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Canal de Suez abalou relações entre o governo britânico e a BBC | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A crise envolvendo o Canal de Suez, no Egito, nos anos 50, dividiu a Grã-Bretanha e abalou as relações entre o governo britânico e a BBC. A crise começou depois que o governo egípcio decidiu nacionalizar a empresa anglo-francesa Suez Canal Company, em julho de 1956. Em retaliação, a Grã-Bretanha e a França apoiaram, secretamente, a invasão israelense à Península do Sinai. Londres e Paris se ofereceram para intervir e criar uma zona de exclusão entre Israel e o Egito, mas quando a oferta foi recusada, no dia 31 de outubro de 1956, suas tropas assumiram o controle da zona do canal. A crise se agravou quando a União Soviética ofereceu apoio ao Egito. Eram tempos de Guerra Fria, e os Estados Unidos queriam impedir qualquer expansão da influência soviética. O país então pressionou a Grã-Bretanha e a França a retirar suas tropas, o que foi feito em novembro. BBC recusa Menzies O que fez desta uma época particularmente difícil para a BBC foi que, ao contrário de outros conflitos, como a Segunda Guerra, a Guerra das Malvinas ou o Iraque, não havia um consenso amplo no Parlamento, com os dois principais partidos - o Conservador e o Trabalhista - divididos. Apesar de o Partido Trabalhista, liderado por Hugh Gaitskell, ter sido inicialmente contra a nacionalização anunciada pelo Egito, eles mudaram de lado e se tornaram extremamente críticos aos conservadores, liderados por Anthony Eden. A mudança de lado ocorreu antes mesmo da invasão, em agosto, quando o então primeiro-ministro australiano, Robert Menzies, que estava de visita a Londres, se ofereceu para fazer um pronunciamento de rádio em apoio a Eden. A BBC rejeitou a idéia. John Green, que controlava o conteúdo das transmissões, acreditava que depois da transmissão do discurso de Eden e de outro, planejado pelo ministro do Exterior Selwyn Lloyd, a rádio estava sendo parcial, em favor do governo. Irritado, Anthony Eden ligou para o diretor da BBC, Alexander Cadogan, para reclamar. Os dois eram velhos amigos, e Cadogan solidarizou-se com o primeiro-ministro, descrevendo em seu diário a decisão da BBC como uma "bobagem". Mas, apesar do temor dentro da própria BBC de que Cadogan adotaria uma postura mais intervencionista, a decisão de não transmitir o pronunciamento de Menzies se manteve. Novo problema As orientações sobre os pronunciamentos ministeriais haviam sido definidas em 1947, e o princípio de é que elas não deveriam ser controversas. Segundo a legislação aprovada pelo Parlamento, elas deveriam lidar com fatos ou pedir a cooperação pública. Mas, se a oposição achasse que uma transmissão havia ultrapassado esta linha, seu líder no Parlamento poderia pedir o direito de resposta. Se o governo se recusasse, a junta de governadores da BBC era chamada a arbitrar. A situação pôs esta junta em uma situação complicada, por ter que tomar uma decisão política. Como explicou o diretor-geral Ian Jacob: "Os procedimentos que governam as transmissões políticas foram desenhados para as controvérsias domésticas do tipo que normalmente acompanham a vida pública. Uma emergência nacional quando a ação do governo não contava com o apoio nacional apresentava um novo problema". Governo tenta 'disciplinar' a BBC Depois da invasão israelense, em 29 de outubro, a crise aumentou. O primeiro-ministro, Anthony Eden, fez um pronunciamento, e o líder trabalhista exigiu direito de resposta. Eden foi contra a idéia, acreditando que o país deveria estar unido no que ele via como uma guerra e temendo que o moral das tropas fosse prejudicado. Mas ao ser chamada para arbitrar, a BBC concordou com o pedido dos trabalhistas. O pronunciamento de Hugh Gaitskell, no domingo, 4 de novembro, aumentou ainda mais a divisão. O assessor para Relações Públicas de Eden, William Clark, sugeriu que ele fosse editado para a transmissão pelo Serviço Árabe, que chegava ao Egito. Depois, Clark revelou que "vários esquemas para disciplinar a BBC" foram discutidos na época. Houve até informações, nunca confirmadas, de que o governo chegou a pensar em assumir o controle da BBC. Mas Eden queria contar com o mesmo apoio da BBC que o governo obteve durante a Segunda Guerra. BBC mantém posição O grande problema, segundo Eden, foi o modo como os serviços de língua estrangeira retrataram as diferenças dentro da Grã-Bretanha. Mesmo antes do início da ação militar, os comentários sobre a imprensa britânica transmitidos pela BBC mostravam as críticas ao governo publicadas nos jornais. O governo acreditava que isso minava sua posição quando ele tentava fazer ultimatos ao Egito. Para deixar a questão clara, Jacob foi convocado pelo Ministério do Exterior e informado de que os ministros planejavam cortar o financiamento da BBC em 1 milhão de libras, com o dinheiro sendo enviado aos serviços de informação do governo no exterior. Jacob e Cadogan, diretores da BBC, protestaram junto ao ministro sem pasta RA Butler, e tiveram a ameaça de corte reduzida pela metade. Mais tarde, ela foi suspensa totalmente. Mas o governo queria manter uma pessoa de confiança na BBC para monitorar as transmissões, e depois do início do ataque anglo-francês, em 29 de outubro, um representante foi enviado à sede do Serviço Mundial para vetar boletins em árabe. Nos próximos meses, sob ataques regulares do Ministério do Exterior e de parlamentares conservadores, a BBC manteve seus princípios e transmitiu as mesmas versões da história para suas audiências doméstica e internacional. Quando a empresa noticiou um editorial do jornal Manchester Guardian, descrevendo a invasão anglo-britânica como um "ato leviano sem justificação", a decisão foi apoiada pelos diretores, que determinaram que a revista da imprensa deveria continuar como sempre. No fim, o governo britânico acabou cedendo na crise do canal. A pressão internacional dos Estados Unidos e das Nações Unidas forçou Eden a retirar as tropas britânicas do Egito pouco depois, e o primeiro-ministro, doente e exausto, foi se recuperar na Jamaica. No ano seguinte, ele renunciou. |
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