação Compliance. Ele era suspeito de gestão fraudulenta, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

No mesmo dia da operação, o Banco Central emitiu um comunicado decretando a liquidação extrajudicial do Master e a indisponibilidade dos bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição.

A prisão preventiva foi revogada dez dias depois pelo Tribunal Regional Federal (TRF), que determinou que ele usasse tornozeleira eletrônica.

Naquele momento, o inquérito, sob sigilo, estava nas mãos do ministro Antonio Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). Mas o ministro deixou a relatoria do caso no mês passado, um dia depois que a PF enviou um relatório para o presidente do STF, Edson Fachin, com menções a Toffoli no caso.

A atuação de Toffoli no caso vinha sendo questionada devido a supostas relações dele com pessoas ligadas ao Master, incluindo Daniel Vorcaro.

Agora, sob relatoria do ministro André Mendonça, uma nova fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada na quarta-feira, culminando com a prisão, novamente de Vorcaro e mais três pessoas: o cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel, Luiz Phillipi Mourão, que estaria conduzindo monitoramento de adversários de Vorcaro, e o policial federal Marilson Roseno da Silva.

2. Quem é 'Sicário' e o que aconteceu com ele?

Homem de camiseta branca. Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão aparecia nos documentos da PF com o codinome de "Sicário

Crédito, PM MG/Divulgação

Legenda da foto, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão aparecia nos documentos da PF com o codinome de "Sicário

Suspeito de integrar uma "milícia pessoal" de Vorcaro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão aparecia nos documentos da PF com o codinome de "Sicário" — pistoleiro ou matador de aluguel em espanhol.

Ele era descrito como integrante de um suposto grupo liderado por Vorcaro para monitorar e ameaçar adversários empresariais, ex-funcionários e jornalistas.

Segundo a PF, horas após ser preso na quarta-feira, Mourão tentou se matar na Superintendência Regional da Polícia Federal, onde estava sob custódia. Ele foi socorrido por policiais e levado para um hospital em Belo Horizonte.

Na quarta-feira (4/3), duas fontes ouvidas pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmaram que os médicos deram início a um protocolo para morte cerebral em relação a Mourão. Neste protocolo, os médicos fazem uma série de exames para confirmar ou descartar a morte encefálica do paciente.

Nesta quinta-feira (5/3), no entanto, a defesa de Mourão informou que o investigado está em unidade de terapia intensiva no hospital, em monitoramento contínuo.

"O quadro permanece grave e o paciente se encontra no CTI e até o momento, não há indicativo clínico para início do protocolo de morte encefálica" disse a defesa às 17h.

Nota da defesa do dia anterior afirmou que um dos advogados de Mourão esteve pessoalmente com ele durante o dia, até por volta das 14h, "quando ele se encontrava em plena integridade física e mental".

"A informação sobre o incidente de supostamente ter atentado contra a própria vida foi conhecida após a nota de esclarecimento emitida pela Polícia Federal."

A Polícia Federal informou que uma investigação interna será aberta para apurar o caso e que vídeos que mostram a dinâmica do que aconteceu serão entregues ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF).

O presidente da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG), pediu esclarecimentos à PF sobre o ocorrido.

Fachada do Banco Master

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Operações do Master viraram pivô de escândalo

3. O que foi descoberto no celular de Vorcaro e qual a ligação com a CPMI do INSS?

Na quarta-feira, o pedido de prisão de Vorcaro, assinado pelo ministro André Mendonça, já mencionava a troca de mensagens do banqueiro com servidores do Banco Central, Fabio Zettel e Mourão.

Por meio das mensagens, os investigadores suspeitam que Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do BC, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, prestavam uma espécie de consultoria para Vorcaro.

Segundo Mendonça, os servidores forneciam informações estratégicas de dentro do BC e orientavam sobre decisões do Master. Na decisão, o ministro aponta Belline como um "empregado" de Vorcaro.

Também na quarta-feira o ministro autorizou que documentos fossem enviados à CPMI do INSS. A CPMI também apura a atuação do Banco Master no mercado de empréstimos consignados a aposentados e pensionistas, objeto da investigação da comissão.

Com esses arquivos, aos quais à BBC News Brasil teve acesso, novas mensagens de Vorcaro foram levantadas e mais a da sua relação com políticos e autoridades.

4. Quem aparece nas mensagens do celular de Vorcaro?

As mensagens de Vorcaro obtidas pela CPMI do INSS e vistas pela BBC News Brasil deixaram mais clara a teia de relações que o dono do banco Master mantinha com as mais altas autoridades da República (leia aqui).

Uma delas é com o ex-ministro da Casa Civil do Governo Bolsonaro, senador Ciro Nogueira (PP-PI). Ele aparece nas conversas do banqueiro com sua namorada, a influenciadora Martha Graeff.

O banqueiro diz, em maio de 2024, que quer apresentá-la ao político, "um dos meus grandes amigos de vida." Três meses mais tarde, Vorcaro fala sobre um "projeto de lei" apresentado por Nogueira, "que é uma bomba atômica no mercado financeiro!".

Naquele mês de agosto, na discussão da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre a autonomia do Banco Central, Nogueira apresentou uma emenda para aumentar a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A proposta não foi para frente.

Procurado pela reportagem da BBC News Brasil, o senador não respondeu aos questionamentos.

As mensagens com Graeff também mostram que o banqueiro se encontrou com o ministro Alexandre de Moraes, do STF, em 19 de abril de 2025, provavelmente em Campos de Jordão (SP)..

A esposa de Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, também aparece nas mensagens quando a namorada de Vorcaro diz que "tava lendo o negócio" dela.

Em dezembro, a PF encontrou no celular de Vorcaro um contrato de R$ 129 milhões firmado com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. O documento, localizado na Operação Compliance Zero em 18 de novembro, previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões ao escritório por três anos a partir de 2024.

Procurado pela reportagem da BBC News Brasil por meio da assessoria de imprensa do STF, Moraes não respondeu aos questionamentos.

Na troca de mensagens, também há menção a uma reunião de Vorcaro com o presidente Lula, em dezembro de 2024.

Martha Graeff pergunta como foi o encontro, e Vorcaro responde: "Foi ótimo" e "Muito forte".

A imprensa já havia revelado em janeiro que Lula encontrou Vorcaro em dezembro de 2024 num encontro fora da agenda oficial, junto a Gabriel Galípolo, então indicado à Presidência do Banco Central.

Vorcaro foi levado ao Planalto, segundo veículos como Folha de S.Paulo e CNN Brasil, por Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Dilma Rousseff (PT).

De acordo com a Secretaria de Comunicação da Presidência da República, o encontro entre Lula e Vorcaro aconteceu após uma audiência entre Mantega, acompanhado de Vorcaro, e o chefe de gabinete de Lula.

Após o encontro, segundo a Secom, Vorcaro e outros presentes pediram para cumprimentar o presidente Lula. O presidente, então, teria recebido Vorcaro na presença dos ministros da Fazenda, Fernando Haddad, de Minas e Energia, Alexandre Silveira, da Casa Civil, Rui Costa, e de Galípolo.

De acordo com a Secom, Vorcaro teria feito queixas sobre a suposta concentração de mercado no setor bancário e o presidente Lula teria dito que o assunto precisava ser tratado de forma técnica.

5. O que aconteceu com o banco Master?

O Banco Master surgiu no final da década passada e ficou famoso no mercado financeiro por oferecer papéis com juros altos — e investir em empresas em situação financeira precária.

A estratégia fez com que a instituição tivesse forte crescimento — mas também despertou críticas e desconfiança no mercado.

No ano passado, o Master ganhou as manchetes ao ser alvo de aquisição por outros grupos financeiros — em meio a notícias de que o banco apresentava problemas para honrar seus CDBs.

CDBs é um investimento de renda fixa, uma espécie de empréstimo de dinheiro aos bancos para financiar suas atividades. Em troca, o investidor recebe juros pelo tempo que "emprestou".

O BRB, banco público do Distrito Federal, anunciou, no início de 2025, a intenção de comprar o Master, em um acordo estimado em R$ 2 bilhões. A compra foi aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Também foi aprovada uma lei na Câmara Legislativa do DF que autorizava a compra, que era defendida pelo governador Ibaneis Rocha (MDB).

No entanto, ela foi barrada pelo Banco Central, que analisou o negócio e concluiu haver dúvidas sobre a "viabilidade econômico-financeira do empreendimento".

As investigações da PF sobre o banco tiveram início em 2024, a pedido do Ministério Público Federal (MPF). O inquérito estava concentrado na possível emissão de carteiras de crédito falsas.

Essas carteiras teriam sido vendidas a outro banco e, após fiscalização do Banco Central, substituídas por outros ativos sem avaliação técnica adequada, segundo a Polícia Federal.

O Banco Central tomou a decisão de liquidar o Banco Master com base em uma lei de 1974 que prevê essa medida quando uma instituição financeira apresenta riscos relevantes — como inadimplência, violação grave de normas e prejuízos que exponham credores a risco considerado anormal.

As autoridades monetárias poderiam ter optado por uma intervenção judicial, em que um interventor é nomeado para assumir a administração do banco com a intenção de fazê-lo voltar a operar.

No entanto, a opção escolhida foi a liquidação do Banco Master e da Master Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários.

O objetivo da liquidação, ocorrida em novembro do ano passado, foi encerrar as operações das instituições. Um liquidante é nomeado para levantar os bens das instituições e realizar o pagamento de todos os seus credores.

Além disso, com a liquidação, é acionado o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), uma associação mantida pelos bancos que protege correntistas, poupadores e investidores de instituições financeiras em situação de risco.

No caso do Banco Master, muitos investidores possuíam CDB, que é um tipo de título emitido pelo banco, com pagamento de juros.

O FGC protege investimentos de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira. Qualquer valor acima desse limite não é coberto pelo FGC — e só poderá ser recuperado a partir do processo de liquidação e venda dos bens do banco.

Outra parte do conglomerado, o Master Múltiplo, foi colocado em regime de administração especial temporária, em que as autoridades ainda tentam recuperar a instituição.

*Com reportagem de Mariana Schreiber, Leandro Prazeres, Vitor Tavares, Iara Diniz, Julia Braun e Daniel Gallas