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Atualizado às: 25 de fevereiro, 2008 - 12h14 GMT (09h14 Brasília)
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Oposição cubana perde chance de influir em transição

Dissidentes cubanos
Agenda dos dissidentes não segue preocupações da população
A oposição interna cubana pode estar deixando passar um momento histórico do país, uma transição de geração que poderá provocar profundas mudanças, sobretudo no terreno econômico.

A agenda opositora se diferencia muito dos temas mais discutidos nas ruas pela população. Enquanto os dissidentes reclamam maiores liberdades políticas, os cidadãos comuns buscam melhorias econômicas imediatas.

Além disso, a maioria dos opositores crê que o atual debate nacional e o anúncio de reformas econômicas são somente retoques cosméticos que não produzirão nenhuma transformação de fundo no país.

Se isso fosse pouco, a dissidência está fragmentada em dezenas de pequenos grupos, entre os quais existe uma enorme desconfiança e rivalidade que em mais de uma ocasião se traduziu em duríssimas acusações mútuas.

Difícil crescimento

Osvaldo Payá
Payá exige libertação de presos políticos como condição
O líder do Projeto Varela, Osvaldo Payá, disse à BBC que somente participaria do atual processo “quando forem libertados todos os presos políticos e se estabeleçam a liberdade de expressão, de imprensa e de organização”.

Esta posição se repete em quase todos os grupos opositores, apesar de que, na maioria dos processos de transição política, estas demandas foram produto da negociação com as autoridades e não uma condição prévia.

Mas, ainda que mudem sua política, dificilmente o governo cubano deve aceitar se sentar para conversar com dirigentes que apenas representam uns poucos milhares de pessoas em todo o país e que não têm praticamente nenhuma influência social.

Após 18 anos do início da crise econômica, a dissidência não cresceu numericamente de forma significativa, apesar do caldo de cultivo tão favorável que se criou na ilha à raiz das difíceis condições de vida dos cidadãos.

O problema pode estar relacionado com as diferenças nas demandas. As dos grupos opositores têm a ver com o pluripartidarismo e os Direitos Humanos, enquanto que as da população perseguem aumentos salariais, melhorias na habitação e no transporte, entre outras coisas.

A ajuda de Miami

A dissidência em Miami tampouco colabora muito com o trabalho da oposição interna.

Para começar, anunciam publicamente que o governo dos Estados Unidos envia dezenas de milhões de dólares aos dissidentes, confirmando assim as acusações de Havana.

Além disso, publicam listas de propriedades que serão devolvidas a seus antigos donos se forem produzidas as mudanças democráticas que propõem. Tratam-se de casas e terras nas quais, hoje e há meio século, vivem ou trabalham outros cubanos.

O advogado de Miami Nicolás Gutiérrez coordena 400 demandas para depois da queda da revolução cubana e afirma que um governo “democrático” deveria devolver propriedades com um valor total de US$ 200 bilhões.

Finalmente, os políticos de Miami seguem promovendo o embargo econômico e o isolamento de Cuba, estratégia descrita recentemente pelo jornal The New York Times como a melhor fórmula para não influir na transição cubana.

Desafio

Manuel Cuesta Morúa
Manuel Cuesta Morúa (à esq.) se encontra com diplomata dos EUA
Entretanto alguns grupos social-democratas parecem começar a perceber que algo novo está ocorrendo no país e procuram se adaptar às transformações que estão ocorrendo na sociedade e na economia cubanas.

O dissidente Manuel Cuesta Morúa, presidente do Arco Progressista, disse à BBC que a atual situação “é um desafio ao que realmente quer a sociedade cubana, e saber interpretar isso requer sagacidade e inteligência”.

Cuesta Morúa expressou que “Cuba começa outro momento histórico e outro momento político” e explicou que será “uma etapa de mudança gradual que vai levar à normalização como país, já que até agora Cuba viveu estes quase 50 anos exaltada”.

“Eu acho que a dissidência tem espaço, mas deve saber que começa um novo momento e um novo desafio”, disse ele à BBC, valorizando as mudanças que se produziram no país durante os últimos meses.

O futuro imediato

De toda forma, a dissidência poderia ter deixado passar um tempo precioso ao não tentar participar – direta ou indiretamente – no debate político nacional que se desenvolveu em 2007 e que produziu mais de um milhão de críticas e propostas.

Foi um momento único para promover entre a população um programa opositor que propusesse soluções para os grandes problemas do país, sobretudo aqueles que mais atingem e preocupam o cidadão comum.

Inclusive os dissidentes se mantiveram à margem do debate que está se desenvolvendo entre os intelectuais cubanos por meio da internet e de correios eletrônicos, onde estes colocam profundas críticas e propõem medidas para melhorar a situação.

Desta maneira, nada faz prever que a oposição terá um papel no processo em curso, nem sequer se pode esperar – a continuar a mesma política – que tenha influência significativa nas mudanças que se produzam em Cuba no futuro imediato.

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