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Atualizado às: 03 de junho, 2005 - 23h06 GMT (20h06 Brasília)
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Entenda as raízes da crise boliviana
Camponês boliviano
A maior parte dos bolivianos permanece pobre
Desde que assumiu a presidência da Bolívia, em outubro de 2003, Carlos Mesa vem enfrentando protestos quase diários.

De acordo com seus cálculos, ocorreram mais protestos do que o número de dias em que ele está no poder.

Para comentaristas experientes em política boliviana, não há nada de novo em protestos nas ruas e bloqueios de estradas, mas para James Painter, um ex-correspondente da BBC em La Paz e analista regional, vários fatores, alguns novos e outros de origem antiga, contribuem para tornar instável a permanência de Mesa no cargo.

O fim do consenso político

Para surpresa de muitos, a Bolívia tem permanecido relativamente estável nos últimos vinte anos.

A Bolívia tem a tradição de sofrer golpes de Estado, apresentando o nada invejável histórico de ter passado por mais golpes do que o número de anos decorridos desde que se tornou independente da Espanha, no início do século 19.

A partir de 1985, as eleições acontecem com regularidade e o poder vem sendo dividido praticamente entre os três partidos principais, o MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário), o ADN (Ação Democrática Nacionalista) e o MIR (Movimento de Esquerda Revolucionário).

Todos os três adotaram políticas de livre-mercado para tentar tirar a Bolívia da pobreza e conquistaram cerca de 70% dos votos.

A maioria dos analistas concorda que, embora isso tenha dado alguma estabilidade à Bolívia, duas décadas de democracia não desenvolveram partidos políticos que atendam às expectativas do povo.

Como explica John Cabtree, autor de um novo livro sobre a Bolívia, Patters of Protest, os partidos teriam falhado em uma das funções-chave da democracia, que é fazer a ligação entre a sociedade e o Estado.

Em vez disso, diz Crabtree, os partidos estavam mais interessados em conquistar posições no governo, o que os deixou com uma péssima reputação.

Ao mesmo tempo em que crescia a desconfiança em relação ao governo, aumentavam também os protestos, em parte ajudados pela proliferação de organizações não-governamentais.

A Bolívia tem um grande número de ONGs, muitas baseadas em comunidades indígenas.

O fracasso das políticas de economia de livre mercado

Muitos bolivianos estavam preparados para enfrentar o ‘tratamento de choque’ introduzido em 1985 para conter a hiperinflação, que chegou a alcançar 24 mil%.

Um sofrimento a curto prazo para colher benefícios a longo prazo. Vinte anos depois, entretanto, os benefícios visíveis são poucos.

Observadores dizem que alguns indicadores como mortalidade infantil melhoraram, mas o nível de poder aquisitivo permanece igual ou pior.

A Bolívia ainda é o país mais pobre da América do Sul, com cerca de 30% da população vivendo com menos de US$ 1 por dia.

É também uma sociedade bastante desigual, onde a maioria indígena de 62% da população concentra também o maior número de pobres.

Como diz Crabtree, os campos mais progressistas da economia, a soja e a extração de gás natural, não geram muitos empregos.

O colapso simultâneo das instituições políticas e econômicas estão na raiz da instabilidade atual.

“Os dois modelos de anos recentes estão em crise”, disse à BBC, Gonzalo Chaves, da Universidade Católica de la Paz.

“Eles não resolveram os problemas de pobreza e exclusão social.”

O ‘saque’ de recursos naturais

Não é por acaso que o estopim da crise atual é a discussão sobre uma nova lei que rege a exploração das ricas reservas de gás natural bolivianas e sobre qual deve ser o papel do Estado e o das empresas estrangeiras.

Provavelmente não existe outro país latino americano onde o assunto reservas naturais acirre tanto os ânimos. E não é difícil ver o porquê.

A Bolívia não tem saída para o mar e a maior parte do país se encontra nas montanhas andinas. Transporte é coisa cara. Os únicos produtos que a Bolívia consegue exportar com sucesso são manufaturados a um alto custo.

Ao longo de sua história, o país tem sido um exportador de prata, depois ouro, borracha, gás e, mais recentemente, cocaína. Mas a Bolívia permaneceu pobre.

Muitos bolivianos culpam o que chamam de “saque” de seus recursos naturais por parte de estrangeiros.

Não causa surpresa, então, que um tema freqüente de muitos protestos seja a hostilidade às empresas estrangeiras (em especial o controle do suprimento de água em Cochabamba e El Alto).

Recentemente, os manifestantes vêm pedindo a nacionalização de empresas estrangeiras de gás e petróleo, uma reivindicação rara na América Latina contemporânea.

Será que a Bolívia é ingovernável?

Outra complicação são as fortes tensões regionais. As províncias do leste de Santa Cruz e Tarija, onde grande parte da indústria de energia fica baseada, querem mais autonomia e a garantia de que os investimentos estrangeiros vão continuar na região.

Mesa tem a difícil tarefa de administrar essas reivindicações, as dos partidos mais radicais, de empresas estrangeiras, dos partidos políticos, do Congresso, da embaixada americana e de instituições financeiras internacionais.

Será que ele terminará seu mandato em 2007 ainda no poder? Os problemas bolivianos estão cada vez mais visíveis e chegar a um consenso será difícil.

Poucos apostam na sobrevivência de Mesa.

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