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Atualizado às: 10 de agosto, 2006 - 16h59 GMT (13h59 Brasília)
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Brasileiras são vítimas de assédio em Portugal

Joana
Joana preferiu trocar de emprego a denunciar o patrão
As brasileiras que atuam como empregadas domésticas em Portugal sofrem mais assédio sexual do que mulheres de outras nacionalidades, segundo Carlos Trindade, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Serviços de Portaria, Vigilância, Limpeza e Domésticas (STAD).

"Os patrões têm essa idéia de que as brasileiras são mais acessíveis e alguns procuram um envolvimento com elas", diz Trindade. "O problema é mais grave quando as imigrantes estão em situação irregular no país, pois os abusos aumentam. O trabalhador está mais frágil."

A paraibana Joana, de 26 anos, foi uma das vítimas do problema. Ela desembarcou em Lisboa em janeiro passado, deixando para trás o emprego de balconista e um filho de 6 anos. Determinada a juntar dinheiro para comprar uma casa, aceitou a passagem de um namorado português, que também arranjou para ela um trabalho como doméstica na casa de um casal. Poucos dias depois, no entanto, começou a estranhar o comportamento do patrão.

"Ele começou a voltar mais cedo do trabalho, antes de a mulher chegar, e ficava tentando alguma coisa comigo", conta. "Ele me dizia que eu tinha vindo em uma boa hora e que o casamento dele era uma fachada, dando a entender que eles já não transavam mais."

"Aqui brasileira já tem uma fama. Muitas vêm mesmo para serem prostitutas. Mas por causa de uma, todas pagam. Mesmo as que querem trabalhar honestamente."

Depois de 15 dias, nos quais não tirou as folgas semanais a que tinha direito, Joana pediu demissão. "Quando acertamos as contas, minha patroa disse: vou te pagar o que você merece – 40 euros (cerca de R$ 112). Tínhamos combinado um salário mensal de 500 euros (aproximadamente R$ 1,4 mil)", lembra. "Eu tinha terminado com o meu namorado e não tinha para onde ir. Passei duas noites na rua e só depois consegui um trabalho na casa de uma outra família."

'Choque'

A solução encontrada por Joana parece ser a mais comum, segundo o presidente do Sindicato. "Os casos de assédio são difíceis de provar porque as trabalhadoras ficam tão chocadas que não querem contestar. Preferem apenas sair do emprego", diz Trindade.

Foi o que fez também a paulista Stella, de 43 anos, em Portugal há um ano. Ao chegar, percebeu que não iria conseguir trabalho como manicure e cabelereira, como tinha no Brasil, e aceitou o emprego de doméstica na casa de uma idosa. Mas acabou se vendo obrigada a arrumar também o apartamento do neto solteiro da patroa, que mora no mesmo prédio.

"Uma vez cheguei à casa dele e o encontrei nu no meio da sala. Ele sabia que eu ia chegar e nem se preocupou em se vestir. Quando fui fazer a cama, reparei que ele tinha se masturbado e deixado tudo sujo de propósito", conta.

"Eu chorei o dia inteiro. Nunca me senti tão desrespeitada. Tenho um filho de 19 anos e sei que ele jamais faria uma coisa dessas. Mesmo sendo um trabalho que pagava bem, 600 euros, preferi voltar a procurar emprego em um salão de beleza."

Heliana Bibas, presidente da Casa do Brasil de Lisboa, confirma que as mulheres brasileiras são vistas em Portugal como "fáceis", mas, para ela, o assédio se agrava no caso das empregadas domésticas por causa do estereótipo que ronda a profissão. "Nos livros, nas novelas, na história do Brasil em geral, a empregada é a mãe dos filhos bastardos do patrão, é a mulher com quem o menino da casa perde a virgindade. Isso é uma vergonha e tem que acabar", diz.

Ela lembra que, no entanto, as brasileiras têm aspectos muito positivos que fazem com que sejam preferidas diante das cabo-verdianas e ucranianas, suas maiores "concorrentes" no mercado português do trabalho doméstico. "Eu sempre ouço dizer que as brasileiras são preferidas para cuidar de idosos porque têm mais paciência e são mais carinhosas", diz.

Carlos Trindade, do Sindicato, acredita que o fato de o idioma ser o mesmo também é uma vantagem para as brasileiras. "Cria-se uma empatia maior e o trabalho pode se tornar mais fácil", afirma.

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