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Atualizado às: 16 de junho, 2005 - 08h27 GMT (05h27 Brasília)
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Caio Blinder: Eleição no Irã pode alterar relações com EUA
Hashemi Rafsanjani se registra para votar nas eleições
Ex-presidente Rafsanjani é o candidato favorito
Agora que desfralda a bandeira da democracia em todas as partes do mundo, o governo Bush diz não estar impressionado com as eleições presidenciais iranianas.

Nesta sexta-feira acontece o primeiro,turno e o Conselho de Guardiões – o cão de guarda da revolução xiita – desqualificou mais de mil candidatos da disputa, inclusive todas as mulheres.

A secretária de Estado Condoleezza Rice afirmou que o Irã está fora de sintonia com uma tendência pró-democracia no Oriente Médio.

O candidato mais reformista, Mostafa Moin, só teve permissão para concorrer por uma decisão direta do aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo do país. Não foi por escrúpulo democrático, mas para que houvesse contrapeso ao veterano político e ex-presidente Hashemi Rafsanjani, favorito e grande rival de Khamenei dentro do sistema que controla o país desde a revolução de 1979.

Os oito anos de governo do atual presidente, Mohammad Khatami, frustraram expectativas reformistas. Com isso fica mais fácil até para candidatos da linha dura ou de mais díficil definição como Rafsanjani adotarem a retórica da reforma.

Astúcia

Rafsanjani não é um democrata por convicção, mas tem astúcia política e, quando convém, posiciona-se no centro político.

Nas últimas semanas, ele tem se esforçado para impressionar os EUA e o resto da comunidade internacional preocupada tanto com o perigo de consolidação do poder pela linha dura, como com as ambições nucleares do país.

Em repetidas entrevistas à imprensa, Rafsanjani argumenta que, por sua experiência e peso político, ele é o único candidato em condições de melhorar as relações com o Ocidente.

Considerado o pai do programa nuclear iraniano, ele insiste que seu país jamais irá desistir do projeto de enriquecimento de urânio, mas que vai convencer o mundo que os objetivos são pacíficos.

A astúcia de Rafsanjani é lendária. Protegido do aiatolá Khomeini, o patrono da revolução xiita, Rafsanjani engrossava o coro contra o "Grande Satã", mas sempre que tinha oportunidade acenava para os EUA.

Seus gestos nos últimos dias, portanto, não causam surpresa. Sua provável ascensão ao poder irá representar um marco. Será o ressurgimento de um político relativamente pragmático que parecia acabado (nem conseguiu ser eleito deputado no ano 2000), capaz de moderar a trajejtória de endurecimento do regime iraniano.

Manobras restritas

Mas o especialista Bahman Baktiari, professor da Universidade do Maine, adverte que, embora Rafsanjani, hoje com 70 anos, sempre tenha sido um político pragmático, ele não tem a mesma margem de manobra que possuía quando foi eleito presidente pela primeira vez em 1989. O cenário é distinto, pois o aiatolá Khamenei centralizou o poder nos últimos anos.

Tampouco nada garante que o governo Bush atue com flexibilidade em relação a Rafsanjani. A chamada guerra contra o terror é pedra de toque da política da Casa Branca.

Há um mandado de prisão contra Rafsanjani na Alemanha, sob acusação de que teria ordenado o assassinato de três dissidentes iranianos no país em 1992 e também denúncias do seu envolvimento no atentado contra o centro da comunidade judaica de Buenos Aires, em 1994, que deixou 87 mortos.

Ele nega as acusações, e muitos genuínos - mas desconsolados - reformistas no Irã dizem que o caminho será oferecer apoio tático a Rafsanjani se ele assumir o poder.

Shaul Bakhash, professor da Universidade George Mason, diz que, mais do que exibir credenciais reformistas, Rafsanjani está basicamente empenhado em convencer que será um presidente efetivo.

Shirin Ebadi, a iraniana que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2003, escreveu na quarta-feira um artigo no jornal Wall Street Journal, advertindo que os EUA e países europeus hoje estão mais preocupados em eliminar o programa nuclear do que ajudar o povo iraniano a reformar o regime que está atrás deste programa.

Mas mesmo o potencial de Rafsanjani para avançar as negociações nucleares deve ser visto com cautela. Ele é osso duro de roer.

Na década de 80, Rafsanjani usou sua influência junto a extremistas xiitas para conseguir a libertação de reféns americanos no Líbano, mas as negociações se arrastaram por anos e desembocaram no escândalo Irã-contras, que manchou o legado do ex-presidente Ronald Reagan.

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