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Análise: Lembrar Srebrenica é combater a impunidade | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Os europeus encaram nesta segunda-feira a vergonha do aniversário de dez anos do maior massacre em seu continente desde a Segunda Guerra Mundial. Ocorreu na Bósnia, no vilarejo de Srebrenica, de onde militares sérvios arrancaram cerca de 8 mil homens e rapazes muçulmanos para serem assassinados nas montanhas vizinhas. Vergonha é o sentimento apropriado, porque tropas holandesas baseadas no vilarejo a serviço da ONU, com a missão de proteger a população, nada fizeram. Mais vergonha ainda porque os dois principais responsáveis pelo massacre são conhecidos e continuam soltos, sob proteção de nacionalistas sérvios e a vista grossa de autoridades em Belgrado, capital da Sérvia e do que sobrou da velha Iugoslávia. Os acusados fugidos são o líder político dos sérvios da Bósnia na época, Radovan Karadzic, e o general Ratko Mladic, que comandou as forças sérvias na guerra fratricida daquele país e nunca escondeu seu ódio pelos que constestavam o domínio sérvio sobre toda a ex-Iugoslávia. Como demonstraram gravações de comunicações dele com as tropas, na ocasião, Mladic destestava sobretudo os muçulmanos, que eram maioria entre a população da Bósnia e de sua capital, Sarajevo. A presença do general em Srebrenica nos dias do massacre é incontestável, pois ele foi até filmado enquanto seus soldados enchiam ônibus e caminhões com os homens da cidade. A desculpa era de que iriam apenas ser interrogados, mas na verdade eram levados à morte, deixando para trás mulheres e crianças. Existem imagens gravadas até da execução de algumas vítimas, reveladas só neste ano, resultado não só da mania de se filmar quase tudo em épocas recentes, mas sobretudo da certeza da impunidade para quem cometia atrocidades durante aquela guerra. Karadzic não estava em Srebrenica na ocasião, mas era o líder político dos sérvios da Bósnia e, portanto, responsável pela orientação do movimento. Divisão na Iugoslávia Vale aqui uma breve explicação política e geográfica, para refrescar a cabeça do leitor. A Iugoslávia da época, país unificado após a Segunda Guerra Mundial sob uma forma de comunismo moderado, era formada por várias repúblicas. Seus habitantes eram de origens e religiões diferentes, mas viviam em relativa harmonia até que, como resultado do esfacelamento do mundo comunista europeu, surgiu um movimento de independência entre algumas repúblicas (Eslovênia, Croácia e Bósnia-Herzegovina). O movimento pró-independência gerou repressão do centro, transformou-se em guerra aberta, e os conflitos étnicos-religiosos se acirraram, gerando brutalidades de todas as facções. Mas observadores internacionais concordam que as maiores atrocidades foram cometidas pelos sérvios, e nenhuma foi mais ampla do que Srebenica, em 11 de julho de 1995, pouco antes do fim da guerra. O conflito se encerrou logo depois, graças a um acordo assinado entre as partes, levadas à mesa de negociação praticamente à força, depois que o governo americano de Bill Clinton finalmente decidiu intervir militarmente e deslanchou um bombardeio aéreo contra os sérvios que os fez desistir de continuar a guerra. Novo conflito iria surgir depois na província sérvia autônoma do Kosovo, entre cristãos sérvios e muçulmanos de origem albanesa, mas isso é uma outra história. Fugitivos Desde o fim da Guerra da Bósnia, a comunidade internacional tenta punir os que cometeram atrocidades naquele conflito. O cabeça supremo das ações sérvias, Slobodan Milosevic, está preso na Holanda, onde enfrenta um arrastado julgamento no Tribunal Internacional de Haia. Outros acusados de crimes de guerra - e não apenas sérvios – têm se apresentado ou sido entregues pelas autoridades locais ao mesmo tribunal. Faltam os responsáveis por Srebenica. Karadicz e Mladic têm sido avistados periodicamente nos últimos anos, mas tentativas da ONU para capturá-los esbarram sempre na proteção que eles recebem de guardas-costas, nacionalistas sérvios, em comunidades onde eles são tratados como heróis. Os promotores encarregados dos processos em Haia acusam ainda o governo da Sérvia de proteger a dupla procurada, apesar das ameaças de sanções internacionais. A Sérvia se juntou a uma república vizinha para formar o novo país que tomou o lugar da ex-Iugoslávia, agora chamada de Sérvia e Montenegro. Muitos suspeitos de participação no massacre de Srebrenica foram presos ou se entregaram ao tribunal de Haia, mas o décimo aniversário não traz esperanças de captura de Karadicz e Mladic, a principal dupla de acusados. Nessa hora, é importante manter a lembrança viva. E prosseguir na busca de justiça, para deixar claro aos que se sintam tentados a praticar crimes de guerra no futuro que a comunidade internacional não deixa esses crimes prescreverem e vai continuar correndo atrás dos responsáveis até capturá-los. |
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