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Última actualização: 15 Maio, 2008 - Publicado em 18:04 GMT
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A Amazónia e a polémica expansão do cultivo da soja

Armazém de soja em Manaus
A soja é a principal responsável pela destruição da Amazónia
Vários estados da Amazónia vestem hoje uma pele diferente, revestidos que estão por vastas explorações de soja destinadas maioritariamente à exportação.

Um cultivo que continua a gerar controvérsia, seja por reticências ambientais ou por questões em torno dos reais beneficiários da riqueza criada pela soja, que muitos acusam de ser um cultivo inimigo da terra e do pequeno agricultor, a população tradicional.

Uma destas vozes é a do padre católico Edilberto Moura Sena, um crítico das actividades da multinacional Cargill, que opera no Porto de Santarém.

Foi na Rádio Rural, onde transmite o seu editorial diário, que o fomos encontrar.

Padre Sena
O Padre Sena opõe-se à forma como a soja se expandiu na região

"Nos últimos 8 anos a soja veio invadir a nossa cultura, porque ela não é uma planta da nossa região. Por causa da grande procura da soja nos mercados internacionais, o Brasil, que era o segundo maior produtor do mundo, queria crescer e ultrapassar os EUA.

"Somos contra a forma como a soja está a ser plantada na nossa região. Se a soja viesse para cá para ser plantada em áreas pequenas de agricultura familiar e houvesse aqui a industrialização para produzir riqueza e alimentar a população, eu seria a favor.

"Mas a forma como a soja entrou aqui, meramente como interesse económico de grandes empresas como a Cargill e de plantadores forasteiros que não conhecem a nossa região e não respeitam a nossa população, sou absolutamente contra porque isso é destrutivo.

"A verdade é que, dentro do sistema capitalista que vivemos, o gado, as companhias de mineração e as de madeiras estão a fazer uma agressão séria aqui na região. Tratam-se de três grandes destruidores do nosso ecosistema."

Antes de nos encontrarmos com um produtor latifundiário de soja da região encontrámos José Benitez Guerrero, o coordenador do projecto Soja Responsável na Amazónia, da ONG britânica TNC e da norte-americana The Nature Conservancy.

O projecto procura trabalhar com os produtores de soja no domínio da consciencialização, assistência e informação no cultivo deste produto.

Pio Stefanelo
Pio Stefanelo diz que o número de plantações de soja é agora estável

"Desde 2004 que foram aprovadas leis que nos dão a oportunidade de promover a conservação de áreas agrícolas. A nossa tarefa é trabalhar na mitigação do impacto da expansão da agricultura em áreas onde há ecosistemas ameaçados e na redução das ameaças em novas áreas de expansão."

Estabilização

Pio Stefanelo é um produtor de soja que tem vindo a cooperar com o projecto Soja Responsável na Amazónia. Ele diz que o número de plantações de soja estabilizou.

"De 2006 para cá não chegou mais ninguém. As pessoas começaram a deixar a região e hoje o cultivo de soja estabilizou-se em 60 ou 70 mil hectares. A soja aqui na região representa hoje 1,3% da produção agrícola."

Pio Stefanelo refutou as críticas dirigidas aos produtores da soja, dizendo que não só não se sente responsável pela destruição da Amazónia como se considera como peça fundamental do seu manejo.

"Se não se criar uma viabilidade económica para a Amazónia continuaremos a ter o que tivemos aqui nos últimos anos. Fizeram-se as políticas públicas de colonização da Amazónia, atiraram-se as pessoas para aqui e a única alternativa de sobrevivência era o uso da floresta, principalmente da madeira, para fazer exportações para a Europa.

Maria Ivete Bastos
Maria Ivete Bastos foi premiada pelo seu trabalho em prol da Amazónia

"Mas hoje sinto-me uma peça, até de soberania nacional, na preservação da Amazónia. Sinto-me hoje uma das peças mais importantes contra a 'invasão' da Amazónia."

Tudo pior

Maria Ivete Bastos, seringueira e presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém, no estado do Pará, diz que a chegada da soja fez mudar muita coisa - para pior.

"Os trabalhadores da agricultura familiar estão a ser forçados a sair das suas terras, das suas casas, das suas comunidades, que são depois ocupadas pela soja. Os empresários recorreram à violência e a pressões fortíssimas para forçar as pessoas a sair das terras."

Maria Ivete Bastos, que é uma destacada figura do movimento popular, não se coíbe de criticar a actividade dos grandes produtores de soja e dos latifundiários.

"Eles compraram terras, expulsaram as pessoas e criaram conflitos. Não estávamos preparados para os enfrentar porque não conhecíamos a soja. Tudo o que conhecíamos eram as latas de óleo de soja."

Maria Ivete Bastos e o padre Sena foram laureados com o prémio Mahtma Gandhi pelo seu trabalho em prol da Frente da Amazónia.

Ela promete continuar a lutar, apesar mesmo de hoje viver sob escolta policial, devido às ameaças contra a sua vida.

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09 Maio, 2008 | Notícias
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