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Baixa expectativa marca viagem de Bush à América Latina | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
No passado, presidentes americanos enfraquecidos por escândalos domésticos buscavam compensações em realizações externas. A regra não vale para George W. Bush, que nesta quinta-feira inicia uma viagem de cinco dias pela América Latina, com escalas na Argentina (que sedia a Cúpula das Américas em Mar del Plata), Brasil e Panamá. Dentro e fora de casa, o presidente promete continuidade em meio aos dias mais desastrosos em quase cinco anos de governo. No caso da América Latina, continuidade significa mais doses de negligência ou indiferença. A vantagem de continuidade na política hemisférica é que com as expectativas tão baixas não haverá razões para frustração. Nos últimos dias, os mais importantes especialistas norte-americanos nas relações hemisféricas se sucederam para apontar a falta de perspectivas. De imediato, basta olhar para o calendário. Este deveria ser o ano de materialização do Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em uma meta fixada na primeira cúpula das Américas, realizada em Miami em 1994. Como observou Riordan Roett, decano dos latino-americanistas e professor da Universidade Johns Hopkins, Bush não "tem muitas cartas para jogar" nesta viagem. Em Mar del Plata, haverá a ladainha habitual dos americanos sobre as virtudes de livre comércio e democracia em meio às exortações generalizadas contra desemprego e pobreza e a favor de boa governança. Foco na rodada de Doha Apesar do empenho formal por um bloco comercial hemisférico, o próprio Bush reconheceu antes de embarcar que o foco agora é na rodada de Doha, para a liberalização global do comércio em meio a uma realidade em que engataram apenas acordos bilaterais e regionais (como o Mercosul ou Cafta, na América Central), e não um tratado para as Américas. As prioridades latino-americanas mudaram desde a primeira cúpula em Miami. Há até um bom desempenho comercial de vários países da região, mas isto graças a exportações ao gigante chinês. Em termos geopolíticos, há também um fosso de prioridades. Continuidade para Bush significa toda a energia (e desperdício, na avaliação dos críticos) na chamada guerra contra o terror e Iraque. Para Richard Feinberg, professor da Universidade da Califórnia, em San Diego, muitos latino-americanos consideram que "antiterrorismo é uma palavra em código para lidar com grupos que incomodam Washington", numa situação semelhante ao anticomunismo dos tempos da Guerra Fria. Michael Shifter, do Inter-American Dialogue, em Washington, avalia que, em contraste com uma agenda hemisférica comum em 1994, hoje existe este "imenso fosso" entre Washington e seus vizinhos ao sul. Parte do fosso foi construído graças a políticas ineptas de Bush, como agir de forma complacente na esteira de aventuras golpistas na Venezuela. Mas o presidente americano também é uma palavra em código (usando a expressão do professor Feinberg) para dirigentes como Hugo Chávez esbanjarem demagogia nacionalista. Nem tudo, porém, está perdido. Uma pesquisa recente do instituto chileno Latinobarómetro mostra que o antiamericanismo da opinião publica latino-americana deu uma amenizada e Peter DeShazo, do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, em Washington, lembra que Bush tem relações políticas e pessoais decentes com a maioria dos dirigentes da região, a começar com o brasileiro Lula. Não é à toa que tantos analistas, como Peter Hakim, o presidente do Inter-American Dialogue, têm enfatizado que a escala de Bush em Brasília é mais importante do que o encontro de cúpula em Mar del Plata. Como o negócio de Bush é continuidade, ele insiste em atribuir o mesmo papel estratégico ao governo Lula, que amarga a sua própria dose de enfraquecimento e escândalos políticos. Andrés Oppenheimer, que escreve uma antenada coluna sobre América Latina no jornal The Miami Herald, explica a importância do Brasil para a Casa Branca nestes termos: na América Latina, nada preocupa mais Bush do que a emergência de regimes radicais de esquerda estimulados por Hugo Chávez (leia-se Bolívia), assim como instabilidade. O Brasil é o único país com peso político e econômico para conter estas supostas ameaças. Com a rápida escala em Brasília, Bush culmina uma romaria do alto comando americano nos últimos 12 meses. O presidente Lula está prestigiado pelos grandes inimigos de Hugo Chávez e Fidel Castro em uma hora muito difícil do seu governo. Mas talvez seja Bush quem precise mais de Lula, e não o contrário. |
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