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Oposição cubana perde chance de influir em transição | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A oposição interna cubana pode estar deixando passar um momento histórico do país, uma transição de geração que poderá provocar profundas mudanças, sobretudo no terreno econômico. A agenda opositora se diferencia muito dos temas mais discutidos nas ruas pela população. Enquanto os dissidentes reclamam maiores liberdades políticas, os cidadãos comuns buscam melhorias econômicas imediatas. Além disso, a maioria dos opositores crê que o atual debate nacional e o anúncio de reformas econômicas são somente retoques cosméticos que não produzirão nenhuma transformação de fundo no país. Se isso fosse pouco, a dissidência está fragmentada em dezenas de pequenos grupos, entre os quais existe uma enorme desconfiança e rivalidade que em mais de uma ocasião se traduziu em duríssimas acusações mútuas. Difícil crescimento
Esta posição se repete em quase todos os grupos opositores, apesar de que, na maioria dos processos de transição política, estas demandas foram produto da negociação com as autoridades e não uma condição prévia. Mas, ainda que mudem sua política, dificilmente o governo cubano deve aceitar se sentar para conversar com dirigentes que apenas representam uns poucos milhares de pessoas em todo o país e que não têm praticamente nenhuma influência social. Após 18 anos do início da crise econômica, a dissidência não cresceu numericamente de forma significativa, apesar do caldo de cultivo tão favorável que se criou na ilha à raiz das difíceis condições de vida dos cidadãos. O problema pode estar relacionado com as diferenças nas demandas. As dos grupos opositores têm a ver com o pluripartidarismo e os Direitos Humanos, enquanto que as da população perseguem aumentos salariais, melhorias na habitação e no transporte, entre outras coisas. A ajuda de Miami A dissidência em Miami tampouco colabora muito com o trabalho da oposição interna. Para começar, anunciam publicamente que o governo dos Estados Unidos envia dezenas de milhões de dólares aos dissidentes, confirmando assim as acusações de Havana. Além disso, publicam listas de propriedades que serão devolvidas a seus antigos donos se forem produzidas as mudanças democráticas que propõem. Tratam-se de casas e terras nas quais, hoje e há meio século, vivem ou trabalham outros cubanos. O advogado de Miami Nicolás Gutiérrez coordena 400 demandas para depois da queda da revolução cubana e afirma que um governo “democrático” deveria devolver propriedades com um valor total de US$ 200 bilhões. Finalmente, os políticos de Miami seguem promovendo o embargo econômico e o isolamento de Cuba, estratégia descrita recentemente pelo jornal The New York Times como a melhor fórmula para não influir na transição cubana. Desafio
O dissidente Manuel Cuesta Morúa, presidente do Arco Progressista, disse à BBC que a atual situação “é um desafio ao que realmente quer a sociedade cubana, e saber interpretar isso requer sagacidade e inteligência”. Cuesta Morúa expressou que “Cuba começa outro momento histórico e outro momento político” e explicou que será “uma etapa de mudança gradual que vai levar à normalização como país, já que até agora Cuba viveu estes quase 50 anos exaltada”. “Eu acho que a dissidência tem espaço, mas deve saber que começa um novo momento e um novo desafio”, disse ele à BBC, valorizando as mudanças que se produziram no país durante os últimos meses. O futuro imediato De toda forma, a dissidência poderia ter deixado passar um tempo precioso ao não tentar participar – direta ou indiretamente – no debate político nacional que se desenvolveu em 2007 e que produziu mais de um milhão de críticas e propostas. Foi um momento único para promover entre a população um programa opositor que propusesse soluções para os grandes problemas do país, sobretudo aqueles que mais atingem e preocupam o cidadão comum. Inclusive os dissidentes se mantiveram à margem do debate que está se desenvolvendo entre os intelectuais cubanos por meio da internet e de correios eletrônicos, onde estes colocam profundas críticas e propõem medidas para melhorar a situação. Desta maneira, nada faz prever que a oposição terá um papel no processo em curso, nem sequer se pode esperar – a continuar a mesma política – que tenha influência significativa nas mudanças que se produzam em Cuba no futuro imediato. |
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