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Atualizado às: 09 de dezembro, 2005 - 10h42 GMT (08h42 Brasília)
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Estudo mostra latinos pessimistas com corrupção

Partidos políticos são vistos como instituição mais corrupta
Os latino-americanos estão pessimistas sobre o combate à corrupção e acreditam que o problema tende a aumentar no futuro. Esta é uma das conclusões de uma pesquisa realizada pela organização Transparência Internacional e divulgada mundialmente nesta sexta-feira, para coincidir com o Dia Internacional contra a Corrupção.

A pesquisa, que ouviu 55 mil pessoas em 69 países entre maio e outubro deste ano, mostra que em 48 dos países estudados a percepção dos cidadãos era de que a corrupção havia aumentado nos três anos anteriores. Questionados sobre o futuro, apenas 20 desses países dizem esperar um aumento do problema no futuro.

Entre os 15 países latino-americanos pesquisados, em nove deles os cidadãos esperam um aumento no nível de corrupção no futuro, numa proporção bem maior do que no resto do mundo. Em relação ao passado, em 13 países latino-americanos houve um aumento na corrupção nos últimos três anos, de acordo com a percepção dos entrevistados.

O estudo, chamado Barômetro Global da Corrupção 2005, não inclui o Brasil, por questões operacionais.

“Sinal de alerta”

Para a presidente da Transparência Internacional, Huguette Labelle o resultado da pesquisa é um “sinal de alerta”. Ela destaca, porém, o fato de que as respostas sobre o futuro são mais positivas do que as sobre o passado para dizer que isso pode ser uma indicação de que há uma pressão para que a situação mude.

“O combate à corrupção requer liderança, vontade política e pressão”, diz ela, que foi recém-empossada na presidência da Transparência Internacional no lugar de Peter Eigen, fundador da organização.

“Se as pessoas estiverem pessimistas sobre o futuro, sentem que não podem fazer nada para mudar a situação e acabam resignadas”, diz Labelle. “Trabalhamos para mostrar que há coisas que podem ser feitas e que a situação pode mudar para melhor.”

O diretor-executivo da ONG, David Nussbaum, cita os casos de países como Indonésia, Quênia e Geórgia como exemplos de um maior otimismo gerado pela adoção de medidas concretas de combate à corrupção.

A Indonésia teve o maior índice de respostas otimistas – 63% dos entrevistados disseram esperar que a corrupção diminua muito nos próximos três anos e outros 18% disseram que o problema deve diminuir um pouco nesse período. Questionados sobre o passado, 40% dos indonésios disseram que a corrupção caiu um pouco ou muito nos últimos três anos.

Partidos

Percepção de corrupção nas instituições (escala de 1-sem corrupção a 5-extremamente corrupto)
Partidos políticos – 4,0
Parlamento / Legislativo – 3,7
Polícia – 3,6
Sistema legal / Judiciário - 3,5
Setor privado – 3,4
Fisco – 3,4
Aduanas – 3,3
Mídia – 3,2
Serviços médicos – 3,2
Serviços públicos – 3,0
Sistema de educação – 3,0
Forças Armadas – 2,9
Serviços de cartório – 2,9
ONGs – 2,8
Organizações religiosas – 2,6
Transparency International Global Corruption Barometer 2005

De uma maneira geral, os partidos políticos foram vistos como a instituição mais corrupta de uma lista de 15 instituições incluídas na pesquisa. Em uma escala de 1 (não corrupto) a 5 (extremamente corrupto), os partidos políticos foram classificados como 4 na média dos 69 países pesquisados.

Em seguida na escala, vieram o Parlamento / Legislativo (3,7), a polícia (3,6), o Judiciário (3,5), o setor comercial privado (3,4) e o fisco (também 3,4). Entre as instituições vistas como as menos corruptas estão as organizações religiosas (2,6), as organizações não-governamentais (2,8), cartórios (2,9) e as Forças Armadas (2,9).

Os países da América Latina tiveram as mais altas percepções de corrupção nas principais instituições. Os partidos políticos tiveram, na região, uma avaliação de 4,5 na escala, seguidos pelo Parlamento (4,4), polícia (4,3) e o Judiciário (4,3).

Na Europa Ocidental, que concentra a maioria dos países mais industrializados incluídos na pesquisa, a mídia e o setor privado estão entre as instituições vistas como mais corruptas, com uma avaliação 3,3 – a mesma dada para os Parlamentos e atrás somente dos partidos políticos, que tiveram avaliação 3,7.

Propinas

A pesquisa também indica que 9% dos cidadãos dos 69 países dizem ter pago propina ou ter alguém na família que pagou propina no ano anterior. O Paraguai e os Camarões foram os dois países com os maiores índices de entrevistados com respostas positivas – 43%. Outros países com altos índices de pessoas que disseram ter pago propinas foram Camboja (43%), México (31%), Togo e Etiópia (ambos com 30%).

Na outra ponta da escala, em Hong Kong, Japão, Holanda e Espanha menos de 0,5% dos entrevistados disseram ter pago propina no último ano. Em Estados Unidos, Grã-Bretanha, Suíça, Irlanda, Islândia, Dinamarca e Canadá, o índice ficou em 1%.

“Temos que mostrar que a prática da corrupção não é inevitável, que ela pode ser combatida”, diz Labelle. “A corrupção é um problema muito grave, que afeta a todos, mas principalmente as pessoas mais pobres, que têm o acesso dificultado aos serviços essenciais”, afirma.

De acordo com o estudo da Transparência Internacional, o montante gasto anualmente em propinas chega a ultrapassar os 20% da renda familiar em Camarões, Gana e Nigéria. Em Índia, Quênia, Moldova, Togo e Ucrânia, o gasto ficou entre 10% e 20% da renda familiar.

A pesquisa mostra que em alguns países o gasto anual com propinas chega a US$ 200 (cerca de R$ 444) por família. Considerando o poder de compra nesses países, o montante anual pago em propinas alcança o equivalente a US$ 1.095 em Gana, US$ 860 na Ucrânia, US$ 560 em Camarões e US$ 523 na Índia.

Brasil

Apesar de não ter sido incluído na pesquisa deste ano, o Brasil tem uma situação que deve ser vista com preocupação, na avaliação da presidente da Transparência Internacional.

Labelle disse não conhecer os detalhes sobre os escândalos de corrupção que vêm dominando a agenda política no Brasil há vários meses para poder fazer comentários específicos, mas disse que a decepção após um otimismo gerado por expectativas frustradas é perigosa.

“Acho que em qualquer país em que um partido chega ao poder prometendo o combate à corrupção o otimismo pode dar lugar a um pessimismo e uma resignação se não forem tomadas imediatamente medidas para combater efetivamente o problema”, diz ela.

“Há um motivo para alarme quando há um aumento no pessimismo, porque a última coisa que devemos ter é uma população que vê a corrupção como inevitável e que considere não ser possível fazer nada para combatê-la”, afirma.

Para Labelle, como o Brasil não foi incluído na pesquisa, não é possível dizer se o problema aumentou ou piorou nos últimos anos. Ela diz, porém, que para contra-balancear o pessimismo gerado pelos escândalos é necessário que os responsáveis pelos atos de corrupção sejam investigados, processados e punidos.

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