|
Em Portugal, salário é atrativo que 'compensa' maus tratos | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Apesar de muitas brasileiras atuando como empregadas domésticas em Portugal relatarem histórias de abusos de seus direitos trabalhistas e até maus tratos, a maioria reconhece que prefere essa atividade por causa dos salários atraentes – entre 500 e 800 euros (de R$ 1,4 mil a R$ 2,3 mil aproximadamente), segundo depoimentos colhidos pela BBC Brasil. O salário mínimo no país é de 374,70 euros. “A principal vantagem de ser doméstica é que você ganha mais do que em outros empregos, ainda mais porque economiza em aluguel, transporte e alimentação”, conta a baiana Ivone Anjo, de 34 anos, há quatro trabalhando em Portugal, longe do filho adolescente. Neste período, conseguiu juntar dinheiro para realizar o sonho de abrir um café em Lisboa. “Já tenho até o ponto. Agora só falta cumprir a burocracia e ter a documentação.” Enquanto espera, segue como doméstica na casa de uma família na região de Cascais, onde está há dois anos. Antes disso, porém, passou por empregos que descreve como “quase escravidão”. “Eu trabalhava para uma família de portugueses no Brasil e, quando eles voltaram para Lisboa, me trouxeram junto – eu ia ficar desempregada e foi a única luz que vi no fim do túnel”, lembra. “Só que minha patroa se transformou: eu trabalhava para ela, os dois filhos, a mãe e seis irmãos dela em uma casa enorme. Levava as crianças para a escola, fazia comida para essa gente toda… Começava às 8h e terminava à meia-noite. Foram cinco meses em que não tive folga nem recebi todos os salários. E quando cansei e disse que ia embora, ela chegou a trancar a casa para eu não sair.” Ilegalidade Ivone é o exemplo da típica brasileira atuando como doméstica em Portugal, segundo estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, divulgado em março: imigra sozinha, deixando para trás filhos e até maridos, com o objetivo de juntar dinheiro para comprar uma casa, pagar dívidas ou simplesmente “mudar de vida”. A pesquisa mostra que, apesar de Portugal ter uma lei regulamentando o trabalho doméstico, o desrespeito às normas é um dos principais problemas enfrentados pelas brasileiras que atuam como empregadas – e a situação piora quando as trabalhadoras estão no país ilegalmente. Segundo o estudo, a ilegalidade é “aproveitada pelos empregadores, que, com a promessa de um contrato de trabalho, privam a mulher imigrante de vários direitos laborais… como o trabalho em horários atípicos, o assédio sexual e maus tratos”. O mesmo problema é apontado pelo Sindicato dos Trabalhadores de Serviços de Portaria, Vigilância, Limpeza e Domésticas de Portugal (STAD). “Nós verificamos que os patrões abusam na questão da carga horária e ao pagar menos salários e benefícios, por exemplo”, diz o presidente da entidade, Carlos Trindade. “Outros não respeitam as condições mínimas de saúde, higiene e até de privacidade das empregadas.” A mineira Diana foi uma das que ouviu da patroa que não receberia seu 13º salário porque “estava ilegal”, apesar de ter um contrato e contribuir para a previdência. “Ao final de nove meses de trabalho, ela me disse que eu iria apenas receber um ‘presente de Natal’ de 50 euros (cerca de R$ 140)”, conta. “Pelas minhas contas, eu teria direito a 450 euros.” Com medo de ser denunciada ao serviço de imigração – uma ameaça da sua empregadora – Diana também aceitou dormir na lavanderia do apartamento onde trabalhava. “Não tinha aquecimento e passei o inverno inteiro gripada”, diz. Em compensação, conseguiu juntar dinheiro para pagar uma dívida contraída com o ex-marido no Brasil e manda uma remessa mensal para o filho de 19 anos. A socióloga Beatriz Padilla, do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa de Portugal, e autora de vários estudos sobre imigração, defende que, apesar dos casos negativos, a empregada doméstica brasileira trabalhando no país se sente menos estigmatizada do que se estivesse no Brasil. “Lá uma empregada não consegue sobreviver, enquanto em Portugal, ela não só sobrevive como consegue mandar dinheiro para casa e ainda economizar”, explica. “Isso acaba sendo até uma experiência mais libertadora para essas mulheres.” | LINKS EXTERNOS A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo dos links externos indicados. | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||