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Atualizado às: 01 de junho, 2005 - 09h52 GMT (06h52 Brasília)
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Missão no Haiti corre risco de fracassar, diz general brasileiro

General brasileiro Augusto Heleno Ribeiro Pereira
O general Heleno comanda as forças da ONU no Haiti há um ano
O general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, comandante da Força de Estabilização do Haiti (Minustah, na sigla em francês), diz que existe muita pressão sobre as forças de paz da ONU, mas que o fim da violência haitiana depende da melhora econômica no país, o mais pobre das Américas.

"Ou os atores envolvidos no Haiti se convencem que a mudança passa pela mudança dos itens básicos de infraestrutura ou vamos ter uma outra missão fracassada como todas as anteriores", disse ele em entrevista por telefone à BBC Brasil.

A missão da ONU no país, que termina nesta quarta-feira, foi renovada até o dia 24 deste mês, em vez dos 12 meses pedidos pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan.

Neste período os diplomatas continuam negociando a extensão do prazo até o ano que vem.

O presidente atual, Boniface Alexandre, era o presidente da Suprema Corte do país e assumiu o cargo, de acordo com a constituição do país, depois da queda Aristide - que em fevereiro fugiu para a República Central Africana e hoje está exilado na África do Sul.

Por recomendação do Conselho de Idosos, Alexandre escolheu Gerard Latortue como primeiro-ministro interino.

Na entrevista à BBC, o general Heleno se diz confiante na renovação da missão de paz pelo Conselho de Segurança da ONU, mas diz que não pode garantir que as eleições marcadas para outubro, novembro e dezembro no país vão ocorrer sem nenhum tipo de violência.

"Eu nunca prometi que as eleições iriam ocorrer sem problemas", disse. Para ele, é preciso ter com o país o mesmo nível de tolerância que houve com outros países, como Afeganistão e Iraque.

O general também explicou que o interior do país está calmo, mas que na capital, Porto Príncipe, com população de 2,5 milhões de pessoas, não há homens suficientes para garantir a segurança.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil - Como está a segurança no Haiti no momento?

General Heleno - Continuamos a ter alguns bolsões de insegurança na capital, o restante do país está absolutamente calmo há seis meses. Na capital, ainda não conseguimos impor um nível de segurança aceitável. Ainda temos que trabalhar para que isso seja mais minimizado em Porto Príncipe.

BBC Brasil - Mas é na capital que mora a maioria das pessoas, não?

General Heleno - A capital tem 2,5 milhões de habitantes, mas além dos problemas de segurança em Cité Soleil, Telé, Rota Nacional, problemas de seqüestro, que nós não podemos negar, aqui tem um problema de neurose da população haitiana em relação à segurança. Além das forças de segurança teríamos que ter forças psicológicas pra trabalhar com a população do Haiti e mostrar que uma cidade com 2,5 milhões de habitantes não vai jamais ter uma segurança perfeita. Nenhuma capital do mundo tem uma segurança perfeita.

 O efetivo que nós temos condições na rua diariamente em Porto Príncipe, incluindo as forças haitianas, chega a 1,5 mil homens. Brasília, que tem população semelhante, tem mais de 20 mil policiais.

Tenho a impressão que cada um dos habitantes de Porto Príncipe gostaria de ter um soldado com capacete azul andando ao lado dele na rua. E isso nós não temos de maneira alguma condições de fazer.

O efetivo que nós temos condições na rua diariamente em Porto Príncipe, incluindo as forças haitianas, chega a 1,5 mil homens. Brasília, que tem população semelhante, tem mais de 20 mil policiais. Então existe um excesso de trabalho para poucos policiais.

Enquanto a comunidade internacional achar que o problema do Haiti é exclusivamente de segurança - estou completando um ano aqui e até hoje e não vi nenhuma modificação da caótica economia do país - nós vamos viver essa situação.

BBC Brasil - O presidente Lula chegou a dizer quando esteve aí que o Haiti era um problema sem solução. O senhor concorda com isso então?

General Heleno - Eu não acho que não tenha solução. A solução do problema passa por uma mudança de comportamento dos atores interessados no Haiti. Ou os atores envolvidos no Haiti se convencem que a mudança passa pela mudança dos itens básicos de infraestrutura para mudar um pouco a vida dessa população e para dar esperança pra essas pessoas, ou vamos ter uma outra missão fracassada como todas as anteriores.

O caminho tem que ser diferente. O mesmo caminho vai levar ao mesmo resultado.

BBC Brasil - Essa missão acaba nesta quarta-feira mas foi renovada. O senhor acha então que não adianta manter a missão se não houve investimento na economia do país?

General Heleno - Isso pra mim é tão óbvio. Qualquer pessoa que passa uma semana aqui consegue avaliar isso. O que acontece é que tem interesses em jogo que não me cabe tecer comentários.

Qualquer pessoa que venha pra cá pode ver isso. Eu não entendo como se insiste em tratar o problema do Haiti como vem sendo tratado.

BBC Brasil - E o senhor vê alguma mudança neste sentido para os próximos meses?

General Heleno - Na comunidade internacional tem muita gente inteligente que trabalha nesta área que pode trabalhar neste sentido. Não é minha função. Minha função aqui é tentar manter a segurança, garantir as eleições e que o novo governo eleito tome posse. Espero que homens inteligentes ponham em prática uma nova política no Haiti porque esta sabidamente não está dando certo.

 Coisas que nos exigem aqui, que nos pressionam (a fazer), eu não vou fazer. Eu não vou carregar o remorso de ter matados mulheres e crianças para tentar pegar um bandido. Eu não faço isso. Sou pressionado e resisto à pressão.

Não adianta culpar as forças de segurança. Volta e meia nós somos escalados como o culpado da vez. Na semana passada houve uma campanha pra dizer que nós não estamos conseguindo manter a segurança. Desde que cheguei aqui eu disse: se nós nos dedicarmos exclusivamente à segurança, não vai funcionar. É como incêndio em época de seca. Você apaga um foco e aparece outro

BBC Brasil - Considerando a situação atual, vocês conseguiriam garantir a segurança para as eleições, marcadas para o fim do ano?

General Heleno - Sim, desde que haja em relação à eleição no Haiti a mesma tolerância que houve em relação à segurança que houve no Afeganistão, no Iraque, anteriormente na Colômbia e em outros países. Mas querer que não haja nenhum problema nas eleições também é impossível.

Infelizmente a tolerância no Haiti é muito mais baixa do que em outras regiões do mundo. Eu nunca prometi que as eleições iam ocorrer sem problemas. Vão acontecer problemas, mas dentro do nível de tolerância de outras eleições que foram realizadas em outras regiões do mundo em condições difíceis como esta aqui.

BBC Brasil - A violência no Haiti é mais urbana, como no Brasil, ou é violência política?

General Heleno - Tem algumas ações que se pode avaliar como ações com intenção política. Mas esta onda de seqüestro, por exemplo... Esta semana houve três seqüestros. Três seqüestros em qualquer capital do mundo é um número baixíssimo, mas aqui é considerado o caos. Mas com isso eu já me acostumei.

Os seqüestros são para conseguir dinheiro. A grande maioria das ações são em locais pobres, favelas, e bastante localizados. Ainda temos áreas com atuação muito grande de bandidos que mantêm a população aterrorizada, conhecem o local muito melhor do que nós.

A força militar não é preparada para ações em terrenos como de favela. Uma ação com armas letais num local onde os barracos são feitos com papelão ou folha de zinco vai fazer um monte de vítimas inocentes e nós somos uma força de paz. Coisas que nos exigem aqui, que nos pressionam (a fazer), eu não vou fazer. Eu não vou carregar o remorso de ter matados mulheres e crianças para tentar pegar um bandido. Eu não faço isso. Sou pressionado e resisto à pressão.

 Há dez anos o Haiti anda pra trás. Temos que fazer este país andar para frente ou então não tem solução.

BBC Brasil - As forças não estão equipadas para o tipo de ação que estão encontrando, é isso?

General Heleno - As forças são militares, então estão equipadas com equipamento de guerra. Nossa missão aqui é clara: nós estamos aqui para apoiar a polícia nacional do Haiti. Quem vai atuar na primeira linha é a polícia nacional do Haiti, mas eles têm problemas de efetivo pequeno e falta de preparo. A polícia tem cerca de 5 mil homens. As forças da ONU tem 6,2 mil no país todo e temos que ter presença em todo o país. É justamente por isso que a situação está calma no resto do país.

BBC Brasil - Quais são as perspectivas do senhor para os próximos meses?

General Heleno - Muito trabalho e a esperança de ver o dinheiro que está destinado ao Haiti ser transformado em ações para efetivamente melhorar a vida da população. Isso até agora eu não vi. Existem vários projetos e até agora nada saiu do papel. As desculpas são as mais diferentes.

Eu quero ver chegar água em Cité Soleil, quero ver tirarem o lixo das ruas, tirar carcaça da rua. São coisas que não me parecem tão difíceis, mas que mudariam o panorama totalmente.

BBC Brasil - Eu sei que isso não é tarefa militar, mas o senhor tem conversado sobre isso com o governo, pedido mais ajuda?

General Heleno - Eu falo sobre isso desde a primeira semana que eu cheguei aqui. O diagnóstico imediato era que o problema não era exclusivamente militar. O meu diagnóstico é que é minimamente militar, e muito mais social, humanitário e econômico. Neste ano não mudou nada.

BBC Brasil - O Brasil tem quantas tropas atualmente?

General Heleno - Nós vamos reduzir as tropas brasileiras, de 1,2 mil homens para 950 homens, mas vamos ter uma tropa de engenharia, com 150 homens que vai ajudar na reconstrução, que têm por hábito trabalhar em ações humanitárias. A troca de comando acontece no dia 16 e a partir do dia 6 começam a chegar e partir novas tropas. E isso também é um problema, porque os que chegam agora não conhecem o país e tem que ser treinados. Nem o comandante conhece sua área de atuação. E isso acontece também com as tropas de outros países. Dos 16, oito estão trocando suas tropas agora.

BBC Brasil - A nova resolução, que está em discussão na ONU prevê o aumento das tropas de 6,7 mil para 7,5 mil. Isso muda a avaliação que o senhor fez das dificuldades?

General Heleno - Pode por 40 mil aqui, se não houver uma mudança no tratamento que é dado ao Haiti não adianta. Podemos transformar o Haiti num Estado policial, ou até num campo de concentração gigante, mas isso não vai mudar o presente, o futuro do país, não vai mudar a crença na democracia. Há dez anos o Haiti anda para trás. Temos que fazer este país andar pra frente ou então não tem solução.

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