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Atualizado às: 03 de março, 2008 - 22h46 GMT (19h46 Brasília)
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Comprador arrependido

Lucas Mendes

Você chega em Ohio, liga a televisão e em menos de uma hora percebe que Hillary esta a perigo. Obama ganha de dois a um nos comerciais.

As sedes das duas campanhas em Ohio ficam em Columbus, a três quarteirões uma da outra. Em ambas há intensa atividade, mas o esquema de Obama tem mais gente, paga melhor e é mais eficiente.

O senador começou a carreira como organizador comunitário num bairro pobre de Chicago. Ele sabe como montar uma estrutura de baixo para cima, de porta em porta, de fone em fone.

A senadora também tem a máquina dela, mas não tem o dinheiro nem gera o entusiasmo de Obama.

Em Ohio uma das questões essenciais é o Nafta, o acordo comercial assinado em 94, durante a presidência de Bill Clinton, entre os Estados Unidos, México e Canadá. Nos últimos oito anos Ohio perdeu mais de 250 mil empregos, o Estado empobreceu e a culpa, dizem, é do Nafta.

Vários economistas e estudos provam que o acordo é bom para o país e que mais empregos foram perdidos em Ohio por causa da automação e do computador do que pelo acordo, mas os dois candidatos atravessaram o Estado falando mal do Nafta.

Os dois candidatos mentem. Ambos já falaram bem do acordo, e a transcrição da minuta de um encontro recente entre um assessor do senador - Goolsbee - e o cônsul-geral do Canadá em Chicago, Georges Rioux, hoje está em destaque no noticiário.

No encontro, o assessor teria dito ao cônsul que as críticas de Obama ao Nafta eram mais postura e retórica do que posição política. Caso o senador seja presidente não planeja fazer grandes mudanças no acordo, teria dito o assessor. O Canadá está feliz com o Nafta.

O senador e o assessor desmentem a versão e, mais importante, mesmo flagrado nestas e outras contradições, Obama transmite mais credibilidade e tem mais apelo do que Hillary Clinton.

Os dois têm mensagens muito semelhantes, mas a dele parece mais verdadeira do que a dela, e este tem sido o maior problema de Hillary Clinton, que tinha 20 pontos de vantagem em Ohio há um mês, hoje tem 5% e, em algumas pesquisas, aparece em segundo.

O discurso da senadora soa político e menos sincero, o tom da voz sobe e desce e, com freqüência, é professoral.

Obama, sem arroubos e sem subir a voz, levanta a audiência. O tom é mais de uma conversa do que de um discurso.

Nesta segunda-feira de manhã ela foi a Cleveland e Toledo com a filha Chelsea, que é bem recebida no meio estudantil, forte em Ohio.

O marido Bill está no Texas promovendo a teoria do “comprador arrependido”. Uma boa sacada. Argumenta que o eleitorado, depois de dar 11 vitórias seguidas para Obama agora, no momento decisivo, vai refletir, duvidar e salvar Hillary, porque ela de fato tem mais experiência e substância do que Obama.

Até agora o argumento da experiência não tem funcionado, mas o eleitorado tem um lado sentimental forte e Bill Clinton, mais carismático do que a mulher, quer explorar esta vulnerabilidade e foi ele quem disse que se ela perdesse em Ohio ou no Texas estaria fora da campanha.

Este tipo de apelo perigoso bate no coração do eleitor. Mesmo perdendo por pouco nos dois Estados, ela poderia continuar na campanha e tentar uma jogada final na Pensilvânia, rica de delegados e onde ainda é favorita por boa margem. O marido destruiu esta opção. Amanhã é tudo ou nada.

Se ganhar nos dois Estados, não só corta o embalo de Obama como passa a ser favorita.

Nesta terça, além de Ohio e Texas, há primárias em Rhode Island, terreiro dela, e em Vermont, onde ele deve ganhar disparado, mas o número de delegados em ambos Estados é pequeno.

Mesmo com menos dinheiro e organização ela deverá conseguir segurar Ohio, mas o Texas, apesar do voto latino, é cada dia mais Obama. Pelas pesquisas ele está com três pontos na frente, mas há 8% de indecisos. Se o eleitor não se arrepender e comprar a história de Bill Clinton, nesta terça à noite vamos ouvir o adeus de Hillary nesta campanha.

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