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Atualizado às: 18 de fevereiro, 2008 - 07h33 GMT (05h33 Brasília)
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Memoráveis memoriosos
Ivan Lessa
“Recordo-o (não tenho o direito de pronunciar esse verbo sagrado, apenas um homem na Terra teve o direito e tal homem está morto) com uma obscura passiflórea na mão, vendo-a como ninguém jamais a vira, ainda que a contemplasse do crepúsculo do dia até o da noite, uma vida inteira. Recordo-o, o rosto taciturno e indianizado e singularmente remoto, por trás do cigarro. Recordo (creio) suas mãos delicadas de trançador. Recordo próximo dessas mãos um mate, com as armas da Banda Oriental, recordo na janela da casa uma esteira amarela com uma vaga paisagem lacustre.”

Estas algumas das primeiras linhas do antológico (qual não é?) conto Funes, o Memorioso, do genial argentino Jorge Luis Borges, segundo tradução de Marco Antonio Franciotti. Na versão portuguesa de José Colaço Barreiros, ele – o conto – virou Funes ou a memória.

O texto em questão faz parte do livro Ficciones (Ficções), de 1944, e narra a história de um rapaz que tinha uma memória prodigiosa, mas que, sem conseguir articulá-la com sua pouca inteligência, era tido como curiosidade no vilarejo em que vivia.

Funes era uma verdadeira enciclopédia, pois lembrava-se de incontáveis textos, apesar de não saber elaborar estes conhecimentos. Aprendeu sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Não era, no entanto, suspeita o narrador, muito de pensar. Pensar, segundo ele, é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos.

Borges, estilista incomparável que é, começa a narrativa, usando repetidamente o verbo “recordar”. Borges sabia das coisas, sabia lidar com bibliotecas incompreensíveis e inúteis. Memorável Borges.

É o que me lembro, pois há muito não o lia. Lembro de outros contos, lembro de… mas aí estou a imitar, e mal, o mestre portenho. Passemos ao tempo presente, passemos à semana passada, que, até certo ponto, é mais fácil de se reter na memória.

Uma aberração

Lembro, digo, juro que foi no jornal que eu li a história de uma senhora que despertaria algum interesse em Borges. Em mim, tocou todos os despertadores internos que me atormentam, pois não assinalam nada a não ser o fato de que é para eu tentar continuar e ficar vivo. Digresso e falo, ou escrevo, sozinho.

Há, no estado da Califórnia, lá nos Estados Unidos, uma senhora de 42 anos, cujo nome os cientistas que a estudam não divulgam chamando-a apenas de A1, que é capaz de se lembrar exatamente de seus movimentos em quase todos os dias de sua vida. Ela diz que mesmo que quisesse não conseguiria esquecer e se refere à sua existência como uma espécie de “filme que não pára nunca”.

A1 vem sendo estudada com interesse pela ciência. Quando perguntada, por exemplo, o que aconteceu no dia 16 de agosto de 1977, ela respondeu que fôra o dia em que morrera Elvis Presley. Sendo ligeiramente mais velho que A1, e pertencente a outra escola de fãs, eu lembro e recordo, mesmo sem querer esbarrar nem nela nem em Funes, que na mesma data morria, na Espanha, após uma partida de golfe, Bing Crosby. Um cantor infinitamente melhor que Presley. Podem me chamar de A2.

A1, que é quem nos interessa, é capaz de se lembrar também de coisas menos memoráveis. Lembra-se que no ano seguinte, 1977, uma iniciativa referente a questões ligadas ao imposto de renda de seu estado passou a entrar em vigor. Não cessam aí os prodígios de A1. Diz direitinho que, no dia 25 de maio de 1979, caiu um avião. As folhas que me deram a notícia não informam se a catástrofe foi na Califórnia ou em Cingapura. Todas as minhas antenas se ligam ao tomar conhecimento do fato.

A1 além do mais fracassou quando tentou se lembrar de como estavam vestidas as pessoas que a examinavam e à sua prodigiosa (é o que dizem) memória. Tudo indica que essas pessoas estavam vestidas. Não se trata portanto de memória fotográfica. Eu, sem aspirações a A2, me lembro direitinho de como estavam vestidos os funcionários do metrô lá perto de casa: tudo de uniforme azul, camisa branca e gravata preta.

Memória pode ou não ser um truque. Pode ou não ser melhorada. Pode ser dádiva divina, ou de criador prendado, como o Funes de Borges. Pode e deve ser exercitada. Como um músculo. Eu tenho apenas uma memória razoável. Lembro-me de inimagináveis besteiras, esqueço-me das coisas mais importantes. Como todo mundo. Sei a letra de Chão de Estrelas mas sou incapaz de chegar ao segundo verso do Hino do Expedicionário.

Este é o teste

Amigo ou amiga, de A3 a A32: testem sua memória com algumas perguntas capciosas irrelevantes. Quem sabe você não pode ser estudado pela ciência ou virar personagem de um aspirante a Jorge Luis Borges. Segurem:

a) Quem foi o primeiro vilão enfrentado por James Bond?
b) Qual o nome verdadeiro de Oscarito?
c) Que telenovela da Globo tinha um personagem chamado Doutor Cláudio?
d) Qual a escalação da seleção brasileira campeã em 1970?
e) Penico de barro enferruja?

Conclusão

Taí. Não é que eu me esqueci?

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