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Atualizado às: 15 de março, 2007 - 08h40 GMT (05h40 Brasília)
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Linda e Mirikitani: Paixão Felina
Japonês sujo e sem teto em Nova York até hoje só conheci um em mais de 30 anos. Ele dormia e pintava perto da minha vizinhança, ali na Washington Square, outras praças no Village e no Soho.

No inverno ele acampava nas suas caixas de papelão na calçada de uma lanchonete coreana (deli) protegido pelo plástico das flores.

Para um homem de aparência tão triste e decadente, os gatos que ele pintava, "gatos japoneses", ele dizia, eram joviais, alegres e coloridos. Além dos gatos ele pintava sempre umas barracas num deserto com um ou outro personagem e um morro pontudo, no fundo. E tinha uma coleção de fotos de ruínas de Hiroshima.

Falava pouco e não parecia interessado em vender seus quadros. Linda Hattendorf, que ama gatos, quis comprar um desenho, mas o japonês disse que preferia trocá-lo por uma foto dele, com ela e o desenho.

Linda explicou que a única câmera que tinha era uma dessas de vídeo em casa. Se ele topasse, ela voltaria mais tarde. Ele topou.

Isto foi no começo de 2001. Ela voltou com sua câmera muito chinfrim e não filmou só aquele encontro.

Aos poucos conquistou a confiança e o afeto do velho e sujo japonês. O nome dele é Jimmy Mirikitani, na época com 80 anos. Nasceu em Sacramento, na Califórnia e aos 3 a família mudou para Hiroshima.

Aos 18 ele voltou para a Califórnia e foi um dos poucos Mirikitani que sobreviveram. Apesar de ter vivido a maior parte da vida nos Estados Unidos o inglês dele às vezes é incompreensível.

Durante a guerra com o Japão, 120 mil japoneses, entre eles Jimmy Mirikitani, foram internados em campos de concentração onde não sofriam maus tratos de prisioneiros de guerra, mas era um confinamento. No campo dele, em Tule Lake, viviam 18 mil. Este era o quadro que ele pintava sem parar, como os gatos.

Quando as torres foram atacadas, o sul de Manhattan ficou isolado, deserto e contaminado. Miritikani, que não aceitava nenhum tipo de favor, concordou em ir morar no apartamento de Linda, na Sexta avenida.

Da poltrona, ele assistia impassível, quase indiferente, ao noticiário dos ataques às torres. Linda continuou a filmar e a cavucar a vida de Mirikitani. Mulher solteira, vivendo com um gato, não tinha espaço nem dinheiro para adotar o velho japonês.

Ele não tinha nenhum documento. Nem queria. Não perdoava o governo americano pelo bombardeio de Hiroshima nem pelo internamento no campo. "Hiroshima era linda". Governo estúpido. Eu era cidadão americano", repete várias vezes.

Com um garimpo incansável, Linda descobriu que depois da guerra Mirikitani veio para Nova York, trabalhou numa lavanderia e depois foi uma espécie de valet de um homem rico que morava na avenida Park. Naquela época, Mirikitani conheceu e até preparou peixe cru para o famoso pintor Jackson Pollock. Com a morte do patrão, Mirikitani foi viver sua vida de "Grande Mestre", como ele se identifica, nas ruas da cidade.

Linda descobriu que Miritikani tinha direito a recuperar sua cidadania americana da qual abrira mão coagido pelo governo no campo de concentração. Quase contra a vontade dele e com boa ajuda de burocratas em Nova York, Linda não só colocou a vida de Mirikitani em ordem com um cheque mensal da Previdência como um apartamento novo e cheio de luz, para artistas num prédio subsidiado pela prefeitura em Manhattan.

Descobriu que Mirikitani tem uma irmã em São Francisco e até amigos apesar do temperamento arredio.

Mais eu não conto mais porque vai estragar seu prazer de assistir a este documentário extraordinário - The Cats of Mirikitani - que ganhou prêmios em vários festivais.

Na minha sessão, um japonês que ajudou Linda a traduzir trabalhos de Mirikitani conversou com a platéia depois da exibição. Contou que Mirikitani continua pintando, vai muito bem de saúde, tem um gato, e todos nos ali presentes estávamos convidados para comemorar os 87 anos dele. Pois lá vamos nós cantar parabéns para Mirikitani e para Linda Hattendorf.

Arquivo - Lucas
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