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Atualizado às: 05 de setembro, 2006 - 11h15 GMT (08h15 Brasília)
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Em 2 anos, 32 mil mulheres são estupradas no Haiti
Porto Príncipe, 1/9/2006
Mulher chora durante manifestação contra estupros no Haiti
Cerca de 32 mil mulheres e crianças foram estupradas em Porto Príncipe, capital do Haiti, em pouco menos de dois anos, revelou um levantamento independente.

A vítima mais nova tinha seis anos de idade, mostrou uma análise de 22 meses seguintes à queda do ex-presidente Jean Bertrand Aristide, em fevereiro de 2004. Um em cada quatro estupros foi perpetrado por forças de segurança ou grupos políticos armados,

O coordenador da pesquisa, Royce Hutson, disse que os resultados são "chocantes" e indicam que abusos de direitos humanos continuam sendo comuns e sistemáticos no Haiti, apesar dos esforços internacionais de acalmar a situação.

Forças de segurança – entre as quais se inclui a missão da ONU liderada pelo Brasil – cometeram um em cada cinco homicídios na capital haitiana, disse o pesquisador, que publicou as estatísticas na edição desta semana da revista médica britânica The Lancet. A violência levou a mais de 8 mil assassinatos na cidade.

No entanto, a pesquisa não detalha a participação o grau de envolvimento das tropas da ONU na violência, apenas a incluindo de forma geral como força de segurança.

Violência

Com 2,1 milhões de habitantes, Porto Príncipe tem um quarto da população do Haiti.

Mas em números absolutos de homicídios, a capital haitiana se aproxima do município de São Paulo – que tem uma população cinco vezes maior. São cerca de 4 mil mortos em São Paulo por ano.

Ruas sem nomes ou números, falta de infra-estrutura de comunicação e transportes e uma pobreza extrema obrigaram os pesquisadores da Wayne State University, em Detroit, a mapear via satélite, por conta própria, as 1.260 casas onde os questionários foram aplicados.

Porto Príncipe, Haiti
Tropas brasileiras: Na berlinda

Em meio à violência generalizada, grupos considerados tanto de esquerda como de direita não hesitam em perpetrar violência política, diferente da criminalidade comum, explicaram os pesquisadores.

É alta a proporção de casos de violência cometidos por gangues contrárias ao ex-presidente Aristide e a seu partido, Lavalas, membros desmobilizados do antigo Exército, forças de segurança e a missão da ONU liderada pelo Brasil.

Cerca de 14% dos casos de abuso sexual – 35 mil no total, que incluem os 32 mil casos de estupro – foram cometidos por membros da polícia haitiana ou por outras forças de segurança, enquanto 10% das situações envolveram grupos armados anti-Aristide.

Mais da metade das garotas estupradas tinha menos de 18 anos, sendo que 16% – uma em cada seis – tinha menos de dez anos, disse o dr. Hutson.

"As conclusões evidenciam a necessidade de respostas sistemáticas do governo recém-eleito do Haiti, da ONU e das organizações sociais para suportar as consequências legais, médicas, psicológicas e econômicas da ocorrência generalizada de abusos e crimes de direitos humanos", afirmou o pesquisador.

Deterioração

A co-diretora da organização Working Together for Haiti (Trabalhando Juntos pelo Haiti), Melinda Miles, atribui a violência ao "nível crescente de desespero" originado pela pobreza que assola o país.

Porto Príncipe, Haiti
Mulher se abriga como pode depois da passagem do furacão Ernesto

"Algumas áreas de Porto Príncipe onde antes se podia entrar se tornaram inacessíveis", afirmou Melinda, cuja organização trabalha com grupos de mulheres no Haiti.

"Há também uma falta de lei generalizada, que veio com o retorno do antigo Exército. Esse era um grupo que foi desmobilizado mas nunca desarmado, e voltou logo depois da queda de Aristide, enviando a mensagem de que eles iriam aterrorizar a população novamente", disse Melinda.

Desde julho, quando enfrentamentos entre gangues rivais se acentuaram, a violência parece ter aumentado, disse o pesquisador Royce Hutson.

Ele pediu que os responsáveis pela violência sejam identificados e punidos.

"Se eles continuarem livres, também continuarão a cometer crimes e outras violações de direitos humanos", disse Hutson.

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