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Atualizado às: 26 de outubro, 2006 - 15h03 GMT (12h03 Brasília)
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Serra Talhada teme perder benefícios sem Lula

Iracema Ribeiro de Souza
Iracema vive com dois filhos em cômodo no bairro Bom Jesus
Cerca de 16 mil pessoas vivem no bairro de Bom Jesus, um dos mais pobres de Serra Talhada (PE). A prefeitura não sabe o número exato, mas quase todos estão entre as cerca de 11 mil famílias que recebem Bolsa Família no município.

Apesar das casas de alvenaria e das ruas largas entre as casas, é o equivalente a uma favela de cidade grande. Tirando a rua principal, as outras não têm calçamento, e os moradores vivem em casas simples de poucos cômodos.

Alguns, como Iracema Ribeiro de Souza, 27 anos, vivem em apenas um cômodo, sem banheiro. Separada do marido, ela mora com os dois filhos, de oito e 13 anos. Paga R$ 40 por mês. O cômodo serve de quarto, sala e cozinha, tudo junto.

Outras três famílias vivem em habitações semelhantes, ao longo de um corredor. O único banheiro, dividido por todos eles, fica no fim do corredor. Há três anos, Iracema começou a receber R$ 15 a cada dois meses do Vale Gás. Agora, há dois meses, recebe R$ 65 do Bolsa Família.

Ela não sabe porque começou a receber o beneficio, mas diz que o dinheiro veio em boa hora. Como faxineira, ela não consegue muito mais do que isso por mês, e tem dificuldade para colocar comida em casa.

"Já tive momentos de não ter o que botar no fogo. É difícil conseguir trabalho por aqui", diz ela. O filho de oito anos não está indo à escola, mas ela diz que pretende mandá-lo.

Como quase todos no bairro, Iracema vota em Lula, "porque ele fez muito". Ela diz ter "muito medo" de que ele não seja reeleito e o Bolsa Família seja cortado. "A gente precisa muito", afirma.

Carência

Josileide Ferreira da Silva Barbosa, 21 anos, dois filhos de um e três anos, trabalha como empregada doméstica por um salário de R$ 150. Ela não recebe Bolsa Família, mas diz que, se fosse incluída no programa, deixaria o emprego.

"Poderia fazer uns bicos e cuidar um pouco mais dos meus filhos", diz Josileide. O marido está desempregado e só faz uns bicos de vez em quando.

A carência no bairro é muito grande, mas Lucia Helena Costa da Silva, dona de uma pequena mercearia que também serve de residência para a família e onde dormem seis adultos e duas crianças, diz que antes era ainda pior.

"As pessoas passavam fome", conta ela, com os olhos úmidos pela lembrança. "Agora, com essa bolsa, pelo menos o pessoal consegue comprar um pãozinho e um litro de leite", afirma. "Por isso, muitas pessoas dizem que vão pedir a Deus para ele ser reeleito."

Lucia diz que aumentou a venda de alimentos básicos como arroz, feijão, leite, pão. "Mesmo se a pessoa não tem dinheiro, eu posso vender fiado, porque sei que a pessoa vai receber a bolsa e poder pagar", afirma.

Zona rural

No zona rural de Serra Talhada, o cenário muda, mas a realidade é semelhante. Na paisagem seca do semi-árido, com a lavoura dependendo da chuva irregular, as famílias dependem da sorte e dos benefícios do governo para seu sustento.

Dois programas do governo federal, administrados pela prefeitura, pretendem quebrar este ciclo e estimular a agricultura familiar. Um deles é a Compra Direta Local da Agricultura Familiar (CDLAF).

De acordo com o vice-prefeito e secretário municipal de Agricultura, Luciano Duque Godoy, pouco mais de 200 pessoas, entre agricultores, pescadores e mulheres que fazem o desfiletamento do peixe estão envolvidos no programa.

Com recursos federais, a prefeitura compra direto deles os alimentos que usa nos programas sociais como fornecimento de refeições para creches, asilos e entidade assistenciais. "Isso fortalece a cadeia produtiva e cria uma cultura de produção", diz Godoy.

Outro programa é a formação de jovens, filhos de agricultores e produtores de caprinos, para que aprendam novas técnicas e sejam estimulados a permanecer na zona rural e a tornar o local mais produtivo.

"Existe muito conhecimento nas universidades, mas ele precisa chegar até os pequenos produtores", diz Godoy. Ele afirma que o programa tem os jovens como foco porque os produtores mais velhos são muito resistentes a mudanças.

Hortas

Maria José Pereira Lima, 19 anos, é um exemplo dessa realidade. Depois de fazer um dos cursos de qualificação, ela decidiu, junto com cinco outras alunas, todas mulheres, montar uma horta na propriedade da família.

Com insistência, conseguiram autorização da prefeitura para pegar água para irrigação de um poço nas redondezas e, hoje, o verde da horta contrasta com a aridez do terreno em volta.

Edivanete Nunes de Lima Melo
Edivanete recebe R$ 80 por mês do programa Bolsa Família

Trabalhando juntas, todas as tardes, depois das aulas, elas conseguem entregar 125 quilos de abóbora e 37,5 quilos de coentro por semana para a prefeitura, e uma renda mensal de R$ 200 para cada uma. Plantam ainda, para vender por fora, alface, cebolinha, beterraba e batata doce.

Maria José confessa que só entrou no projeto, no início, estimulada pela bolsa de estudos de R$ 150 paga aos alunos. Mas com o tempo, viu que havia potencial para ganhar dinheiro. "Antes faltava incentivo", diz ela.

Animadas, as seis planejam no futuro ampliar a produção e tocar hortas em separado, para aumentar os rendimentos.

O pai de Maria José, Manoel Pereira Lima, ainda não está convencido. Ele prefere continuar no sistema antigo, plantando milho no inverno, "quando chove".

Na região, não se ouve falar em Alckmin. "Presidente melhor do que ele não tem", diz Edivanete Nunes de Lima Melo, uma das beneficiadas, sobre o presidente Lula.

Com dois filhos em idade escolar, ela recebe R$ 80 por mês do Bolsa Família, e teme que o benefício acabe se ele perder a eleição. "A vida está melhor do que antes", diz ela.

Dois Brasis
Especial explora as contradições do país que vai às urnas.
O que é melhor?
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Edivanete Nunes de Lima Melo (Foto: Denize Bacoccina)Opção por Lula
Os votos de Curuçá e Serra Talhada.
Werner Scherdien (Foto: Alessandra Corrêa)Opção por Alckmin
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