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Atualizado às: 14 de setembro, 2006 - 03h46 GMT (00h46 Brasília)
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Lucas Mendes: Zum Zum no Teto
Tem um emprego aí? Sabe de um hotel abaixo de 200 por dia? Estas duas perguntas lideravam os pedidos semanais de brasileiros - e não-brasileiros - a caminho de Nova York. Agora é apartamento para alugar.

Os preços destramelaram e as pesquisas confirmam o êxodo da classe média de Nova York em geral e de Manhattan em particular fugindo dos aluguéis caros.

Os preços são obscenos. Um amigo acaba de alugar, por US$ 1,5 mil, um estúdio de 40 metros quadrados com vista para a parede do prédio ao lado.

Vem com rato, barata, cheiro de fritura do restaurante mexicano embaixo e o chão é inclinado. De vez em quando ele fica na dúvida se aquela sensação pendular é do vinho ou o chão.

Com raras exceções, como na recessão de 70, morar em Nova York sempre custou caro, mas meu primeiro apartamento, na rua 21 quase na Terceira Avenida, foi barato.

A área não tinha charme, nem restaurantes, livrarias ou cinemas, e o comércio era fraco. Hoje tem de tudo, mas continua sem chame.

O prédio onde morei está lá, do mesmo jeito. O estúdio era de uma diplomata hondurenha que ia passar uma temporada em Tegucigalpa. Tinha uns 30 metros quadrados, mobília feia, cozinha mínima, banheiro para um. Era barato porque vinha com Zum Zum, o gato.

Nunca tinha morado com um gato, mas não imaginei que pudesse ser muito diferente de cães.

A diplomata simpática me garantia que Zum Zum era manso, limpo e asseado. Nada de xixi nem cocô na casa. Fazia tudo na caixinha dele no banheiro. Bastava trocar a areia.

Não houve paixão nem ódio à primeira vista. Zum Zum me recebia com uns dois miados, comia, se lambia e dormia. Até que na vizinhança pintou uma gata no cio.

A expressão "subiu pelas paredes" deixou de ser figurada. Zum Zum dava uma volta de 360 graus no estúdio com um bramido que vinha lá das entranhas. Três, quatro, cinco evoluções, como aquelas motos dentro das bolas de metal no circo. Parava, gemia e rodava de novo.

De dentro do banheiro, pela greta, eu acompanhava o clamor de Zum Zum.

Estava com medo dele. Onde ia dormir? Quando ele fez uma pausa eu sai do banheiro armado com o desentupidor de privada e, devagar, abri a janela. Num segundo Zum Zum voou pela escada de incêndio abaixo rumo a uma alucinante, interminável e histérica rosetação.

No dia seguinte, sem mais esperança de apartamento barato, tomei meu rumo.

Arquivo - Lucas
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