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Atualizado às: 12 de fevereiro, 2006 - 18h09 GMT (16h09 Brasília)
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Definir Doha é mais importante que consenso, diz Lula

Lula, Tony Blair, Meles Zenawi e Thabo Mbeki (da esq. para dir.)
Da esq. para dir., Lula, Blair, o premiê da Etiópia Meles Zenawi, e Mbeki
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu uma definição da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) mesmo que não haja consenso a respeito do assunto.

A declaração foi feita numa entrevista coletiva concedida por ele e pelos outros seis líderes dos países que participaram da Cúpula da Governança Progressista – África do Sul, Suécia, Nova Zelândia, Etiópia, Grã-Bretanha e Coréia do Sul – realizada neste fim-de-semana num resort nas proximidades de Pretória, na África do Sul.

A rodada está emperrada principalmente porque não há consenso em relação ao fim dos subsídios agrícolas dos países ricos: as nações em desenvolvimento querem mais concessões por parte das desenvolvidas, que, por sua vez, dizem que não podem ceder mais.

“Temos de começar a tomar posições mesmo que não haja consenso. Em um consenso, um no meio de cem atrapalha qualquer negociação. Em algum momento vamos ter de começar alguma decisão”, afirmou Lula.

Na opinião de Lula, não se pode perder a oportunidade de realizar grandes avanços nas negociações de comércio mundial que estão em curso. Portanto, ele defende a interferência dos chefes de governo nas discussões.

“A responsabilidade é nossa, não mais dos nossos negociadores”, disse.

Blair

Num encontro com o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, antes da discussão conjunta sobre o assunto, Lula expressou a ele sua vontade.

Blair explicou que faz parte de um bloco - a União Européia - e que tem de discutir tudo com os demais países integrantes. Porém, o primeiro-ministro disse concordar que as negociações chegaram a um “estágio limite”.

“Achamos que os governos podem, de alguma forma, ajudar. Quero deixar uma coisa bem clara: um fracasso na rodada da OMC será devastador para os países pobres e também para nós. E o tempo corre”, disse Blair.

Já a primeira-ministra da Nova Zelândia, Helen Clark, afirmou que a rodada só será destravada caso todos os três principais grupos negociadores façam concessões.

“Os Estados Unidos têm de reduzir o apoio no mercado interno, a União Européia tem de aumentar o acesso do mercado agrícola e o G20 tem de aumentar o acesso do mercado não-agrícola”, afirmou Clark.

Concessões

Segundo Lula, o Brasil - um dos principais porta-vozes do G20 - está fazendo sua parte.

O presidente lembrou que em todas as reuniões multilaterais das quais o país participou, o governo brasileiro sempre deixou claro que está disposto a fazer as concessões necessárias, mas ressaltou que elas têm de ocorrer proporcionalmente ao tamanho e a riqueza de cada país.

“A proporcionalidade precisa ser respeitada, sobretudo na agricultura, já que o peso da agricultura é diferente de país para país. Para vocês terem uma idéia, a forca de trabalho no campo na França é de 1% (da população do país), na Inglaterra é de 4,8%, no Brasil é de 25% e em Camarões é de 70%”, explicou.

Segundo o presidente, o Brasil já disse estar disposto a fazer concessões nas áreas industrial e de serviços - caso haja proporcionalidade.

“Nenhum país vai ficar mais pobre fazendo concessão aos países mais pobres. Mas os países pobres ficarão mais pobres se não houver um gesto dos países mais ricos.”

Organismos mais fortes

O presidente brasileiro também defendeu organismos multilaterais mais fortes, em que as decisões sejam tomadas pelo voto de todos.

“Nos organismos multilaterais, os mais pobres são maioria, mas como a maioria das coisas não vão a voto, a maioria não aparece. Por isso defendo organismos multilaterais com poder de decisão, porque aí, tanto a China, como São Tomé e Príncipe, Estados Unidos e Nicarágua estão dispostos a acatar a decisão dos votos.”

Vestido com uma bata preta africana oferecida pelo presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, Lula concluiu a resposta da última pergunta da coletiva dizendo que não quer que os países ricos caiam, mas, sim, que os pobres subam.

“Se formos capazes de produzir esse milagre, eu quero fazer parte dele”, encerrou o presidente brasileiro, que, alegando pressa para não perder o helicóptero rumo ao aeroporto antes da próxima chuva, deixou a entrevista, que acabou terminando naquele momento.

A África do Sul foi a última parada do presidente brasileiro nesta quinta viagem que fez ao continente africano desde o início de seu mandato. Com a passagem por Argélia, Benin e Botsuana, Lula visitou um total de 17 países africanos desde 2003.

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