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Atualizado às: 08 de fevereiro, 2008 - 10h19 GMT (08h19 Brasília)
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Tudo é cultura
Ivan Lessa
Tendo acabado de passar uns dias em Berlim, onde me vi frente a frente com a cultura, volto para uma Londres onde proliferam os escândalos com parlamentares e seus gastos com cartões parlamentaristas, aliados a um razoável nepotismo, embora a adjetivação seja das mais inadequadas.

Não bastasse, um líder sindicalista, essa estranha e misteriosa raça que sonha em dominar o mundo, ameaça a pacífica e trabalhadora população com uma série de greves no metrô, por motivos nada claros e pouco discutidos na imprensa, uma vez que, apesar da traulitada dada pela ex-primeira-ministra Thatcher nessas subversivas e demagógicas instituições, os sindicatos continuam a funcionar e a tramar subversões nos mais inesperados locais de trabalho.

Viver é pastar num vasto prado de ilusões.

Nota de esclarecimento

Dois de meus três amigos me viram manquitolando por volta de Gloucester Road na segunda-feira de Carnaval. Um deles é semi-leitor assíduo meu e estranhou que, no texto referente ao reinado de Momo, eu escrevesse como se estivesse em Berlim.

Esclareço ao outro leitor londrino, e aos três do Brasil, que no Carnaval, apesar de velho, eu me fantasio, e, quando fantasiado, fantasio (do verbo fantasiar). Por trás da minha máscara mendaz e faceciosa de globetrotter, eu era o mesmo truão de sempre sonhando de olhos abertos com terras distantes e minha amada, e nunca pisada, Berlim, que cognominei sem titubear de a “metrópole maravilha”. Um dia, mesmo de cadeira de rodas, eu chego lá. Perdão, leitores.

Liverpool vai botar para quebrar

Todo ano, eles – o mundo, a vida – escolhem uma “cidade da cultura”. Oficial, de uniformezinho. Nunca lhes ocorreu que cultura não pode ser nomeada, como um ministro ou assessor de imprensa qualquer. A cultura vem com o tempo e o somatório de qualidades intelectuais e artísticas que a natureza, aliada aos governos esclarecidos, empresta aos cidadãos deste ou daquele outro lugar, em maior ou menor proporção.

No Brasil, São Salvador, na Bahia, sempre foi e será uma cidade de cultura. Não é preciso sair no Diário Oficial para que o resto do país e do mundo saibam disso. O Rio e São Paulo entram e saem dos labirintos culturais dependendo da equação crime+beleza natural+centros de ensino sobre artes+espetáculos gratuitos+gente calçada sobre aspecto físico de governantes+número de pobres pelas esquinas. Tudo isso decidido, é só fazer as contas, por os devidos pontos nos devidos ii e noves fora até dar em… nada.

Nada também é cultura. Pensem no niilismo.

Visto isso, dou a notícia e me espanto: Liverpool, no norte, lá pelas bandas do rio Mércia, foi apontada como a cidade da cultura, cognome válido para todo o ano de 2008.

Poucas coisas no norte de qualquer país do mundo têm a ginga e a bossa necessárias para sequer aspirar à condição de vila, aldeia ou cidade, quanto mais da cultura.

Mato a cobra e mostro o pau.

O pau

Sabem quem deu o pontapé inicial para as atividades culturais de Liverpool? Ringo Starr. Ele mesmo. Estão vendo o que eu queria dizer? Como é que uma cidade pode se travestir de “cultural” quando quem dá início aos trabalhos é Ringo Starr.

O ex-Beatle talvez seja o pior baterista que o mundo civilizado ou selvagem já conheceu. Ringo Starr é tão ruim, mas tão ruim que, por toda sua vida, mesmo nos anos de glória e enriquecimento indevido, graças aos outros três componentes do quarteto, sempre pensou estar tocando saxofone soprano.
Mais: até hoje ele jura que era um sexteto. Isso é o que homenzinho narigudo entende de e por música.

Durante este seu ano de cultura, Liverpool, entre outras delícias, pretende promover, em abril, um dia inteiro dedicado à valsa, quando toda a população poderá ir à sala de espetáculos cognominada São George e dançar a música (ou songbook, como se diz no Brasil) de Johann Strauss, conforme os compassos dados pela Real Orquestra Filarmônica da cidade. Valsa e Liverpool. Combina bem paca. Feito Holocausto e samba-enredo.

Em maio, na galeria Tate local, o povo poderá acorrer em massa à primeira exibição no Reino Unido das obras de Gustav Klimt, afamado mestre vienense da frescura adoidada apelidada de art nouveau. Não paga dez que vai ter derrame cerebral em escala de febre-amarela brasileira.

Junho também, como Django, não perdoará. Sir Paul McCartney encabeçará (com os cabelos em tom de acaju mais condizente com a seriedade da ocasião) um concerto inteirinho sobre o que é chamado, sem safadeza, de The Liverpool Sound, ou seja, o som de Liverpool. Som de Liverpool, que eu saiba, já foi navio comercial apitando grosso e, hoje, é neguinho vomitando a alma pelas esquinas da cidade.

Setembro me deprimiu. Sir Simon Rattle, o regente sinfônico das estrelas, conduzirá um concerto com a Filarmônica de minha adorada Berlim numa das mais prestigiosas – rá! – salas de espetáculo da cidade.

É isso aí. Durma-se, em Londres ou Sheffield, com um barulho desses.
Por essas e por outras é que eu sou mais o Rio. Lá não tem essa frescura de “cultura”. É praia, morenas e bala perdida em busca de destinatário merecedor.

Arquivo - Ivan
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