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Atualizado às: 14 de outubro, 2008 - 08h15 GMT (05h15 Brasília)
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McCanaíma

Lucas Mendes

A três semanas antes das eleições, o índice McCain vai de 8 a 11 negativos e perde nos seis dos seis Estados mais cruciais: Colorado, Ohio, Flórida, Virgínia, Nevada e Missouri. Em alguns deles, como Flórida e Ohio, os números não são confiáveis, mas o senador joga na ofensiva. Hoje, num comício, ele usou 11 vezes a palavra "luta".

As dúvidas sobre a campanha dele crescem entre os próprios republicanos. Uns querem que McCain vá na jugular de Obama e explore suas conexões com o pastor Wright, o ex-terrorista Ayers e o escroque Tony Resko, mas nas pesquisas com os eleitores independentes que podem decidir a eleição, cada vez que McCain ataca, os números caem.

Quem acompanha os comícios no dia-a-dia vê McCainaíma. O McCain de hoje é diferente do McCain de ontem. Na semana passada o senador, a própria mulher e a governadora Sarah Palin atacavam o caráter de Obama. Os comícios ferveram. Quando seus partidários escalaram os insultos e gritaram "terrorista, Obama Osama, kill him", o republicano percebeu que tinha de conter sua torcida. Tirou o microfone de uma mulher que chamou Obama de árabe e disse que o democrata era um americano decente de quem ele divergia profundamente em questões políticas.

Num dia ele anunciou que ia suspender a campanha - não suspendeu - para resolver a crise econômica em Washington, mas ontem criticava o pacote de US$ 700 bilhões que ele ajudou a aprovar. Cada dia surge uma mini-proposta para proteger um grupo nesta crise, mas os americanos, ricos e pobres, estão confusos e perdidos diante de tantas idéias. Enquanto os ingleses já emitem cheques para salvar os bancos, nós aqui não sabemos quem vai ver a cor do nosso dinheiro.

A maior das McCainaímas foi Sarah Palin. Se não interessa mudar de cor nem é possível mudar de idade, mude de sexo. No começo funcionou. McPalin liderou nas pesquisas depois da convenção e seus comícios que não atraíam mais do que 2, 3 mil pessoas, passaram atrair mais de 15 mil, eufóricos, cheios de energia. Parecia jogada de gênio até Sarah Palin ser "educada" pelos assessores e começar a confudir as respostas com uma linguagem que confundiria Macunaíma. Onde esta o verbo?

Não há mágica capaz de durar tempo suficiente para enganar o desempregado, ameaçar o empregado, o casal que perde ou pode perder a casa, os aposentados e quase aposentados que vêem a poupança evaporar em menos de duas semanas. Sarah Palin virou a melhor comédia do país. É uma tragédia.

A investigação de uma comissão independente da câmara estadual do Alasca concluiu que ela não violou a lei quando perseguiu um cunhado e demitiu um assessor, mas concluiu também que a governadora violou a ética.

Revelou-se uma pessoa vingativa, capaz de usar o poder em questões domésticas mesquinhas.

No apodrecimento da economia, McCain ficou cada vez mais parecido com George Bush, mais republicano, mais Washington.

Obama ficou na dele. Distorce números, promete mundos e fundos, mas dá a impressão que faz uma campanha mais limpa e é o verdadeiro anti-establishment. Não tem currículo político, mas seduz pelo potencial. A Presidência já é dele?

Ainda não. Embora a história mostre que é quase impossível reverter números como os atuais a três semanas da eleição, um erro grave, uma visita de Osama ou mesmo uma mudança radical de McCain na campanha podem alterar o cenário. Alguns republicanos de peso, como William Kristol, querem que McCain se livre dos marqueteiros e comece uma nova campanha, sem respostas instantâneas pela televisão e pela internet, sem comerciais, - não estão funcionando - dê acesso total à imprensa e faça campanha como o guerreiro velho e otimista. Deixem McCain ser McCain. Sarah Palin deveria fazer o mesmo.

Durante as primárias, o velho McCain, quase sozinho e sem dinheiro, mostrou que é possível renascer das cinzas. O McCainaíma veio depois. Qual deles virá ao último debate da campanha nesta quarta-feira?

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