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Atualizado às: 01 de setembro, 2007 - 00h35 GMT (21h35 Brasília)
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Ignorar discussão sobre mensalão é pior para o PT, diz Weffort

Luiz Inácio Lula da Silva
PT realiza no fim de semana seu 3º congresso, o primeiro no governo
O sociólogo Francisco Correa Weffort, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, que deixou o partido para ser ministro da Cultura do governo Fernando Henrique Cardoso, acha que o PT deve discutir a participação de dirigentes do partido no escândalo do mensalão, sob pena de manchar a reputação de todos os integrantes da legenda e alienar pessoas que não concordam com a situação.

O partido realiza neste fim de semana seu terceiro congresso, o primeiro no governo, com a cúpula do partido dividida entre aprofundar ou não a discussão sobre a participação de dirigentes no escândalo.

“No momento é ruim discutir, mas a médio e longo prazo não discutir é pior, porque vai afastando pessoas”, afirma Weffort. “A vantagem de se discutir essas coisas em política é que um grande número de pessoas dão uma prova de que são gente honesta, de que não estão roubando, etc. Quando as pessoas se calam, a suspeita vai crescendo”, diz ele.

Veja a entrevista concedida por Weffort à BBC Brasil:

BBC Brasil - O senhor foi um dos fundadores do PT, como vê hoje o partido e a militância petista?

Francisco Weffort - O que eu vejo do PT é uma pequena parcela do que via quando estava lá. Agora vejo de fora. Mas mesmo assim o PT mudou muito. O PT podia cometer outros erros, o PT era sectário, o PT era puritano, o PT era moralista, o PT era principista. Mas não era ladrão. Ou pelo menos não se sabia de nenhum ladrão lá dentro. Essas coisas nem passavam pela cabeça das pessoas e se houvesse uma conduta irregular com relação a fundos públicos, o sujeito seria excluído em 24 horas.

BBC Brasil - O PT faz a partir desta sexta-feira seu terceiro congresso e a liderança do PT está dividida entre discutir ou não este processo do mensalão e esta decisão da Justiça. O que pode resultar deste embate?

Weffort - Eu não sei se eles vão discutir ou não. Eu suponho que todos vão ficar um pouco inibidos de tratar o tema, porque eles vão considerar que isso vai dividir mais o partido numa fase difícil. Mas eu acho que não discutir é tão desmoralizante quanto discutir. É uma sangria que se vai agravando. A vantagem de se discutir essas coisas em política é que um grande número de pessoas dão uma prova de que são gente honesta, de que não estão roubando, etc. Quando as pessoas se calam, a suspeita vai crescendo. Se ninguém fala nada, são todos mais ou menos cúmplices. No momento é ruim discutir, mas a médio e longo prazo não discutir é pior, porque vai afastando pessoas. Eu conheço pessoas que se afastaram por isso, porque ninguém fala nada, faz de conta que não aconteceu coisa nenhuma. Isso é muito grave porque pessoas que têm um critério petista mais antigo em relação a este assunto se sentem atingidas. Levanta-se uma dúvida sobre 15. Ou discutimos ou todos os 15 mil vão ser afetados. Enfim, é uma situação difícil. Discutir agora é difícil, não discutir eu acho que é pior.

BBC Brasil - Como o senhor vê o resultado do julgamento no Supremo Tribunal Federal dos 40 acusados de envolvimento no chamado mensalão?

Weffort - Isso é uma evidência de uma surpreendente independência do Supremo em relação ao Executivo. Porque dos 11 membros do Supremo (10 durante o julgamento, porque um se aposentou), seis foram indicados pelo presidente Lula. O relator é um ministro que foi indicado pelo Lula. Você esperaria uma divisão de votos maior. Já era surpreendente a denúncia do procurador-geral, que também foi indicado por este governo. Eu vejo isso de dois ângulos: primeiro, uma preocupação de muita gente de consolidar as instituições democráticas. Acho que isso provavelmente deve existir até dentro do próprio governo. E que certamente existe na imprensa e num setor muito importante da opinião pública. É um sinal de consolidação das instituições democráticas. O que é realmente a resposta a uma preocupação. A desmoralização da Câmara e agora do Senado, com o caso do Renan (Calheiros), e o fenômeno do mensalão, do sanguessuga, que comprometeu muito a reputação do governo no respeito às regras republicanas. Havia uma preocupação grande sobre para onde nós estamos indo.

BBC Brasil - O senhor disse, num artigo logo após a eleição do presidente Lula, em 2003, que a eleição dela era um sinal da democratização do país. Já num artigo no ano passado, o senhor diz que as instituições estavam funcionando apesar do governo, e que a democracia estava conseguindo superar as manobras antidemocráticas do governo. E o senhor fala também em ameaças à democracia. O senhor acha que a democracia brasileira está ameaçada?

Weffort - Olha, depois dessa decisão do Supremo eu estou mais confiante. Mas são duas coisas diferentes: primeiro, quando Lula foi eleito, eu saudei isso como um avanço democrático, e acho que foi mesmo. Mas houve um momento, que foi o momento do Palocci, a perseguição do Francenildo, que tinha no noticiário muita informação mencionando mecanismos internos do governo no sentido de obstaculizar a fiscalização. E foi neste momento que eu escrevi aquele artigo dos inimigos da democracia. Realmente era uma preocupação.

 A vantagem de se discutir essas coisas em política é que um grande número de pessoas dão uma prova de que são gente honesta, de que não estão roubando, etc. Quando as pessoas se calam, a suspeita vai crescendo

BBC Brasil - E hoje, como o senhor vê?

Weffort - Hoje eu vejo com mais confiança. Porque este julgamento não sai de graça. Este assunto está no ar há dois anos. Por mais que o Lula seja preguiçoso, e ele não é. Ou o Tarso Genro seja distraído, e ele não é. Eles estariam preocupados em conversar com alguns ministros.

BBC Brasil - O senhor acha que eles não fizeram isso ou tentaram fazer e não deu resultado?

Weffort - Se tentaram e não deu resultado, é um sinal positivo. E se nem tentaram, é um sinal mais positivo ainda. Porque eles confiaram que a instituição funcionaria normalmente e ou a verdade prevaleceria, ou o ponto de vista deles prevaleceria. Eu tenho mais confiança agora porque me dá a sensação de que o jogo foi limpo.

BBC Brasil - O senhor acha que isso é fruto da pressão da opinião pública?

Weffort - Ah, eu acho. É fruto da pressão da opinião pública por um lado, e é fruto desta trajetória que vem desde o período de 74, 78, já são 30 anos, que a pressão é pela democracia.

BBC Brasil - Qual é o impacto no governo?

Weffort - Eu acho que o impacto não é bom. O Lula diz que não afeta o governo, mas não é verdade. O governo está lá para gerir o Estado. Uma parte dos problemas de gestão que o PT está tendo vem da desmoralização deste aparato. Nós tivemos uma crise enorme na aviação civil e ninguém fez nada. O governo não se sentia com moral para tomar decisões.

BBC Brasil - Com isso, o que se pode esperar para o futuro?

Weffort - Eu acho que o governo vai continuar este governo lento, impreciso, precário. Ele não tem capacidade de mobilizar a própria máquina do Estado. Acho que o governo não vai ter um desempenho bom daqui para a frente. Vai depender do desempenho da economia, e isso não depende do governo. Vai continuar gerindo a economia do jeito que vem gerindo e não vai conseguir o apoio necessário para eleger o seu sucessor.

BBC Brasil - E o PSDB, neste cenário, por que não consegue mostrar isso aos eleitores?

Weffort - Um, porque o PSDB tem o governo no Rio Grande do Sul que nem consegue pagar os funcionários, tem governo em São Paulo e em Minas Gerais, que são os Estados mais importantes. O PSDB é muito fraco no Nordeste, com exceção do Ceará, muito fraco no Rio de Janeiro. E todos os governadores têm que administrar seus Estados, não querem brigar com o governo federal. Outro aspecto é que o PSDB é um partido de caciques, não é um partido de índios. Então eles estão o tempo todo fazendo manifestações pessoais, cuidando cada um do seu próprio interesse, e não tem é um partido de mobilização, como o PT era no começo.

BBC Brasil - Isso significa o que, que o PT continua, ou que o PSDB consegue na próxima eleição superar isso?

Weffort - Num sistema de dois turnos, todos os partidos vão querer ter candidato. E o PSDB vai querer ter candidato. Com toda probabilidade ele chega ao segundo turno. O outro candidato vai ser o candidato do Lula. Todo o problema consiste em saber se o Lula vai ser capaz, no segundo turno, de fazer essa transferência de voto. E eu acho que não. É muito difícil no Brasil porque, com essa enorme desigualdade, por mais que você faça, sempre falta muito pra fazer, e o seu adversário pode usar isso.

Homem com bandeira do PTCongresso do PT
Partido se reúne mais dependente de Lula, diz cientista político.
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