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Atualizado às: 04 de julho, 2006 - 07h31 GMT (04h31 Brasília)
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CNI teme que Chávez 'contamine' agenda do Mercosul

Hugo Chávez
Para empresários, negociações com EUA e Europa podem ficar mais difícies
A Confederação Nacional das Indústrias (CNI) vê poucas vantagens práticas na entrada da Venezuela no Mercosul, que será oficializada hoje, em Caracas, e teme um possível efeito negativo da adesão do país andino nas negociações do bloco com outros países.

A afirmação é da economista Lúcia Maduro, analista de políticas e indústria da entidade.

Ela diz que os empresários temem a influência do presidente venezuelano Hugo Chávez, que já comprou brigas verbais com vários países e há alguns meses deixou a Comunidade Andina de Nações (CAN).

"A possibilidade de contaminação da agenda externa do Mercosul é o que preocupa os empresários brasileiros", disse ela à BBC Brasil.

Europa e EUA

Eles temem que o já difícil consenso entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai se torne ainda mais complicado com a entrada da Venezuela na hora de negociar acordos com a União Européia ou com os Estados Unidos.

No momento, as negociações com o bloco europeu estão paradas, mas os empresários brasileiros ainda têm esperança de que o diálogo seja retomado e que uma negociação com os Estados Unidos seja iniciada.

Nem mesmo o forte perfil importador da Venezuela - que tem suas exportações concentradas em petróleo e derivados - anima a economista da CNI.

Lucia Maduro acha que, na prática, o acordo vai alterar muito pouco as relações comerciais entre os dois países, já que o Brasil já tem um elevado superávit comercial com a Venezuela, que este ano deve superar os US$ 2 bilhões.

Superávit

"O Brasil não precisa deste acordo para exportar. As vendas já aumentaram muito nos últimos anos", afirma.

O Brasil vem mantendo superávits desde 2001, quando o excedente em favor do país foi de US$ 345 milhões. Em 2004 saltou para US$ 1,26 bilhão e no passado fechou em US$ 1,96 bilhão.

Neste ano, somente nos cinco primeiros meses, as vendas das empresas brasileiras para o país andino já superaram US$ 1,2 bilhão, com saldo de US$ 1 bilhão em favor do Brasil.

O superávit brasileiro é resultado do aumento das exportações de produtos manufaturados nacionais, ao mesmo tempo em que a Venezuela nos últimos anos concentrou as exportações em petróleo e derivados justamente no mesmo período em que o Brasil ampliou sua produção para se tornar auto-suficiente.

A pauta de exportações brasileira é liderada por automóveis, aparelhos mecânicos e elétricos. As importações estão concentradas em energia elétrica, hulha (um carvão mineral), sardinha e alumínio.

O Brasil já é o terceiro fornecedor externo da Venezuela, atrás apenas dos Estados Unidos e da Colômbia.

Com a saída da Venezuela da Comunidade Andina e o conseqüente fim dos acordos preferenciais entre os países do bloco, abre-se mais espaço para os produtos industrializados brasileiros.

Um estudo feito pela CNI no final do ano passado conclui que "as maiores oportunidades estão nos produtos agroindustriais, especialmente em derivados de soja, açúcar e carnes".

Mas o estudo também afirma que, considerando o crescimento das exportações brasileiras nos últimos anos, "a potencialidade de crescimento das vendas externas da Venezuela é maior do que a brasileira".

"Do ponto de vista comercial é bom, mas não chega a mudar o perfil do Mercosul", afirma Lúcia. Ela considerou um avanço o novo cronograma de redução de tarifas de importação entre Venezuela e os membros antigos do bloco.

Cronograma

Por um acordo em vigor desde fevereiro do ano passado, o mercado venezuelano só estaria totalmente aberto aos produtos brasileiros em 2018.

Com a entrada no Mercosul, este prazo foi reduzido para 2012, enquanto os produtos venezuelanos terão acesso livre ao mercado brasileiro no máximo em 2010.

A rapidez nas negociações para a entrada da Venezuela como membro pleno do Mercosul surpreendeu a CNI. Normalmente o processo demora pelo menos um ano e o país andino manifestou a intenção de integrar o bloco do Cone Sul em dezembro do ano passado, na reunião de Montevidéu.

A conclusão das negociações foi anunciada em 23 de maio, em Buenos Aires, e o anúncio oficial será feito nesta terça-feira à noite, em Caracas, numa cerimônia com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dos presidentes da Argentina, Paraguai e Uruguai.

A Venezuela já participa como o quinto sócio do Mercosul na próxima reunião de cúpula do bloco, nos dias 20 e 21 deste mês, em Córdoba, na Argentina.

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