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Movimento que parou La Paz começou como associação de bairro | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A onda de protestos e bloqueios que parou por três semanas a maior cidade da Bolívia, deixando centenas de milhares de pessoas sem combustível, gás de cozinha e até sem alimentos frescos ao bloquear as principais estradas do país, tem sua origem numa cidade a 15 quilômetros de La Paz. El Alto, como diz o nome, fica na parte mais alta do altiplano e no caminho do aeroporto da principal cidade boliviana. E o movimento que colocou milhares de pessoas nas ruas para exigir a renúncia do ex-presidente Carlos Mesa começou como uma associação de moradores para exigir do governo a instalação de infra-estrutura na cidade que é a mais pobre da Bolívia. “El Alto é a cidade mais jovem, mais pobre, mais indígena e mais operária da Bolívia. No fundo é uma grande cidade camponesa”, define o sociólogo Alvaro Garcia Linera, professor da Universidade San Andrés, em La Paz, e especialista nos movimentos populares do país. Linera conta que a população da cidade cresceu muito nas últimas décadas, de 100 mil moradores nos anos 50 para quase 1 milhão atualmente. Essa explosão aconteceu com uma forte migração de camponeses, antigos trabalhadores nas minas fechadas no país nos anos 80, e indígenas, que formam cerca de 80% da população local. 'Favela' Embora seja a terceira maior cidade da Bolívia, os serviços públicos não acompanharam o crescimento da população. Longe das ruas principais, tomadas por vendedores ambulantes de comida e mercadorias, quase não há asfalto, mais da metade das casas não tem esgoto, um terço não tem água encanada nem eletricidade e a coleta de lixo só passa nas ruas centrais. Comparando com o Brasil, o centro parece um bairro pobre de periferia de uma cidade grande, enquanto os bairros mais afastados parecem uma favela. No centro, quase não se vê carros particulares: o tráfego pesado é tomado por peruas lotação levando trabalhadores de um bairro a outro ou para La Paz, onde trabalham muitos dos moradores da cidade. Mortalidade infantil A falta de postos de saúde e de saneamento básico mata duas crianças por semana, segundo o presidente da Federação das Associações dos Moradores (Fejuve), Abel Mamani.
“Estamos fazendo um grande esforço para implantar postos de saúde, com médicos voluntários”, diz Mamani, o líder da paralisação que deixou La Paz sem comunicação por três semanas. O Fejuve, uma federação que reúne as 550 associações de moradores da cidade, começou reivindicando melhores condições de vida para a população local, mas nos últimos quatro anos assumiu reivindicações políticas nacionais. O movimento do mês passado teve origem nas manifestações de setembro e outubro de 2003, que começaram em protesto contra a exportação de gás via Chile, com quem a Bolívia não tem boas relações desde que perdeu a saída do mar para o país, no século 19. A repressão policial às manifestações deixou 59 mortos em El Alto, e as manifestações do mês passado tinham como objetivo, segundo Mamani, “lembrar” o então presidente Carlos Mesa das promessas feitas na ocasião. “Quase dois anos se passaram, e até agora nada”, reclama. Mistura A origem étnica e sócio-econômica da população local é a explicação, tanto de Mamani, como de analistas, para o caráter combativo da cidade. “É a mistura de duas maneiras de atuar, dos mineiros, que eram muito organizados em sindicatos, e dos indígenas e camponeses, que têm seu próprio modo de organização e não se deixam dobrar”, diz o presidente da Fejuve. A paralisação que começou em El Alto teve repercussões em todo o país, mas na cidade nem todos concordaram com o movimento. O ambulante Gonzalo Choquekarti, morador de El Alto há dez anos, disse que concorda com a luta pela nacionalização do gás e do petróleo, mas não participou de nenhuma marcha nem bloqueio de ruas. “Fiquei em casa”, contou ele. Já o eletricista Omar Chavez, que mora em La Paz e trabalha em El Alto, não gostou da paralisação porque perdeu duas semanas de trabalho e de salário. “Era impossível de subir, tudo ficou parado, não se podia trabalhar. Me prejudicou economicamente”, contou Omar. O bloqueio acabou no fim de semana passado quando moradores tanto de El Alto como de La Paz fizeram longas filas diante da distribuidora de gás que fica em El Alta e abastece as duas cidades. Novas manifestações Mas a liderança da Fejuve não descarta novas manifestações se o governo não atender às reivindicações deles – de processar o ex-presidente Gonzalo Sanches de Lozada pelas mortes de 2003, convocar uma constituinte e nacionalizar o setor de gás e petróleo – e de convocar eleições antecipadas para o Congresso, que tem mandato até agosto de 2007. “Se não tiver eleições gerais nós fechamos o Congresso”, ameaça Mamani. Na avaliação do sociólogo Alvaro Garcia Linera, a Fejuve vai continuar exercendo sua influência e poder de mobilização em El Alto enquanto faltarem recursos básicos à cidade, mas ele não acredita que o grupo tenha no momento capacidade de organizar novas manifestações da dimensão desta última. “As pessoas estão cansadas. Mas a capacidade de organização continua e pode ser usada de novo no futuro”, afirma. O professor Carlos Toranzo, do Instituto Latioamericano de Pesquisas Sociais, concorda o movimento vai continuar, mas com mesma força. Ele acha que todo o desgaste das últimas semanas teve um saldo positivo para os bolivianos, porque pode resultar nas eleições gerais e num novo Congresso. “Há uma pequena luz de esperança de que as coisas podem melhorar no futuro, com um novo Congresso”, diz ele. Mas ele diz que as demandas do movimento são muito radicais e impossíveis de serem atendidas. “Lembra os movimentos do fim dos anos 60 e início dos 70, quando faziam reivindicações econômicas impossíveis de serem atendidas, porque na verdade tinham um objetivo político.” Já Gonzalo Cháves, professor da Universidade Católica Boliviana, é mais pessimista e acha que o movimento vai prejudicar El Alto economicamente e comprometer seu futuro. “Todos esses problemas inviabilizaram a cidade. Os poucos investimentos que havia agora devem sair de lá”, afirma. “A única maneira de resolver os problemas é com mais investimento, com mais emprego, com um Estado mais forte. E para isso são necessários recursos, que cada vez são mais escassos em El Alto.” |
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