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Rei saudita: De playboy a diplomata | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Para muitas pessoas, a imagem mais marcante do rei Fahd bin Abdul Aziz Al Saud é de quando era um jovem príncipe, flagrado de madrugada deixando um cassino na riviera francesa com uma atriz em cada braço. Com um olhar confiante e trajando um caríssimo terno ocidental, ele acenou a quem os observava, nem um pouco preocupado com a nada islâmica combinação de bebida, mulheres e jogatina. É claro que este não é um aspecto do passado da vida do monarca que podia ser abertamente discutido pela imprensa saudita. Mas todos sabiam dos rumores. Há histórias de noitadas em clubes de Beirute, casos com dançarinas do ventre e até um caso de uma mulher de um empresário libanês que teria recebido US$ 100 mil anuais para se colocar à disposição. Em 1969, segundo alguns relatos, Fahd perdeu US$ 1 milhão numa só maratona de apostas regada a whisky num clube de Monte Carlo. O seu irmão, rei Faisal, o chamou de volta a Riad. Faisal era o avesso de seu irmão playboy: contido, religioso e dedicado à vida pública. Segundo fofocas da corte, Faisal participava de um jantar com convidados quando Fahd chegou. O então monarca fingiu não tê-lo visto e o deixou em pé em silêncio ao lado da mesa por uma hora enquanto todos observavam. Fahd nunca teria perdoado Faisal por tal humilhação. Alguns rumores chegaram a circular de que ele teria algum envolvimento no assassinato do irmão por um jovem com distúrbios mentais em 1975. Como a maioria das fofocas palacianas, trata-se de uma informação sem provas e que jamais foi investigada pelo núcleo da família real. Fahd não foi imediatamente alçado ao trono, mas se tornou príncipe herdeiro após a morte de Faisal. Após um curto período no papel de rei, Fahd trocou em 1986 o seu título, que passou a ser de guardião das duas mesquitas sagradas – referência aos dois locais mais sagrados para os muçulmanos, Meca e Medina. A decisão marcou uma ruptura completa com seu passado de playboy. Fahd tinha sido um príncipe herdeiro atuante e, antes disso, servido no governo como ministro do Interior e da Educação. O passado de festas o ajudou a ser capaz de, na condição de rei, saber falar com qualquer pessoa. Diplomacia O rei Fahd gostava de dedicar esforços à diplomacia internacional. Tentou pôr fim a 15 anos de guerra civil no Líbano, reunindo os líderes das partes em conflito na cidade saudita de Taif. Em 1981, ele formulou um plano de paz para o Oriente Médio que, no ano seguinte, foi adotado pela Liga Árabe. A iniciativa, que oferece paz a Israel em troca da devolução dos territórios palestinos, foi retomada quase nos mesmos moldes numa reunião da Liga em 2002. Após a invasão do Kuwait pelo Iraque, em 1990, Fahd permitiu a instalação de uma base militar dos Estados Unidos na Arábia Saudita. A decisão foi tomada em meio ao temor de que Saddam Hussein pudesse invadir também o território saudita. O fato, porém, enfureceu o clero conservador do país, que é de extrema importância para legitimar a família real diante de seus súditos. Militantes A decisão tem repercussão hoje, com a campanha da organização extremista Al-Qaeda na Arábia Saudita alimentada por ódio aos Estados Unidos e insatisfação de muitos sauditas pela proximidade da família real com os americanos. A Al-Qaeda nunca ousou atacar diretamente um membro da família real na Arábia Saudita, e nem tentou, até agora, explodir algum de seus palácios. Mas a realeza saudita reconhece que a campanha dos militantes a tem como alvo tanto como os Estados Unidos. Nos últimos dois anos, desde maio de 2003 e o primeiro grande atentado a bomba cuja autoria foi reivindicada pela Al-Qaeda, as forças de segurança realizam uma intensa campanha de combate ao terror. Foram mortos 23 dos 26 homens colocados na lista de mais procurados na Arábia Saudita. Pode ter sido uma estratégia da família real alimentar as forças democrátcas do país para contrabalançar a Al-qaeda, mas o regime de Fahd foi uma decepção aos que esperavam por uma liberalização verdadeira. Em junho, três acadêmicos que assinaram uma petição por eleições foram condenados a penas de seis a dez anos de prisão cada um. Pessoas que participaram de pequenas manifestações neste ano em Riad e Jedá foram presas e punidas com cem chicotadas cada uma. Durante estas manifestações, a polícia e tropas especiais do Ministério do Interior tiveram forte presença. O próximo na linha sucessória saudita é o príncipe Abdullah e, depois, o príncipe Sultan, ministro da Defesa. Mudança real na Arábia Saudita pode demorar até que o trono passe para alguém uma ou duas gerações para frente. |
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