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Análise: Sempre otimista, Bush não contava com violência sectária no Iraque | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Entre as inúmeras falhas do governo Bush para visualizar as implicações da invasão americana do Iraque há pouco menos de três anos, uma sempre se destacou: como no caso da Iugoslávia na década de 90, o fim da ditadura de Saddam Hussein abriria espaço para a violência sectária. Com seu habitual otimismo, o governo Bush minimizou a dificuldade para reorganizar o quadro político na ausência de uma ditadura, que com seus instrumentos brutais consegue impor uma ordem artificial. O resultado está aí. O Iraque nunca esteve tão perto de uma guerra civil escancarada colocando a maioria xiita, barbaramente reprimida nos tempos de Saddam Hussein e agora a grande beneficiada com a nova e precária ordem, contra a minoria sunita, anteriormente privilegiada e a agora ressentida com seu novo status. A explosão da "mesquita dourada" xiita em Samarra, na quarta-feira, teve o óbvio objetivo de impedir que se costure uma colcha de retalhos no Iraque pós-Saddam Hussein. A destruição do santuário e a escalada de violência que se seguiu demoliram a estratégia americana no Iraque baseada na pavimentação de um governo de unidade nacional, liderado pelo bloco xiita, que abra caminho para uma retirada gradual de suas tropas do país. Eleições A expectativa em Washington era de que, na esteira das eleições de dezembro passado, as forças partidárias e religiosas no Iraque pudessem montar um cenário político mais estável. Isso contribuiria para a criação de uma força de segurança local mais robusta. O resultado seria uma significativa redução do contingente americano (hoje na faixa de 140 mil soldados) em meados do ano, a tempo de candidatos republicanos apregoarem grandes progressos no Iraque na campanha para as eleições no Congresso em novembro. Era patente nas últimas semanas que os progressos não se materializavam, tanto na frente política, quanto na "iraquização" do aparato de segurança. Frustrado, o embaixador americano em Bagdá, Zalmay Khalilzad, fez uma cândida advertência na segunda-feira: o governo Bush não investiria "recursos" no Iraque se as forças locais não criassem um governo não-sectário. Líderes xiitas, inclusive o primeiro-ministro Ibrahim Jaafari, criticaram os comentários, enquanto alguns disseram que a idéia de desengajamento americano fora um sinal verde para o ataque de quarta-feira contra a mesquita. 'Jihadistas' Com a deterioração do quadro político e a escalada de violência, se torna ainda mais ingrata a tarefa americana de dissuadir os xiitas de fazerem concessões e assim incorporar os sunitas ao processo político. Sem estes lances políticos acompanhados de um expurgo de radicais xiitas do aparato de segurança, não há como neutralizar a insurgência que envolve tanto remanescentes do antigo regime de Saddam Hussein, como extremistas sunitas e os chamados "jihadistas". No mundo ideal dos insurgentes, a deterioração do quadro político e militar irá fortalecer as milícias xiitas, facilitando a eclosão de uma guerra civil aberta. Nada disso é claro contribui para os planos americanos. Em termos formais, o governo Bush pede moderação e insiste que o curso de retirada gradual das tropas siga inalterado. Mas em meio à escalada de violência, iniciar uma retirada levaria jeito de debandada. Já a possibilidade de um engajamento mais ativo dos militares americanos no incêndio sectário tampouco é um cenário promissor. A semana nos EUA foi marcada por metáforas marítimas em razão do confronto entre a Casa Branca e o Congresso (onde a maioria é Republicana) sobre a decisão do governo Bush de autorizar uma empresa estatal dos Emirados Árabes Unidos a operar os principais portos do país. A rebelião no Congresso mostra a deterioração do poder político do presidente. Junto com a degringolada no Iraque, é a tempestade perfeita. |
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