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Atualizado às: 23 de agosto, 2006 - 12h42 GMT (09h42 Brasília)
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Biografia retrata 'perda de influência de Lula'

Luiz Inácio Lula da Silva em Córdoba, na Argentina
Crises internar teriam aberto espaço para Hugo Chávez
Uma biografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que será lançada na Argentina nesta quarta-feira, descreve o que o autor considera a trajetória que levou o brasileiro a perder sua posição de líder regional.

Na obra (cujo título em espanhol é Lula, la izquierda al diván - una biografía no autorizada y la difícil relación con Kirchner), o jornalista argentino Ceferino Reato concentra sua atenção principalmente no governo Lula.

Editor da seção internacional do jornal argentino Perfil (definido como crítico ao governo do presidente Nestor Kirchner), Reato fez dezenas de entrevistas para a obra nos quatro anos em que trabalhou como correspondente da agência Ansa em São Paulo.

Em uma entrevista à BBC Brasil, o jornalista disse que sua intenção não foi julgar o presidente Lula, e sim apresentar ao público argentino um quadro mais amplo e complexo sobre governo brasileiro. "Meu objetivo foi jornalístico e sem muitas pretensões. Não quis ser crítico, quis relatar os fatos, mas sem ser ingênuo", disse.

Corrupção, Chávez e Menem

Para Reato, Lula é um personagem com uma história “incrível”, mas ele acha que o publico argentino sabe pouco sobre o que aconteceu em seu governo e continua “santificando” o político brasileiro.

No livro, o argentino conta, em detalhes, os principais capítulos das denúncias de corrupção contra o governo Lula e afirma que a "deterioração de sua liderança regional" acabou abrindo espaço para o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ter maior influência na região.

Reato começa contando o flagrante dos US$ 100 mil encontrados na cueca ("calzoncillos") de um assessor do PT, em julho do ano passado. E segue nessa trilha. O título do segundo dos oito capítulos é "Roba, pero hace" ("Rouba, mas faz").

No decorrer do texto, ele compara Lula aos ex-presidentes argentinos Carlos Menem (1989-1999) e Fernando de la Rúa (1999-2001) e diz que o presidente brasileiro gosta de desfrutar "viagens, uísques, churrascos e futebol".

No livro, que levou quase três anos para ficar pronto, Ceferino Reato afirma que na era Lula "os trabalhadores não foram para o paraíso" e os "grandes ganhadores foram os bancos e os exportadores".

Por que a comparação com Menem? "Os dois são líderes carismáticos, com tremendo olfato político. São dois animais políticos e muito pragmáticos. Lula, como Menem, demonstra pouco apego pela rotina do governo."

A comparação com De la Rúa, que deixou a Presidência dois anos antes do fim, foi outra: "Para nós, argentinos, De la Rúa é sinônimo de paralisação e assim é Lula na hora de ter de decidir sobre a mudança de um ministro no Brasil".

Sobre o trecho em que fala sobre a angústia do presidente quando tem de mudar um ministro e sobre o "aumento da quantidade de cigarros holandeses, coca-cola e uísque e o vacilo na dieta controlada pela mulher" o autor diz: "Meu objetivo foi mostrar um homem real. Churchil (primeiro-ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial, Winston Churchil) também gostava de uísque e entrou para a história".

Durante a entrevista para a BBC Brasil, Reato fez uma lista do que para ele são "limitações importantes" do presidente Lula. "O presidente só estudou até o quinto ano, na equivalência com a educação na Argentina, mas quando teve oportunidade para estudar não aproveitou. Dizia que não gostava de ler."

"Isso impediu que ele soubesse de economia e designou essa missão a (Antonio) Palocci e (Henrique) Meirelles", disse.

"Outra limitacão, na minha interpretacão, é que Lula e o PT diziam que eram os campeões da ética. Mas os escândalos de corrupcão mostraram que ninguém tem esse monopólio da ética".

'Brasil não quebrou'

Mas ele também ressalta pontos positivos do presidente e seu governo. "Quero esclarecer que não tomo partido. Esta é uma decisão dos brasileiros. Eu sou jornalista e estrangeiro."

"Mas acho que ele será reeleito pelo carisma, pelo programa bolsa-família, porque a economia da região está em expansão e porque acabou nascendo no Brasil uma aliança entre ricos e pobres que votam no Lula".

Para Reato, é importante recordar que o país "não quebrou com Lula e estava à beira do precipício" quando ele assumiu.

No livro, ele destaca que a era Lula foi também de estabilidade econômica, mas com a histórica desigualdade social.

Na sua opinião, o principal avanço de Lula é sua própria presença na Presidência do Brasil.

"Com Lula no governo, os pobres não se sentem marginalizados da política. Não acham que a política é para os outros e não para eles."

Ele dedica o último capítulo à relação entre os presidentes do Brasil e da Argentina, Nestor Kirchner, sob o título "Lula e Kirchner, entre o amor e o ciúme".

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