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Para movimentos sociais, discurso de Lula deixou a desejar | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O secretário nacional de comunicação da CUT, Antonio Carlos Spis, afirmou nesta sexta-feira, em entrevista à BBC Brasil, que o pronunciamento do presidente Lula sobre a crise política que atinge o país ficou aquém do esperado pelos movimentos sociais. “Foi um pronunciamento importante, mas eu esperava um pouco mais”, disse Spis, que também é um dos dirigentes da Coordenação de Movimentos Sociais (CMS), grupo que reúne, além da CUT, entidades como o MST e a UNE. “Chegou um pouco tardiamente essa manifestação”, acrescenta Spis. “Eu acredito que há seriedade do governo na investigação. Mas eu acho que isso ainda é pouco perto da grandiosidade do que foi montado como estratégia de captação de recursos (para o PT).” A CMS convocou para o próximo dia 16 uma manifestação em Brasília. De acordo com o dirigente da entidade, o objetivo do evento é defender a apuração e a punição rigorosa dos envolvidos em casos de corrupção. Spis afirma que a manifestação não será um ato de apoio ao atual governo, e sim ao “projeto político” que o presidente Lula defendeu na campanha de 2002. “A mobilização é pela modificação da política econômica e de apoio a um projeto político que ele (Lula) encabeça, mas pode ser outra pessoa”, diz o secretário da CUT. “O projeto político é o que nós defendemos e que precisa ser resgatado.” Afastamento e golpismo Na opinião do dirigente da CMS, após a vitória em 2002, o presidente Lula se distanciou dos movimentos sociais que o ajudaram a se eleger. Segundo Spis, mesmo depois de alertado, o governo não foi capaz de reverter esse afastamento. “Ele fez mais alianças pela direita, com o PMDB, colocou prazo para o leilão de áreas de petróleo, não resolveu a greve dos servidores públicos federais, tirou o Olívio Dutra do Ministério das Cidades e cedeu ao PP, do Maluf”, reclama o secretário da CUT. “Mesmo assim, com todos os problemas detectados, nós achamos que esse ainda é o nosso governo. Nós queremos que esse projeto político continue”, acrescenta. Spis admite, no entanto, que o desenvolvimento da crise ao longo das próximas semanas será crucial para definir como ficará a relação dos movimentos sociais com o governo Lula. “Essa posição de mais apoio ou de afastamento do governo vai depender muito do que acontecer a partir da semana que vem”, diz o dirigente. O secretário de comunicação da CUT também reconhece que a tese de uma “estratégia golpista da mídia” contra o presidente Lula ficou enfraquecida diante das novas revelações das investigações realizadas pelo Congresso. No entanto, Antonio Carlos Spis diz que, por enquanto, a ameaça de um processo de impeachment contra o presidente é apenas uma das estratégias da “direita brasileira”. A outra é desgastar o governo para tentar recuperar o poder em 2006. “A hora que a direita se sentir fortalecida e puder garantir um processo de impedimento do presidente, eu acho que eles não vão vacilar. Mas eles têm um problema: eles não têm apoio popular. E impeachment sem apoio popular é muito difícil”, conclui Spis. Análise Além de causar um certo desapontamento nos movimentos sociais, o pronunciamento do presidente Lula – que disse se sentir traído e pediu desculpas à população brasileira – também foi criticado por cientistas políticos entrevistados pela BBC Brasil. Para Bolívar Lamounier, da empresa de consultoria Augurium, a reação de Lula ao agravamento da crise política foi “decepcionante” e pode até mesmo dificultar a situação do governo. “O presidente ficou no nível genérico, não foi claro a respeito de quem o teria traído e, portanto, passou a impressão de que continuava não querendo realmente o pleno esclarecimento do assunto”, afirma Lamounier. “O presidente precisa vir a público e se comunicar com a sociedade de uma maneira mais franca”, acrescenta. “O discurso parecia um depoimento na CPI. Era uma coisa genérica e dava a impressão de que não estava realmente dizendo o que o telespectador queria ouvir.” Na opinião de Leôncio Martins Rodrigues, professor aposentado de ciência política da USP e da Unicamp, o pronunciamento de Lula deixou a desejar porque fica cada vez mais difícil para o presidente explicar “certas coisas”. “Alguns políticos da oposição, maquiavelicamente, exigem que o presidente atue como ‘estadista’ e fale à nação com ‘toda sinceridade’”, diz Rodrigues. “Isso o presidente não pode fazer porque implicaria em declarar que estava a par do que estava se passando.” |
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