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Atualizado às: 05 de janeiro, 2006 - 21h04 GMT (19h04 Brasília)
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Anarquia na Faixa de Gaza pode ser calculada

Protestos têm irrompido com frequência em Gaza
Apesar de ser época de campanha para eleger parlamentares palestinos pela primeira vez em 10 anos, nas ruas de Gaza pouco se fala de propostas políticas e de perspectivas para os partidos.

O enfoque está mais nos problemas crônicos, crimes e também nas dúvidas sobre se as eleições vão realmente ser realizadas.

Além dos seqüestros de estrangeiros, todos os dias há protestos violentos contra o governo. Prédios públicos são invadidos e manifestantes armados exigem emprego ou, às vezes, a libertação de prisioneiros.

Têm havido ataques a delegacias de polícia e choques entre diferentes grupos militantes.

Show

Mas tudo isto tem que ser analisado dentro do contexto. A maioria dos incidentes está confinada ao sul da Faixa de Gaza, mais especificamente em Rafah - e os tumultos têm um elemento de show.

Ocorreram cinco mortes e pouca violência. Manifestantes armados que ocupam os edifícios do governo, normalmente vão embora depois de mostrarem que são capazes da ocupação.

Mas os distúrbios estão ficando mais freqüentes e gerando uma sensação de insegurança que perturba profundamente as pessoas por aqui.

As raízes do caos são muitas: a sociedade tem se radicalizado e ficou traumatizada com os confrontos com os israelenses, que ocuparam a Faixa de Gaza durante décadas e só retiraram suas tropas e evacuaram assentamentos a alguns meses.

Sem lei

Milhares de palestinos foram mortos, feridos ou perderam suas casas durante os anos de violência. Inúmeras facções armadas costumavam canalizar sua raiva em ataques a Israel - mas com pouco ou nenhum foco.

Neste lugar arrasado, abarrotado de gente e extremamente pobre, a intensa e constante luta pelos poucos recursos que existem pode facilmente levar ao desrespeito total das leis. Vários seqüestros foram realizados por grupos militantes, que em troca dos seqüestrados exigiam empregos em agências de segurança formais.

O melhor dos governos teria problemas para governar em Gaza, e o líder palestino, Mahmoud Abbas, não tem o melhor dos governos.

O seu partido, Fatah, sofre com brigas internas e é uma confusão de grupos competindo pelo poder. Inevitavelmente, a falta de coesão do Fatah e a falta de controle central são refletidas no desempenho do governo que o partido lidera - a Autoridade Palestina.

"Há uma desintegração da nossa situação aqui", diz o candidato independente para as eleições parlamentares, Dr Eyad El Surraj.

"A desintegração atinge a Autoridade Palestina e suas forças, o que é um sintoma da desintegração do próprio Fatah. Não há um processo de tomada de decisões, não há liderança".

Forças de Segurança

E o pior fracasso da Autoridade Palestina é no campo da segurança.

É verdade que várias e diferentes forças de segurança foram arrasadas por Israel ao longo dos anos. Mas elas também sofreram pela falta de coordenação e de um comando sólido. Rivalidades entre as diferentes facções internas podem mostrar-se intensas: no ano passado, uma facção fez uma emboscada para outra e houve troca de tiros entre soldados da Autoridade Palestina na rua principal da Cidade de Gaza.

Clãs e milícias estão sempre prontos para confrontar a polícia e os militares. E normalmente as agências responsáveis por manter a lei e a ordem, recuam e deixam de realizar prisões.

Parte do problema é o grau com que as forças de segurança e os grupos armados que elas deveriam estar controlando se confundem uns com os outros.

Especialistas internacionais concluíram no ano passado que "clãs e afiliações familiares continuam fortes e desafiam lealdades oficiais". E que "vários soldados e oficiais pertencem, simultaneamente, às Forças Armadas e às milícias originadas pelo Fatah".

Desintegração

Estas ligações criam a suspeita de que a atual onda de intranqüilidade tenha tons políticos.

O Hamas, principal oponente do Fatah, suspeita que elementos da elite governante estão deliberadamente criado tensões antes das eleições.

O Fatah está sofrendo seu primeiro desafio eleitoral do Hamas e estaria buscando uma desculpa para suspender as eleições, segundo o Hamas. A suspeita é compartilhada por El Surraj: "Algumas pessoas do comando central do Fatah acreditam que estão perdendo a chance de continuar no poder e não querem dividi-lo com outros partidos - isto é particularmente evidenciado por todos estes sinais de caos".

"Todo mundo suspeita que o caos seja planejado", diz El Surraj. "violação planejada da letra da lei, planejada para atrapalhar as eleições".

O Fatah, no entanto, afirma que está determinado a cumprir a lei. Abbas voltou a falar na necessidade de manter a ordem em Gaza, como prioridade.

E o candidato do Fatah e negociador chefe da Autoridade Palestina, Saeb Erekat, disse que o povo compreende que o seu partido convocou as eleições como uma forma de restaurar a lei.

Existe, no entanto, um consenso crescente com relação à profundidade dos males que afligem a sociedade palestina.

Hafiz Barghouti, editor do jornal Al-Hayat Al Jadeed, escreveu: "Parece que não estamos preparados nem para mudanças e nem para admitir que fracassamos em gerir nossos próprios destinos. Todo mundo está ocupado calculando como tirar o maior ganho às custas da nação".

E conclui: "Enquanto a maioria dos palestinos culpa a ocupação por todos os nossos problemas, é fato que a ocupação não era tão ruim quanto a corrupção e a ilegalidade que agora confrontamos".

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