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Investidor estrangeiro tolera corrupção em altos escalões | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A corrupção centralizada, praticada por chefes de Estado, ministros ou pessoas influentes nos governos de um país e que envolve grande volumes de dinheiro, tende a ser tolerada por investidores estrangeiros. Essa é a conclusão do estudo Between Two Evils – Investors Prefer Grand Corruption! (em tradução livre, Entre Dois Males – Investidores Preferem a Grande Corrupção!), elaborado por Johann Graf Lambsdorff, professor da Universidade de Passau, na Alemanha. Um exemplo desse tipo de corrupção seriam as supostas irregularidades que, segundo denúncias feitas nos últimos meses no Brasil, teriam sido cometidas por membros do Congresso e do governo federal. "O atual escândalo envolvendo o Congresso certamente é um caso de grande corrupção", disse Lambsdorff, em entrevista à BBC Brasil. Na semana passada, as suspeitas de corrupção envolvendo o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, levaram a um ligeiro desconforto do mercado, com o aumento do risco-país brasileiro. Mas, após o depoimento de Palocci à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o mercado voltou a demonstrar confiança no país, apesar da crise política. De acordo com o especialista, o investidor direto estrangeiro prefere a corrupção centralizada porque ela "consome menos tempo", pois o empresário não precisa negociar preço de propinas com muitas pessoas nem fazer pagamentos constantes. Paga e logo recebe o serviço, que poderia ser, por exemplo, um contrato sem licitação ou isenção fiscal. "Além disso, em épocas de grandes escândalos o investidor teria mais facilidade de conseguir o que ele pagou porque, se envolve pessoas de alto escalão, seria muito embaraçoso que isso caísse na imprensa", afirmou Lambsdorff, sem se referir a um país em específico. O professor acrescenta que na corrupção centralizada, que ele também chama de "grande corrupção", o próprio investidor pode lucrar com um negócio ilícito. "Observamos casos de investidores que muitas vezes pagam propinas e pedem que parte delas seja depositada em suas contas na Suíça. Essas pessoas começam a trair a empresa para a qual trabalham e os acionistas", afirma. Lambsdorff, criador do Índice de Percepção da Corrupção (IPC), divulgado pela ONG Transparência Internacional, diz que os investidores temem muito mais os efeitos da chamada corrupção descentralizada. Segundo ele, esse segundo tipo de corrupção, que envolve pequenas quantias de dinheiro e funcionários de baixo escalão na hierarquia do Estado, afasta mais os investidores estrangeiros por ser muito mais difícil de controlar. Na avaliação do professor, esse segundo tipo de corrupção também está presente no Brasil. Perspectivas O professor avalia que, se os escândalos políticos no Brasil aumentarem, deteriorando a percepção da corrupção no país, é possível que se concretizem dois cenários no futuro: o fluxo de investimento direto estrangeiro (IDE) pode diminuir ou o país pode atrair "investidores errados" ou "fraudulentos", que vão tirar proveito da corrupção centralizada. Christoph Frei, do Fórum Econômico Mundial, organização que representa cerca de mil empresas ao redor do mundo, diz que os empresários são contra a corrupção em geral. Mas ele endossa a teoria do professor alemão. "A corrupção grande é mais fácil de ser coordenada. A corrupção pequena pode acontecer em um nível muito local, com apenas um funcionário que toma a decisão de exigir propinas", diz. Mas o analista destaca que isso não quer dizer que os investidores internacionais querem ver corrupção nos países em que colocam seu dinheiro. Frei observa inclusive que algumas empresas têm a política de nunca pagar propinas. Quem sairia perdendo, portanto, seria o próprio país que deixa de receber recursos. Segundo cálculos de Johann Graf Lambsdorff, se um país conseguisse melhorar a sua nota no Índice de Percepção da Corrupção em um ponto, isso resultaria no aumento de 15% no investimento direto estrangeiro. Entre 1996 e 2004, o Brasil recebeu, em média, US$ 19,6 bilhões em IDE por ano. Se fosse considerado apenas 15% desse valor, seriam US$ 2,9 bilhões a mais no fluxo de investimentos. Ou seja, o Brasil poderia atrair quase US$ 3 bilhões por ano apenas em IDE, caso diminuísse a corrupção no país. |
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