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Atualizado às: 07 de outubro, 2005 - 22h10 GMT (19h10 Brasília)
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Polícia de Londres combate mutilação genital feminina

Garota sendo circuncisada
Cerca de 200 mil mulheres que vivem na Grã-Bretanha são circundadas
A campanha contra a mutilação genital feminina na Grã-Bretanha, tradição praticada no país por comunidades de imigrantes, ganhou recentemente a adesão da Polícia Metropolitana de Londres.

Desde o ano passado, a investigadora Carol Hamilton, que trabalha há 28 anos na corporação, tem se desdobrado para acompanhar o problema na Grande Londres.

Além de chefiar a equipe de investigação de abuso infantil nos bairros de Hillingdon e Ealing, no oeste da capital britânica, Hamilton também coordena o projeto de prevenção à mutilação genital da polícia londrina.

A investigadora se envolveu no assunto depois que o governo britânico editou em 2004 uma lei que tornou ilegal não apenas praticar a mutilação de mulheres em território britânico, mas também levar as garotas para serem mutiladas no exterior.

"A mutilação genital feminina é um dos piores abusos emocionais e físicos de crianças, porque é um crime de amor, no qual os pais praticam esse horrendo crime contra as meninas", afirmou Hamilton à BBC Brasil.

A ONG Forward (Fundação para a Saúde, Pesquisa e Desenvolvimento da Mulher, na sigla em inglês) estima que na Grã-Bretanha perto de 200 mil mulheres foram circuncidadas e 20 mil meninas correm risco de ter seus clitóris e lábios vaginais removidos.

Acredita-se que a maior parte foi circuncidada nos países de origem de suas famílias, em geral na África. Contudo, muitas meninas foram mutiladas dentro do próprio território britânico, de forma clandestina, embora não haja um levantamento oficial sobre o assunto.

Perda do prazer sexual, infecções urinárias, relações sexuais dolorosas e infertilidade estão entre as conseqüências da mutilação para a saúde das mulheres, sem contar uma série de problemas psicológicos, como a ansiedade e a depressão.

Pesquisa

Desde o primeiro semestre, Carol Hamilton tem promovido inúmeros encontros com líderes comunitários e religiosos para tentar envolvê-los na divulgação da lei de 2004 e no trabalho preventivo sobre o tema. A polícia também tem mantido encontros com profissionais dos serviços sociais e de saúde.

"Há muitos profissionais atuando na área, mas sem conexão entre eles. Estamos tentando estimular a interação entre os diversos setores ligados à questão", explica a investigadora.

A entidade Forward está iniciando neste mês de outubro uma pesquisa para conhecer com detalhes a extensão do problema da mutilação genital feminina na Grã-Bretanha. Os primeiros resultados deverão ser conhecidos em março de 2006.

Segundo Efua Dorkenoo, fundadora da Forward, ONG criada em 1983 por mulheres africanas para combater a mutilação genital feminina, o combate à prática na Grã-Bretanha é crucial para influenciar outros povos a eliminá-la.

"As comunidades dos países em desenvolvimento não são estáticas. Estão sempre viajando de norte a sul, para a África e para cá. Se você muda a mentalidade aqui, isso afetará as pessoas que vivem no exterior", diz Efua, coordenadora da pesquisa.

Operação de reversão

No hospital Saint Thomas, no centro de Londres, a especialista Comfort Momoh atende por ano em torno de 500 mulheres. Cerca de 200 passam pela operação de reversão, quando a abertura natural da vagina é restaurada.

A operação é necessária quando a mulher sofreu o tipo mais grave de circuncisão, o tipo 3, que consiste na retirada de dois terços dos genitais. A vagina é costurada, restando apenas uma pequena abertura.

O tipo 3 é praticado por mais de 90% das mulheres da Somália, de onde viajam para a Grã-Bretanha milhares de refugiados da guerra.

Uma mulher do leste da África que mora em Londres há 13 anos conta que teve a ponta do clitóris removida pela família quando tinha 7 anos.

"Você bloqueia sua mente, não pensa que é um grande problema. Mas quanto mais você pensa a respeito do assunto, mais você diz 'Meu Deus, o que fizeram comigo!' Agora posso relacionar muitas coisas com o problema do passado", diz a vítima, que não quis se identificar.

Ela conta também que teve uma gravidez difícil. “Quando estava grávida de minha filha, não conseguia relaxar sobre uma mesa para ter um exame, e vinham recordações traumáticas da mutilação. Se alguém sofre qualquer tipo de violência, a lembrança do ocorrido é sempre ruim.”

Defesa das tradições

Embora a Organização Mundial da Saúde tenha condenado oficialmente a prática da circuncisão feminina, há quem defenda a tradição, ainda que sem o lado violento do ritual.

"As pessoas seguem tradições, e junto com a tradição existe a identidade. É impossível eliminar a tradição", afirma o ginecologista Abdulcadir Omar Hussein.

Natural da Somália, mas vivendo em Florença, onde trabalha no hospital Careggi, ele reconhece que a prática é prejudicial à saúde das mulheres.

Fazendo questão de dizer que é contra a retirada dos órgãos genitais femininos, mesmo que parcial, Hussein defende uma mudança no ritual de circuncisão.

Segundo sua proposta, que vem sendo apresentada publicamente desde o ano passado, uma pequena agulha é usada para furar a mucosa que cobre o clitóris.

Seria uma forma, segundo o ginecologista, de dar a famílias mais tradicionais uma alternativa de manter a circuncisão feminina, mas evitando danos mais sérios à saúde das garotas.

Considerada como circuncisão pelos povos que a praticam, ela é parte de rituais milenares para preparar a mulher para a vida adulta.

A prática é justificada como forma de promover a virgindade, a fertilidade e prevenir a promiscuidade feminina.

Em todo o mundo, a cada ano cerca de 2 milhões de mulheres são vítimas de algum tipo de mutilação genital, a maioria na África.

Estima-se que cerca de 130 milhões de mulheres vivem com o clitóris e os lábios vaginais parcialmente ou quase totalmente removidos.

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