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Análise: Mesmo com 'sim', ainda há muito a fazer no Iraque | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Houve uma época em que o referendo sobre a nova Constituição do Iraque, que ocorre neste sábado, era considerado o último passo antes das eleições gerais que fariam do país uma democracia estável e representativa. Agora, o plebiscito é visto como apenas um marco a mais em uma longa e dura estrada, que os ostimistas ainda esperam que termine bem, mas que os pessimistas julgam já ter custado muito e que pode não conduzir a lugar algum. Mesmo se a Constituição for aprovada, ainda vai restar muito a fazer. A minoria sunita do país, que é a maior fonte de insurgentes, se sente deixada de fora da estrutura de federação que a nova Carta propõe. Essa parte da população terá de ser conquistada nas eleições de dezembro. Mas ninguém pode conquistar a simpatia de combatentes que parecem oferecer um número inesgotável de homens-bomba em sua guerra não só contra as tropas estrangeiras e o atual governo, como também contra a comunidade xiita, que eles enxergam como desertores. 'Liberdade' Além disso, o nível de retórica que agora envolve o Iraque é um sinal de como as coisas se complicaram. Tanto o presidente americano, George W. Bush, quanto um dos principais líderes da rede al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, recentemente fizeram do Iraque um grande campo de batalha ideológica. Em vez das palavras reconfortantes que ele esperava dar a esta altura, Bush fala em um enorme combate do bem contra o mal no país. Os críticos ao presidente o acusam de tentar transformar "um trabalho mal feito" em uma "empreitada nobre". Mas Bush não tem medo de tentar fazer os americanos enxergarem além do número diário de vítimas. Em um discurso no dia 6 de outubro, ele colocou o Iraque na linha de frente de uma luta global. "Neste novo século, a liberdade é novamente atacada pelos inimigos, determinados a retroceder em gerações de progresso democrático. Mais uma vez, estamos respondendo a uma campanha global do medo com uma campanha global pela liberdade", disse Bush no discurso. "E mais uma vez vamos assistir à vitória da liberdade", afirmou. "Os terroristas vêem o Iraque como uma importante frente em sua guerra contra a humanidade, mas nós precisamos reconhecer que o Iraque é uma importante frente na nossa guerra contra o terror." Governo islâmico É claro que a Al-Qaeda também enxerga o Iraque como um campo de batalha. A rede nunca escondeu suas intenções de instalar ali um governo islâmico nos moldes do califado que, entre os séculos 8 e 13, controlou o mundo muçulmano a partir de Bagdá, antes de ser derrubado pelos mongóis. Uma pista dessa forma de pensar da Al-Qaeda surgiu com a divulgação de um documento que os Estados Unidos dizem ser uma carta de Al-Zawahiri para o líder da rede no Iraque, Abu Musab al-Zarqawi. Al-Zawahiri teria falado em um plano de quatro etapas: expulsar os americanos do Iraque, estabelecer um Estado islâmico no país, expandir a jihad ("guerra santa") a nações vizinhas e então "lutar contra Israel". O documento começa dizendo: "Quero ser o primeiro a parabenizá-lo pelo que Deus lhe deu para lutar nesta batalha no coração do mundo islâmico, que antes foi o palco de grandes lutas da história do Islã, e que agora é o lugar para a maior batalha do Islã na nossa era". "E pelas lutas que estão acontecendo em várias regiões do mundo islâmico, como a Chechênia, o Afeganistão, a Caxemira e a Bósnia. Elas são apenas o palco de ensaio e preparação para as grandes batalhas que já começaram no coração do mundo islâmico." Os sites normalmente usados pela Al-Qaeda no Iraque negam a autenticidade dessa suposta carta. E antes que algo aconteça, é possível que o Iraque já esteja fragmentado. Nem os xiitas do sul nem os curdos do norte estão de acordo com esse ideal. Para depois Tanto americanos quanto militantes supostamente ligados à Al-Qaeda consideram o período que se estende até as eleições em dezembro como fundamental, apesar de que, na realidade, o futuro do Iraque não será decidido agora, e, sim, muito depois. Alguns suspeitam de que toda esse combate verbal esteja longe das preocupações reais dos iraquianos comuns. Mas ele mostra quais as forças que estão agindo aqui, e qual é o comprometimento de luta dos americanos e seus aliados, de um lado, e de islamitas, do outro. |
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