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Atualizado às: 21 de agosto, 2006 - 12h16 GMT (09h16 Brasília)
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Chávez vai à China em busca de votos na ONU

Hugo Chávez, presidente da Venezuela
Chávez está em campanha por posição temporária na ONU
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, inicia nesta segunda-feira uma nova viagem internacional com o objetivo de buscar apoio à entrada do país no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas).

A primeira parada será na China, e de lá Chávez parte para a Malásia e Angola.

Desde a chegada de Chávez ao poder, em 1999, Venezuela e China têm estreitado as relações econômicas e de cooperação em matéria energética, um dos pontos essenciais para o desenvolvimento da crescente economia chinesa.

Mas a candidatura venezuelana para o Conselho de Segurança estará no topo das conversas de Chávez com o presidente Hu Jintao, já que a China é um dos cinco membros permanentes do órgão.

Washington

A disputa por uma vaga no conselho, durante dois anos, abre caminho para uma competição que vai além da disputa entre Venezuela e Guatemala, o segundo candidato da América Latina.

Na opinião de analistas e diplomatas, a disputa foi transformada em mais uma controvérsia entre Caracas e Washington.

Em entrevista à BBC Brasil, o embaixador da Venezuela para as Nações Unidas Francisco Arias Cárdenas afirma que “não se trata de uma contenta comum entre dois países”.

“EUA está tentando influenciar a decisão, fazendo campanha contra a Venezuela, assinalando quais seriam as inconveniências de nossa candidatura”, disse Arias Cárdenas.

Em uma campanha declaradamente “antiimperialista”, o embaixador venezuelano disse que a Venezuela representa a “voz do Sul, uma voz discordante à atual estrutura da organização” que a seu ver não tem atendido às demandas dos países pobres.

Para o ex-embaixador venezuelano na ONU Milos Alcalay, a Venezuela não tem chances de ganhar a disputa. “Se trata de uma candidatura inoportuna e conflitiva”, disse Alcalay à BBC Brasil.

“O governo venezuelano tem que entender que o Conselho de Segurança da ONU não é o espaço para criar uma trincheira contra o imperialismo”, disse o ex-embaixador, que pertencia ao governo Chávez.

Pouco antes do referendo que pretendia abreviar o mandato do presidente venezuelano em 2004, Milos Alcalay renunciou ao seu cargo nas Nações Unidas e passou à oposição.

“Democratizar a ONU”

Cárdenas respondeu às críticas do ex-embaixador. “O que pretendemos é gerar um processo de democratização da ONU. Cada grão de areia que se conquista neste sentido é muito importante.”

As críticas da Venezuela às Nações Unidas são anteriores à candidatura ao Conselho de Segurança.

Em 2005, durante a Assembléia Geral da ONU, o presidente venezuelano questionou a autonomia da organização frente aos EUA e convocou os países membros a “refundá-la”.

Para Arias Cárdenas, “chegou o momento de transformar as Nações Unidas. Há processos que têm que mudar conforme muda a História”.

Para o embaixador venezuelano, um dos atrasos do Conselho de Segurança é o poder de veto que se mantém concentrado em cinco grandes potências mundiais (China, EUA, Rússia, França e Reino Unido).

“O poder de veto é uma realidade que deixa outras potências medianas, como Brasil, sem poder de decisão. Esta é uma luta que todos os países teremos que assumir”, disse Cárdenas.

Sob pressão

Em geral, América Latina apresenta um candidato único para concorrer ao Conselho de Segurança. Dessa vez os países não chegaram a um consenso e será em outubro, durante a Assembléia Geral da ONU que seus 192 membros decidirão o nome do novo representante.

Na América Latina apóiam a candidatura da Venezuela os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), Bolívia, Cuba e mais os 15 países que compõem o Caricom (Mercado Comum e Comunidade do Caribe)

México, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Costa Rica e Colômbia apoiaram publicamente a Guatemala.

O voto do Chile é uma das incógnitas para a eleição de outubro. Ainda que o governo chileno seja um dos aliados dos EUA na região, com a ascensão de Michele Bachelet à Presidência as relações com o governo Chávez se estreitaram.

De acordo com o diário chileno La Tercera, a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, disse ao chanceler chileno Alejandro Foxley, que Washington “não entenderá” um voto do Chile a favor da Venezuela.

Rice, de acordo com o diário chileno, advertiu que o “Chile poderia ficar no grupo dos perdedores” se apoiasse a Venezuela.

Além do respaldo de Washington, a governo da Guatemala argumenta que merece o assento porque nunca ocupou o lugar de membro não-permanente no Conselho de Segurança.

Analistas afirmam que o fato da Guatemala ser um dos países do hemisfério que mais violou os direitos humanos poderia prejudicar sua candidatura.

Campanha pelo mundo

Chávez realizou um giro internacional no mês de julho à Belorus, Rússia, Vietnã, Mali e Irã. Entre as assinaturas de acordos políticos e económicos, o presidente venezuelano aproveitou para angariar votos.

O ex-embaixador venezuelano na ONU critica a estratégia de Chávez ao visitar países não aliados ao Departamento de Estado americano.

“Acredito que a Venezuela não está fazendo diplomacia para captar votos. Em cada voto que conquista, como o de Belorus, perde três votos dos países que não estão de acordo com suas políticas”, disse Milos Alcalay.

Diante do confronto entre Líbano e Israel, antes de que as Nações Unidas determinassem o cessar-fogo, o governo venezuelano decidiu retirar seu encarregado de negócios de Israel, acusando o país de “genocida”.

De acordo com analistas, um dos temores do governo de EUA é de que a candidatura de Venezuela poderia significar uma representação dos países árabes frente às políticas norte-americanas para o Oriente Médio.

A decisão de Chávez uma vez mais provocou polêmica. “Venezuela condena as ações de Israel, mas não as do Hezbollah, esquecendo do direito que tem Israel de conseguir a paz”, disse o ex-embaixador venezuelano.

Para Raimundo Kabchi, professor de Assuntos Diplomáticos do Instituto Pedro Gual, a Venezuela teve uma postura “corajosa” e “coerente”.

“O assassinato de civis tanto no Líbano como na Palestina contradiz as regras do direito internacional”, afirma Kabchi. A seu ver, a posição da Venezuela contribui indiretamente para atrair os votos dos países árabes.

O Ministério de Relações Exteriores venezuelano criticou em uma nota oficial às Nações Unidas por “demorar” quatro semanas para emitir uma resolução que determinasse um cessar-fogo no Líbano.

“Acreditamos que em casos como esse, Venezuela poderia contribuir em gerar uma discussão interna no Conselho de Segurança. Um pequeno aporte poderia acelerar uma resolução. Neste caso evitaríamos muitas mortes”, disse Arias Cárdenas.

O novo membro não-permanente ao Conselho de Segurança necessita angariar pelo menos 128 votos para ocupar o lugar da Argentina que entrega seu mandato no final do ano. O voto é secreto.

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