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Atualizado às: 03 de junho, 2008 - 10h16 GMT (07h16 Brasília)
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Crise alimentar impõe mudança de hábitos, diz especialista

Supermercado. AP Foto/ Natacha Pisarenko
A crise atual provocou alta nos preços de vários produtos
A atual crise alimentar marca o fim de uma época e indica a necessidade de alterar os padrões culturais e mudar a forma de consumir, sugere a agrônoma Cristina Amaral, coordenadora do grupo da FAO (agência da ONU para Agricultura e Alimentos) criado em dezembro para lidar com a crise.

"Chegamos ao fim da época da alimentação de baixo custo, assim como a do petróleo abundante. Temos uma combinação de fatores que criam uma conjuntura desfavorável, do ponto de vista da segurança alimentar, e uma mudança cultural se torna necessária", disse Amaral em entrevista à BBC Brasil.

A especialista ressalta que é preciso reavaliar o consumo de água, energia e terra, as extrações permanentes e a falta de reposição, e sugere a adoção de formas menos dispendiosas de produção, capazes de renovar os recursos naturais.

"Existe um grande desequilíbrio entre o que se produz e o que consumimos. Uma parte importante do mundo desperdiça demais os alimentos e precisa mudar de atitude", avalia Amaral.

Preços

Segundo a especialista, a necessidade de alterar os hábitos culturais é imposta por algumas transformações importantes como a mudança estrutural do consumo – mais pessoas tendo acesso à alimentação -, a procura por produtos agrícolas para fins não-alimentares, que deve se manter, e a tendência dos preços permanecerem altos.

"Houve alta nos preços dos alimentos nos anos 70, 80 e 90/95 - o último pico bastante significativo. Mas há uma diferença fundamental: pensamos que agora há uma mudança de tendência na curva global", explica.

"Nos outros anos, os preços subiam rapidamente, mas voltavam a descer - um fenômeno oscilatório que ocorreu numa curva cuja tendência era decrescente nos últimos 100 anos, embora houvesse picos. Desta vez, há indicações de que os preços vão continuar altos", afirmou a coordenadora do grupo da FAO.

Segundo cálculos da organização, divulgados em abril, os preços dos alimentos aumentaram em média 8% entre 2005 e 2006 e 24% entre 2006 e 2007.

No primeiro trimestre de 2008, os preços aumentaram 53% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os óleos vegetais ficaram 97% mais caros, liderando o aumento contínuo dos preços, seguidos pelos cereais, que aumentaram 87%, os derivados do leite, em 58% e o arroz, em 46%.

Polarização

De acordo com a FAO, houve 4 períodos diferentes em que os preços aumentaram de forma significativa: 1971-1974, 1988, 1995 e o momento atual.

Cristina Amaral destaca outra peculiaridade da crise atual, em comparação com as anteriores. Segundo ela, além da tendência dos preços permanecerem altos, outra diferença importante é que a alta provocou aumento no preço de mais de um produto.

"No fenômeno atual, há um aumento consistente de um grupo importante de produtos agrícolas: o leite, a carne, os óleos, o trigo, o milho, cujo preço continua subindo, e o arroz, que passou dos US$ 300/400 a tonelada para quase US$ 1.000 - um preço que ninguém jamais imaginou", informou.

Auxílio

A agência da ONU recebeu cerca de 50 pedidos de ajuda, sobretudo de países africanos. A organização está ajudando as áreas mais afetadas com apoio técnico para formular programas e oferece também apoio operacional.

"Nos países que dependem mais de ajuda alimentar, há necessidade imediata de não só continuar, mas aumentar essa assistência, mas somente isso não basta. É importante incrementar a produção dos pequenos produtores de forma significativa, sobretudo em países que importam petróleo e grande parte de sua alimentação", disse Amaral.

A FAO previu um financiamento mínimo de U$ 1,7 bi (R$2,7 bilhões) para aumentar o acesso a sementes, fertilizantes, irrigação e conservação do solo.

"Estamos distribuindo sementes em Burkina Fasso e Mauritânia, onde o ano agrícola começa em maio /junho. Além disso, estamos preparando programas para outros países como o Haiti, em colaboração com o Brasil, para acelerar o recomeço da produção agrícola e garantir à população haitiana o acesso aos alimentos", concluiu a especialista.

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